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Mitologia egípcia, Deuses egípcios – Dicionário da Mitologia Egípcia

deuses egpcios

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A – Entre os egípcios era o hieróglifo que representava a íbis, ave sagrada.

AALU – O Céu. Designava, também, os “Campos de paz” na abóbada terrestre, onde Ré tinha seu trono; era, portanto, a morada dos deuses e das deusas, assim como das almas de todos os egípcios respeitáveis.
As terras férteis, que populações felizes habitavam, mereciam, igualmente, o nome de Aalu. Finalmente, dava-se essa denominação àquela parte do Céu, espécie de Campos Elísios, onde se desenrolou o reinado de Osíris.

AARU – V. Aalu.

ADORADORAS DE AMON – Entre as tocantes imagens que o Egipto antigo nos deixou, destacam-se aquelas que representam Caromana, Amenárdis e Sapenupet. Essas altas personagens não foram rainhas comuns. Eram, no tempo dos reis líbios, etíopes e saítas, as “Divinas Adoradoras de Amon”, as verdadeiras espo­sas do deus.

AMON – Foi a política que assegurou o sucesso histórico de Amon. Deus dos reis tebanos que expulsaram os hicsos, tomou-se o deus supremo do Estado libertado, e logo a seguir o protector do Império que então se constituiu. Sob as dinastias do Novo Império podemos ver com mais precisão a sua vertiginosa carrei­ra. Os templos, as riquezas fabulosas que possuía, o clero pode­roso que o servia, clero esse que desempenhou em inúmeras oca­siões papel importantíssimo, mostram à evidência que seu pres­tígio e poder cresceram desmesuradamente no espaço de poucos anos, deixando para trás todas as demais divindades do país. A decadência de Amon nasceu desse excesso mesmo de poder: mui­tos cultos tinham sido lesados e os sacerdotes de Amon, exces­sivamente poderosos, não raro representavam temível ameaça para os faraós. O episódio de Amarna – v. ,{ton – não foi senão um caso isolado, um brado de alerta; sob as dinastias seguintes vemos a continua ascensão dos cultos que Amon eclip­sara. Sem dúvida, o grande deus tebano, durante muito séculos, conservará.. ainda seu poder; durante muito tempo será o deus nacional; os seus sumos-sacerdotes encontrarão, até, a possibilidade de instituir reis e de governar o país através de oráculos; seu culto espalhar-se-á até aos oásis líbios, e os soberanos etíopes o adoptarão como deus supremo.
Mas a destruição de Tebas (664 a.C.) pelos assírios deu o golpe de misericórdia no culto de Amon. Os deuses das provín­cias, libertadas do jugo económico de Tebas, ergueram a cabeça e retomaram antigos direitos e privilégios; Osíris, pouco a pouco, começa a ocupar o lugar que fora de Amon; em Tebas, arruinada e sem prestígio, Amon contava, ainda, com alguns adoradores.

AMULETOS – Por virtude de participação natural, a imagem é um tão verdadeiro receptáculo de forças activas, que o homem mumificado, para defender a sua vida eterna, abarrota-se de figurinhas, enfiadas em forma de colar ou dispostas sob as faixas. Esses amuletos, conforme a situação económica do defunto, eram de ouro, de bronze, de pedra ou de faiança. Todo o imenso e confuso panteão egípcio, deuses e animais sagrados, é reprodu­zido por esses minúsculos ídolos, alguns de graça encantadora, que velarão com segurança sobre os corpos mumificados.
Emblemas reais conferem a força supra-humana dos faraós; hieróglifos petrificados concedem” a vida” ou “O verdor”; outros, a consciência (literalmente “o coração”). Os mais poderosos, e também os mais comuns, são os talis­mãs ou amuletos que representam o escarabeu, o djed, o nó de Ísis e o udjat, isto é, o olho arrebicado ou pintado com tintas escuras, como exactamente hoje em dia costumam fazer as moças elegantes, que enegrecem as pálpebras e escurecem os olhos; é o olho do deus celeste, sublinhado com estranha mancha, a qual matiza a cabeça do falcão que tudo vê e simboliza a plenitude física e a fecundidade universal.
Também os vivos usavam amuletos. O “cartucho” do rei, a face de uma divindade emergindo de largo colar, caurins, búzios e conchas do Mar Vermelho, e, para as damas, especialmente, as efígies de Bes e de Tuéris, eram bons encantamentos protec­tores.
Udjat, escarabeus, coração etc… não eram amuletos exclusi­vamente funerários.
Para curar uma enfermidade prescrevia-se trazer no pescoço ou um nó de caniços ou hastes de cebola trançadas; havia recei­tas mais custosas: “40 pérolas ordinárias, 7 esmaragditas, 7 pé­rolas de ouro, 7 fios de linho”, asseguravam brilhante porvir ao nenê nascido antes do termo.

AMUN -O mesmo que Amon.

ANAQUIS -Um dos quatro deuses Lares (divindades domés­ticas), adorados pelos egípcios. Os outros três eram: Dímon, Tíquis e Heros.

ANC-NETERU – Serpente através de cujo corpo gigantesco o bote de Af-Ré, carregado de almas, foi arrastado, sem perigo, por doze deuses; foi essa a barreira final na jornada para o Pa­raíso.

ANIMAIS SAGRADOS – A zoolatria egípcia provocou o espanto dos gregos, as crueldades dos persas, os sarcasmos dos romanos e as zombarias indignadas dos Padres da Igreja, no albor do Cristianismo.
Essa zoolatria incompreendida teve seu início bem antes do ano 3000 a.C. Ela via nos animais algo mais que emblemas ou símbolos: os animais mereciam ser cuidados e adorados porque eram os receptáculos das formas boas ou temíveis do poder divino.
Em cada cidade, o deus tribal, desde toda a eternidade, se encarnava numa espécie protegida pelo tabu: bovinos, carneiro, cão, gato, macaco, leão, hipopótamo, crocodilo, serpentes, falcão, íbis, icnêumon etc.
Às vezes era um animal particular, reconhecível por determi­nados sinais, que reinava nos templos: assim o famoso boi Apis, que era um touro.
Heródoto: “Esse jovem touro, que se chama Apis, apresenta os seguintes sinais: é negro e traz sobre o dorso a imagem duma águia, os pêlos da cauda são bifurcados, e sob a língua tem a imagem dum escarabeu”.
O touro Apis tinha outros companheiros, o Mnévis de Heliópolis e o Búquis de Hermôntis. Muitas vezes vários represen­tantes da raça eram alimentados no templo: crocodilos, macacos, íbis etc. O cuidado de tais parques, garantia sobrenatural da vida local, era regra durante a Baixa época, na qual a zoolatria prosperou com tanto mais intensidade, quanto mais virulento era o desprezo dos bárbaros. Era o tempo, refere-nos Heródoto, em que um egípcio deixava arder seus móveis, mas expunha a vida para arrebatar um gato do fogo. Era o tempo em que um cidadão romano se via linchado por ter matado um gato.
Heródoto: “‘Quando, numa casa, um gato morre de morte natural, todos seus habitantes raspam as sobrancelhas, as sobrancelhas somente; lá onde morre um cão, raspam o pêlo de todo o corpo, da cabeça aos pés. Os gatos mortos são levados para locais sa­grados onde recebem sepultura depois de terem sido embalsamados. Aos cães, cada um lhe dá a sepultura na sua cidade, em féretros sagrados”.
Especialmente desse período nos vêm as inumeráveis múmias de animais de toda espécie. Eram agrupados por raça ou mistu­rados, em fossos ou hipogeus; comumente guardavam-nas em relicários de bronze, feitos à imagem do animal cuja múmia ele continha. Cuidar da sepultura dum animal, fosse sagrado, fami­liar ou desconhecido, era dever que todos procuravam cumprir. A respeito, temos um texto: “Dei pão ao homem faminto; ao sedento, água, roupas ao que estava nu. Cuidei das íbis, falcões, gatos e cães divinos; inumei-os ritualmente, ungidos com óleo e recobertos com estofos”.

ANUBIS – O deus Anúbis, ordinariamente, era honrado com quatro epítetos: “Aquele que é a faixinha “, “Presidente do divino pavilhão”, “Senhor da necrópole” e “Aquele que está empoleirado sobre a sua montanha”.
O primeiro epíteto não sabemos o que significa; “Presidente do divino pavilhão” significa que ele era venerado no lugar onde se procediam as mumificações, pois Anúbis embalsamara Osíris e se tornara o protector dos embalsamadores; “Senhor da necró­pole” e “Aquele que está empoleirado sobre a sua montanha”, porque esse deus introduzia os mortos no outro mundo (psico­pompo) e velava sobre as sepulturas, tendo se encarnado no cão selvagem – ou chacal – que ronda os cemitérios.
Antes de Osíris consideravam-no o grande deus funerário; a ele dirigem-se os votos de uma vida além-túmulo gravados nas mais antigas mastabas.
Seus santuários eram assaz numerosos; o mais célebre de seus templos se encontrava no Médio Egipto, na cidade que os gregos chamavam de Cinópolis, “A Cidade dos Cães”.

APED – V. apel.

APIS -Os touros sagrados encontrados por Mariette nas catacumbas de Sacara possuem longa história, tão velha como a civilização egípcia, e que só findaria com o triunfo do Cristia­nismo.
No curso dos séculos, a imagem inicial do animal procriador, símbolo da fecundidade, o touro, enriqueceu-se com inúmeros outros aspectos. Apis era adorado em Mênfis, cujo padroeiro era Ptá; não tardou em se lhe associar e se tornou a manifes­tação do deus, “Sua Alma Magnífica”. De Ré lhe veio o disco solar que carrega entre os cornos.
A seguir Apis funde-se com Osíris e o amálgama dá origem a uma divindade funerária. Desde então a morte do touro toma importância capital; as autoridades celebram suas obséquias no meio de grande concurso de fiéis, que lhe trazem seus dons de todas as partes do país. Mas apenas Apis desaparece, renasce em outro envoltório mortal. Os sacerdotes percorrem as campi­nas e os pastios e examinam os rebanhos a fim de identificarem o deus, reconhecível por marcas particulares. Encontrado o animal, ao pranto e às lamentações sucede-se o regozijo universal. O novel touro é entronizado no seu estábulo sagrado de Menfis, junto de sua mãe, onde viverá cercado de um harém mugidor.
Não se sabe, ao certo, se o touro Apis era branco com man­chas pretas, ou negro com manchas brancas; a iconografia, a respeito, é duvidosa. Conta-nos Heródoto que Cambises, o con­quistador do Egipto, cruelmente feriu o touro sagrado; logo a seguir enlouqueceu.

APÓFIS -V. Apópis.
APÓPIS -Apópis era um demónio-serpente, de tamanho gigantesco, que ameaçava, de manhã e de tarde, a ordem cósmica, em atacando a barca do Sol. Sempre vencido, mas sempre renas­cido, era indestrutível e constituía um elemento fixo da harmo­nia universal: era o equilíbrio do Mundo. Quase todos os textos religiosos mencionam os ataques de Apópis e a sua derrota; os rituais mágicos, compostos para os templos, evocam as técnicas operatórias de feitiçaria ou de execração por meio das quais os oficiantes, no momento crítico, podiam paralisar os ataques do monstro.
A interpretação progressiva dos diversos sistemas teológicos levou, finalmente, a identificar Apópis com Set, que outrora fora seu pior inimigo, e que se tornou, ele também, o símbolo das forças hostis e das revoltas contra os deuses do céu.

APUAT -Personificação do solstício de inverno. Foi associa­do com Anúbis como Upuaut, “Aquele Que Abre Os Caminhos” para Osíris.

ARFAS E -Outro nome de Osíris.

ARUI::RIS -Filho, segundo a tradição, de Ísis e Osíris. Às vezes era confundido com Horo e Anúbis. Tinha uma estátua na Fenícia. Seu templo, portátil, era conduzido por bois.

ASO – V. Ason.
ASON – Rainha da Etiópia e concubina de Set (Tífon ou Tifão). Ajudou-o a tramar ciladas contra Osíris, quando este regressou de suas viagens.
ATIR -“A Noite” ou “As Trevas”, divindade egípcia.

ATON – Divindade solar representada pelo disco do Sol, criada por Akhenaton, o faraó herege. Não é certo afirmar, como o querem alguns, que a doutrina de Aton representasse puro monoteísmo; ela o foi tanto quanto outras que a precederam; também a exaltação das mil bondades do “Senhor Universal” não era ideia original de Akhenaton. A única coisa inédita trazida com a criação de Aton, foi o confisco dos bens de Amon; esse facto, provavelmente, determinou a rápida queda do culto, que morreu com o seu criador. A originalidade religiosa do culto de Aton residia, isso sim, no seu lirismo sensual e na íntima união da criatura com o Criador, onde se afirmou fortemente a personalidade assaz mística de Acnáton. Aton era representado pelo Disco solar.

ATOR -Deusa do Amor. Confunde-se com a Afrodite grega e com a Vénus romana.

ATUM – Uma das grandes divindades egípcias. De manhã, aparecendo como o falcão de olhos faiscantes, é o “Horo do Horizonte”; de dia é Ré, simplesmente, com corpo humano e cabeça de falcão encimada pelo uraeus e pelo disco; de noite é Atum ou Atum-Ré, sempre com forma humana, tendo em si o princípio de vida, quando tudo são trevas ou nada. Antes de renascer à luz é Ré-Cóprer,isto é, o Escaravelho; vêmo-lo, então, de cócoras com cabeça de escaravelho.
As adorações dos mortos dizem-lhe: “Atum, deus que é deus por si mesmo, o Antigo que existe desde o começo. Aclamação a ti, autor dos deuses”

AVES -V. Pássaros.

BA – Quando os egípcios modernos e cristãos (os coptas) falam da alma, usam o termo grego psique; isto indica clara­mente que nenhuma palavra da antiga língua correspondia exactamente à noção cristã de alma, elemento espiritual, imortal e individual. Contudo, são inúmeros os termos egípcios que desig­nam o composto do ser humano; mas, infelizmente, jamais se preocupam em definir claramente essas noções.
Enquanto vivo, as forças espirituais de um egípcio compreen­diam ao menos dois princípios distintos: o ca (ka) e o akh. Fi­gurado pela imagem hieroglífica da íbis com penacho, o akh é um princípio imortal; dizem-nos os textos que “se o corpo per­tence à terra, o akh pertence ao céu”.
À mesma raiz correspondem as palavras que significam “bri­lhar”, mas também “ser eficaz”, e parece que é preciso ver no akh um poder invisível, que pode prestar sua eficácia aos homens, mas aos deuses igualmente. Em alguns contextos akh se aplica aos “Génios” ou “Espíritos”, formas intermediárias entre os deu­ses e os humanos; designa, não raro, os mortos privilegiados ou, ainda, os que retomam.
Entre os coptas, os akhu, outrora tão prestigiados, hoje são demónios. O bd (ou ba) é um aspecto mais definido da alma humana; é a parte espiritual do indivíduo, que, após a morte, encontra sua individualidade e pode errar à vontade, por toda parte.
Os papiros religiosos figuram o bd sob a forma de um pás­saro com cabeça humana, que pode permanecer na vizinhança do corpo defunto, na câmara fúnebre, mas prefere, comumente, voar ao ar livre, reencontrar aqueles lugares que foram gratos ao morto quando a vida lhe corria nas veias. O bd, pois, é ele­mento espiritual que pode aparecer independentemente do seu fulcro físico, agir por própria conta, “representar,” de certa ma­neira, o patrono.
Fala-se, também, de animais que são o bd de um deus, sua manifestação física, e de deuses que são o bd de outros deuses, praticamente suas hipóstases.
No plural, os bau são agentes de acção exterior àquele Que os detém; designam manifestações longínquas de um ser vivo ou de um deus, esta parte destacável dele mesmo e que age à distância; é costume traduzir bau por “poder”; mas é necessário precisar que se trata duma potência ou poder que escapa às contingências espaciais e se estende bem além do lugar onde o portador dos batI se encontra.
O ba seria, numa forma mais inteligível, a alma itinerante de um ser vivo, capaz de ação material.
Ao lado desses princípios, o ca, o akh e o bd, que se uniam para formar um ser completo (corpo e alma com faculdades), a personalidade de um egípcio contava, ainda com inúmeros ele­mentos, tais como a sombra e o nome, que traduziam a sua essência íntima.

BAAL- TSÉFON -Ídolo que os mágicos egípcios colocaram no deserto, como uma barreira, a fim de deter os hebreus e impedi-los de fugir.

BABUINO -O deus Tot ou Baba. – V. Macaco.

BACA -Touro sagrado de Hermôntis, encamação de Mentu. Esta figura mitológica às vezes aparece com o nome de Búquis. -V. Animais Sagrados.

BARCAS SOLARES -O Sol tinha duas barcas ou naves celestes, que vogavam nas amplidões do Céu. A imagem cosmográfica concebida pelos egípcios era inspi­rada no aspecto geográfico do vale do Nilo. O mundo era uma plataforma de terra cortada ao meio pelo rio Nilo e cercada de água por todos os lados. Por cima desse mundo tabular havia um céu, que era também uma plataforma, separada do solo pelo Shu, o deus dos espaços aéreos. Nos quatro cantos do mundo havia os quatro esteios que mantinham o céu em equilíbrio. Neste céu vogavam as barcas do deus Sol, Ré.
Nos cemitérios que datam da mais alta antiguidade, encon­traram-se, flanqueando certas sepulturas, provavelmente princi­pescas, escavações naviformes e que comumente conservavam destroços de embarcações.
Em 1954, ao pé da inclinação sul da Grande Pirâmide, duas fossas cobertas com lajes ciclópicas foram inopinadamente desco­bertas. No fundo de uma delas estava um navio com popa papi­riforme, desmontado com ordem, completo, desde a quilha até o toldo que cobria o convés. Os especialistas do Museu Egípcio montaram esse navio, peça por peça, feita de pedacinhos de cedro, minuciosamente ajustados; tem quase 40 metros de comprimento. Os sábios aventaram a hipótese de que as barcas assim enter­radas na necrópole permitiriam ao defunto identificar-se com Ré; falava-se, pois, comumente, nas “barcas solares de Gizé”.
Mas outras conjecturas são plausíveis: as barcas serviriam para passeios no outro mundo; seriam verdadeiras barcas-cata­falcos, perpetuando, com a sua presença, a virtude dos ritos de sepultamento; poderiam ser, também, barcas místicas, que con­duziriam peregrinos para se revivificarem nos longínquos lugares sagrados…
Todos esses gêneros de barcos, com efeito, são conhecidos através dos ritos funerários. Sugerem, pois os egiptólogos, que, de momento, se fale apenas, na “barca de Quéope”.

BASTET -Deusa-gata que, na origem, era deusa-leoa.
Ado­rada principalmente em Bubástis, no Baixo Egipto, o seu templo contava centenas de efígies de bronze; algumas dessas estatue­tas emprestavam ao corpo feminino da divindade uma gentil cabeça de gata; outras mostravam Bastet como gata-mãe alei­tando os filhotes; outras, finalmente, a figuravam como gata­-rainha, ricamente trajada e enfeitada.
Segundo outra interpretação, Bastet, depois de ter personi­ficado o calor fecundante do Sol, foi a deusa da Alegria, que protegia o homem contra as doenças.

BES – Génio familiar, disforme, hirsuto e careteiro, emplu­mado, vestido com pele de leão. Tinha por ofício proteger os homens contra as influências nefastas ou malignas, contra os répteis peçonhentos e contra os seres malfazejos.
Seu aspecto ridículo excitava o bom humor e a hilaridade. Figuravam-no ora sobre estelas, vasos ou amuletos, ora em luga­res sérios e sagrados, como os templos.
Fazia parte do cortejo de demónios benéficos que protegiam a mulher em trabalho de parto de todo contacto pernicioso.

BÉTILO – O sentido primitivo do bétilo, que diz, respeito à litolatria e que define a pedra sobrenaturalizada (pedra-divin­dade ou pedra que contém a sede ou os poderes da divindade, por oposição à imagem da divindade), ampliou-se mais tarde; aplicando-se, igualmente, ao marco de pedra e à pedra talhada em geral, por oposição às pedras brutas.
O bétilo era adorado pelos sírios e fenícios; não se sabe, precisamente, qual era a sua situação entre os egípcios.
Bétilo é de origem semita: beith-el, “Habitação Divina” (Gê­nese, XXVIII, 10-22). Daí o nome do lugar de que fala a Bíblia, Betel, que traduzem vulgarmente por “Casa de Deus”. Às vezes bétilo é confundido com abadir, que significa “Pai Venerável”, também termo semita.

BEZA -Divindade adorada na cidade do mesmo nome, no Alto Egito. Tinha um oráculo que proferia as respostas por meio de bilhetes selados.

BUSIRIS -1) Rei de Tebas, que ele fortificou com poderosas muralhas, a fim de repelir os ataques dos etíopes. Diziam os gregos que era filho de Júpiter (Zeus) e da Líbia, ou de Netuno (Poseidon) e da Líbia, ou, ainda, de Anipa. Refere a lenda que, pelo facto de imolar vítimas humanas, para fazer cessar a peste que grassava em Tebas, foi morto por Hércules, que aboliu o execrável ritual. Seu nome, P-Usiri, significa, literalmente, “Morada de Osíris”.
2) Nome de várias cidades do Egito, que ainda hoje trazem o nome ligeirament alterado: Abusir. A mais célebre dessas cidades situava-se no Baixo Egipto, nas vizinhanças imediatas de Mendes.

BUTO -1) Divindade egípcia. O sânscrito bhuta deu origem ao termo bulo, “demónio” ou “espírito maligno”.
2) Capital do reino do Norte do Egipto pré-histórico.
Mais tarde, Amon, o obscuro deus local de Tebas, tomou o carneiro por animal sagrado; a partír da XVIII dinastia, seus objetos litúrgicos, barcas, vasos e bastões rituais, foram ornados com o carneiro, não mais o paleo-egípcio, mas a espécie nova, o ovis platyra, pequeno, de cauda curta e grossà, com espessos cornos recurvados ao redor das orelhas. Longas filas de está­tuas deste carneiro guardam o templo de Carnaque. Depois, mais e mais, Amon foi figurado como homem criocéfalo e é sob esse aspecto bestial que aparecerá no mundo grego para proferir seus oráculos no oásis de Siuah, o “Oásis de Amon”.
E consagramos, ainda, a lembrança do deus tebano quando chamamos amonites esses grandes fósseis cuja forma evoca os cornos de Amon.

CA -Entre os egípcios há poucas palavras tão difíceis de definir como esta. Nossas concepções modernas nada têm de semelhante ao ca, daí a dificuldade em definir essa palavra. O ca é, praticamente, manifestação de energias vitais, tanto na sua função criadora, como na sua função conservadora.
O ca, pois, pode designar o poder da criação que a divindade possui, mas também as forças de manutenção que anima Maat, a ordem universal. Na ordem individual faz-se grande uso do termo ca a respeito dos mortos: “Passar a seu caro significa “mor­rer”; as estátuas do defunto que são fechadas nos túmulos, são “estátuas de caro; as fórmulas funerárias se dirigem “ao caro de um determinado morto. Mesmo vivo, um egípcio pode ver o seu ca aumentado pelo rei.
Tem um reservatório de forças vitais, do qual provém toda vida, e graças ao qual toda vida subsiste (alimentos, enrique­cimento, bens materiais, aumento de poder”.), e para o qual toda vida retorna depois da morte. Tem, pois, uma espécie de “força vital”, que desempenha papel tão importante nas múltiplas civilizações da África negra; o muniu dos bantus e o menes dos ules.

CAMTFIS – Nome comum às três mais antigas divindades egípcias.

CARNEIRO – Entre os egípcios o carneiro era designado por uma onomatopéia: bé; tinha, também, o nome de quenum, originário de uma velha palavra semita, de onde veio o árabe, ghanam.
Os criadores egípcios conheceram duas espécies de carneiros: a mais antiga, era caracterizada por corpo volumoso, longa cauda e chifres espiralados que se afastavam horizontalmente; esse tipo, comumente, é visto nas antigas representações iconográficas.
Os carneiros serviam para os egípcios como máquinas agrí­colas: eram eles que afundavam na terra úmida e rica o grão semeado pelo agricultor. Quanto à lã, considerada elemento impu­ro (os egípcios vestiam-se com linho, mais fresco e mais higiénico), eles a desprezavam, assim como a carne. É verdade que as populações pré-faraônicas a comiam, os papiros médicos a prescreviam, juntamente com a gordura, mas as longas ementas rituais compostas para os deuses e para os defuntos, não fazem menção da carne ovina.
Portanto, o carneiro não representava nenhum papel impor­tante na economia faraónica. Entretanto, é singular observar que os egípcios embalsamaram gerações e gerações de carneiros. A mais antiga imagem de um carneiro mumificado que se conhe­ce, data da I dinastia.
Mas na mitologia o carneiro. ocupa lugar de destaque. Os deuses ovinos eram assaz numerosos e variados: Herishef (em grego Arsafe -V. essa palavra) de Heracleópolis (“Cidade de Héracles”, isto é, Hércules); o famoso Carneiro de Menctçs, cuja colossal capela de granito ainda se ergue sobre a coliriá deso­lada; enfim o deus-carneiro por excelência, que era venerado em vários lugares, Cnum, “Aquele Que Tem A Forma Do Carnei­ro” etc. Todas essas personagens divinas se encarnavam no caneiro paleo-egípcio, ovis longipes palroaegyptiaca, de chifres honzontais. Seus cornos entravam na composição de várias coroas mágicas, próprias aos deuses e reis; eram elas o símbolo do temor que causa o sobrenatural; a cabeça servia para expri­mir hieroglificamente o poder e o prestígio.

CASA DA VIDA -Dá-se o nome de “Casa da Vida” a várias instituições culturais: oficinas de escribas contíguas aos grandes templos, no interior das quais se redigiam ou se copiavam os textos litúrgicos, assim como as inscrições mitológicas; colégios de médicos e, possivelmente, “sanatórios”, onde se acolhiam os enfermos, lugares que, na Baixa Epoca, faziam parte do templo; colégio de professores e oficiantes do templo; colégios de artistas e decoradores.
É muito provável que fossem os escribas das Casas da Vida que copiaram, em múltiplas edições, os Livros dos Mortos, fabricados em série, e dos quais os defuntos, a partir do Novo Império, se muniam para a última viagem.

CEB -V. Ceio.
CEDO -V. Ceio.

CECROPE -Cécrope ou Cécrops, personagem mítica natu­ral de Sais, no Egipto. Foi chefe de uma colônia egipcia que se estabeleceu na Atica. Fundou Atenas e foi seu primeiro rei. Submeteu os povos vizinhos mais pela doçura e pelo encanto pessoal que pelas armas; a religião foi objecto de seus principais cuidados. Representavam-no com torso de homem terminado em cauda de dragão.
Cécrope, propriamente, não pertence à mitologia egípcia. E criação helênica.

CECROPS -V. Cécrope.

CEFO -Monstro que era adorado em Menfis. Aspecto de macaco.

CEPO -V. Ceio.

CERCOPITECO -Nome grego que designa o macaco ao qual os egípcios tributavam honras divinas (de kerkos, “cauda” e pithekos, “macaco”). -V. Macaco.

CHACAL -Quando se fala em chacal ocorre-nos logo à lem­brança a figura estranha de Anúbis, homem com cabeça de canídeo. O verdadeiro chacal não existia no Egito. Havia, isto sim, cães selvagens ou errantes, semelhantes a lobos, com grandes orelhas pontudas e focinho afilado (Canis lupaster). Com essa forma era representado o deus Assiut, Upuaut (ou Apuat -v. essa palavra), “Aquele Que Abre Os Caminhos”; o próprio Anú­bis, embalsamador e guia dos defuntos, era comumente reves­tido da figura de um desses cães.
As imagens do “chacal” de Anúbis e de outros cães fúnebres foram enfeitadas pelos pintores com mantos inteiramente negros e com um colar de renascimento, ainda que, na realidade, apenas excepcionalmente os cães que erravam pelo Egipto fossem negros. Destarte, para que se pudesse entronizar nos templos os animais sagrados de Anúbis e de Upuaut, o ritual definia a forma e o tom das manchas que deviam ter os canídeos dignos de repre­sentar os deuses ladradores. Mas o povo, que não olhava o ritual, chorava piedosamente todo e qualquer ammal que semelhasse o chacal, sem olhar-lhe o pêlo, e o embalsamava com cuidados. As necrópoles de Assiut e de Cinópolis (“Cidade dos Cães”) esta­vam cheias de canídeos embalsamados.

CINOCIO-FALO -O mesmo que Anúbis. -V. Macaco.

CNEF -Nome sob o qual os egípcios adoravam o Criador do Mundo.

CNÜFIS -O mesmo que Cnef.

CNUM -Esta divindade é figurada sob a forma de homem com cabeça de carneiro provido de cornos duplos. Deus criador da vida, gerador das espécies viventes, recebeu, segundo os luga­res do Egito onde seu culto se arraigou, as funções suplementares de guardião das fontes do Nilo (em Elefantina, onde reina ao lado das deusas Sátis e Anúquis), ou oleiro modelando no seu torno o ovo do qual toda vida deverá provir. Deus muito antigo, é conhecido, sobretudo, pelos textos do templo de Esna que, paradoxalmente, pertencem aos primeiros séculos da nossa era. Seu culto era muito espalhado e difundido; dezenas de cidades o cultuavam sob formas e atributos variados.

CON -Nome que os egípcios davam a Hércules.

CANSO -Conso ou Consu, deus lunar, que foi muito cedo integrado na teologia tebana e considerado filho de Amon e de Mut. Possui em Carnaque um templo admiravelmente bem con­servado. E correntemente figurado sob o aspecto de um homem com cabeça de falcão encimada pelo disco lunar; mas aparece, tam­bém, como personagem multiforme, ou como criança. Conhecem-se várias de suas manifestações: Conso o magnânimo, que é seu título tebano por excelência; Conso o conselheiro, em Tebas, “0 Deus Que Afasta Os Espíritos malignos”.

CONSU -V. Canso.

CRABO -Um dos deuses egípcios.

CRENÇAS FUNERARIAS – Num país onde as crenças va­riam de uma cidade para outra, seria difícil encontrar uma dou­trina comum no que tange à morte e suas manifestações. De feito, o assunto é muito complexo e passível de várias interpre­tações, pois as idéias se interpenetram e vários ritos se sobrepõem, ao passo que um cede ao outro algumas de suas proprie­dades particulares.
Tinha o a ideia mais antiga – referente ao outro mundo e à sorte que aguarda os homens depois da morte é não só a primitiva mas também a mais simples e que teve maior autoridade. O defunto era colocado no túmulo, nas areias do deserto ou no rochedo inóspito – naquela zona exterior ao vale, às verdes pradarias dos vivos -que os textos chamam “O-Lado-Escondido-Do-Deus”; é lá, pois, que o corpo inanimado reencontrará a Vida. O de­funto, na sua sepultura, conhecerá nova existência, com desejos e necessidades iguais aos que na terra tinha, e com faculdades aparentemente idênticas. Logicamente, portanto, o corpo deverá ter alimentos, os quais serão colocados ao lado em grandes jarras; o culto funerário assegurará a renovação desses alimentos, de modo que não venham a faltar totalmente. Essas são as mais antigas crenças, atestadas pelas tumbas arcaicas, cavadas no deserto, onde o morto assumia a posição embrionária, voltado sobre si mesmo. É óbvio que muitas outras praxes se perderam no correr dos séculos. Mesmo o sentido exacto dessa posição cur­vada nos escapa; que significará, também, o costume de orientar o corpo no túmulo?
Mais tarde outras concepções se ajuntaram às primitivas; mas estas permanecerão sempre. Por exemplo, a decoração dos túmulos e a questão dos alimentos. Há de tudo nos baixos­relevos e nas pinturas das tumbas: cenas da vida quotidiana, imagem de funerais, actividades campestres, cenas da vida domés­tica e familiar, lembrança de episódios históricos, cerimónias religiosas… A escolha varia de uma para outra tumba, mas a refeição do morto e a mesa carregada de oferendas permanece em todas, idêntica, imutável. No Império Antigo, o morto levava com ele um cardápio dos mais generosos; mais tarde contenta­ram-se com a representação dos alimentos de toda espécie; a magia da imagem pode, à vontade, renovar-lhe as provisões, dan­do vida às cenas de vindima ou colheita de frutas ou episódios de caça que figuram sobre os muros. A antiga ideia, pois, da vida além-túmulo, não se perdeu; tudo se previu para que essa segunda vida decorra na abundância; a alma que fugiu, no momento do desenlace, foi reintegrada no corpo pelos ritos da Abertura da Boca, de modo que o falecido, reconstituído em seus elementos vitais e provido de tudo que é necessário para a vida, tinha diante dele uma eternidade que deveria ser passada no túmulo.
Duas crenças se sobrepuseram a esses velhos ritos, a de Osíris e a de Ré, o Sol. O Além de Osíris estava ligado a várias ideias. Inicial­mente, Osíris, transformado em deus dos mortos pela extensão histórica do seu culto, trouxe na sua esteira tudo aquilo que dizia respeito aos espaços subterrâneos; o embalsamamento, actividade conservadora de Anúbis, a imagem da necrópole do Oci­dente, constituem os aspectos da morte osírica. A seguir, o corpo, preservado pelo embalsamamento, irá viajar muito pelo outro mundo; o Livro dos Mortos descreve as várias etapas desse périplo ctônio, os perigos dos quais deverá triunfar, as fórmulas que deverá usar, as divindades que o sustentarão. O galardão final da vida osírica, o que espera o defunto no fim da sua longa jornada, depois do julgamento e consequente libertação, isto é, a psicostasia, é um trato de terra nos domínios de Osíris; lá o defunto reencontrará suas actividades terrestres, aquelas que tinha deixado na terra. Esse Paraíso está situado no “Campo das Oferendas e no Campo das Junças” (Campo de Ialu); vinhe­tas do Livro dos Mortos mostram o morto trabalhando, semeando, colhendo, atravessando os brejos no seu batel.
O uso das estatuetas de substituição -para aqueles que não amavam o trabalho – os famosos sauábtis, simplificava as coisas, já que as imagens trabalhavam por eles.
Quanto às crenças solares, que foram as dos reis da V dinas­tia, elas compreendiam os ritos da “tenda de purificação”, no limite do deserto, e a “lustração solar”, numa jarra; esses dois ritos levavam o defunto ao Paraíso solar, onde reinava o Grande Juiz (inicialmente Ré); o morto, na escolta do barco do deus, acompanhava Ré no seu périplo celeste. Essas diversas doutri­nas, que não tinham quase nada em comum, e outras ainda, como, por exemplo a sobrevivência estelar na constelação de Orion, se soprepuseram de tal modo que não é fácil encontrar um quadro inteiramente lógico das ideias acerca da vida além­-túmulo. Resumindo, poderíamos dizer que o morto está, ao mesmo tempo, no céu, isto é, na barca do deus, sob a terra, trabalhando os campos de junça, e na sua sepultura, devorando as provisões. quando for ocasião, retornará à terra, a fim de rever os lugares que amou ou para atormentar os vivos. A vida além-túmulo, destarte, oferece três aspectos diferentes quanto ao tempo: o dia será reservado para o descanso na sepultura, com um ou outro eventual passeio pela terra; à noite, numa via­gem subterrânea, o morto acompanhará o Sol no outro mundo, rebocani:lo a sua barca e detendo-se de passagem nos campos de Osíris; ao raiar da madrugada, a alma errante voará novamente para a sepultura a fim de gozar da frescura e do silêncio que ela lhe oferece. Mas todas essas idéias, parece, perdiam seu valor junto daquela que o egípcio considerava positiva e certa: não há nada que valha um túmulo bem construído e bem alimentado.

CREPITO -Divindade que era- representada sob a figura de um menino acocorado.

CROCODILO -Os egípcios conheciam inúmeros processos mágicos capazes de imunizar a agressividade do crocodilo, que chamavam “o agressor”. Os adora dores de Osíris e de Horo consideravam o crocodilo aliado de Set.
Mas, por estranho que pareça, o crocodilo não é um devo­rador de homens e só chega a essa condição levado por causas fortuitas. “O animal de goela terrificante” gosta é de peixes.
O crocodilo é um ser saído das águas, como o Sol; os peixes eram os obscuros inimigos do Sol. É lógico, pois, que os egípcios, na sua visão total e harmoniosa do Universo, tenham feito dele uma divindade, Sobec ou Suco. Desde os pantanais do Delta até os bancos arenosos de Silsileh, de Ombos e de Gebelein, havia infinidade de templos dedicados a esse deus. Em Crocodilópolis (“Cidade dos Crocodilos”) de Faium e ao redor do lago Carun, ele era o Senhor Absoluto. Uma metade do belo templo de Com Ombo lhe era consagrada.
Sobec, tanto como Amon, ganhou inúmeros atributos: “Saú­de a ti, Sobec o crocodilopolita, Ré, Horo, deus poderoso I Saúde a ti, Sobec o crocodilopolita, saúde a ti que te ergueste das Aguas Primordiais, Horo chefe do Egito, touro dos touros, grande ser macho, senhor das ilhas flutuantes. ..” Assim cantavam coti­dianamente os sacerdotes da Cidade dos Crocodilos, pedindo a salvação do Egito ao grande deus solar, ctônio e aquático ao mesmo tempo.
Nessa cidade, como em outras consagradas a Sobec, cria­vam-se crocodilos sagrados, bem como afirmava Heródoto. “O crocodilo foi trazido, foi domesticado; põem-lhe nas orelhas pin­gentes de pedras artificiais ou de ouro, braceletes nas patas dian­teiras: dão-lhe a comer alimentos determinados e vítimas; cui­dam dele, enquanto vive, do melhor modo possível; logo que morrem, são sepultados, embalsamados em féretros sagrados. Ao contrário, os habitantes de Elefantina não consideram os croco­dilos sagrados, pois comem-lhes as carnes.”

CULTO DOS ANIMAIS -V. Animais Sagrados.

CULTO FUNERÁRIO – Nenhum outro povo da Antiguidade tanto se preocupou com os problemas do além-mundo como os egípcios; a prova dessa assertiva é o número imenso de túmulos ricamente decorados e a abundância de textos relativos aos funerais.
Entre outros povos, geralmente, os vivos temiam os mortos; no Egipto, porém, os mortos dependiam dos vivos e estavam à sua mercê. O egípcio não temia a morte nem o que depois dela vinha; temia, isto sim, que os vivos (parentes, amigos, depen­dentes) dele se esquecessem e comprometessem definitivamente a sua vida além-túmulo.
A morte terrestre era, apenas, uma etapa que conduzia a uma forma diferente de vida, seguramente mais frágil que a deste mundo, mas efectiva e real: a do corpo na sepultura; mas nada havia mais temível que uma segunda morte, pois esta seria definitiva. Ora, o destino do corpo sepultado está nas mãos dos vivos e são eles os Únicos que podem entreter este pouco de vida que lhe resta.
Daí a importância do culto funerário. Esse culto implica, além dos funerais, o renovamento periódico dos alimentos e bebi­das. Os túmulos pré-históricos mostram já que o defunto levava com ele um rico sortimento de víveres; cumpria aos herdeiros, de modo especial ao filho mais velho do defunto, renovar as pro­visões e bebidas; na falta desses, qualquer pessoa podia cumprir essa meritória e piedosa função.
Mas, à medida que as gerações se sucediam, esses encargos se tomavam cada vez mais difíceis, pois em pouco havia muito mais defuntos a alimentar que vivos a trabalhar. Nasceram, então, as fundações fúnebres. Essas práticas consistiam em reser­var para o culto de um defunto um domínio cujos rendimentos eram suficientes, ao mesmo tempo, para a alimentação do defunto e, por transferência, para a do sacerdote encarregado de cuida! do túmulo. Primitivamente esse sistema de fundação foi instituído para uso do rei morto e do seu templo fúnebre. Mas como o rei era o Único proprietário do solo do E~to e dos seus recursos, e podia, a esse título, conceder por favor a um dos seus próximos o direito de construir uma mastaba à sombra da pirâmide, assim, por extensão, os defuntos podiam se beneficiar com as oferendas alimentares previstas para o culto real. Assim como quando o rei vivo alimentava seus fiéis, assim continuava a fazê-lo depois de morto. Daí as inscrições: “Oferenda que o rei concede…” Tal sistema só poderia subsistir com riquezas fantasticamente imensas e número relativamente limitado de beneficiados. Ora, essas duas condições não existiam e os egíp­cios logo se viram obrigados a encontrar algum meio de assegurar a efetividade do culto funerário: com o rei é que não podiam contar.
Assim, a partir da IV dinastia, os egípcios criaram “funda­ções” antes de morrerem: um sacerdote do ca, cujas funções eram assegurar o culto e as oferendas ao defunto, vivia dos rendi­mentos que o pequeno trato de terra lhe oferecia. Destarte, vemos grandes grupos de pessoas viverem exclusivamente a custa de um morto.
Mais tarde, com o sistema de herança, acontecia que o culto do morto era abandonado; criaram, então, no Império Médio, outro sistema: a fundação permanecia indivisa e só podia ser transmitida a um dos filhos do sacerdote primitivamente insti­tuído. Essas disposições faziam parte do contrato lavrado entre o proprietário do túmulo e o seu futuro curador fúnebre.
Além desses cuidados, deduz-se, através dos textos, que os defuntos procuravam conseguir, junto dos deuses, os benefícios alimentares que outrora encontravam junto dos templos reais. Sabemos que Hapidjefa, de Assiut, diariamente tomava sua parte das oferendas depostas no tempo de Upuaut; essa prática, no Império Médio, assumiu foros de exclusividade.
Sabemos a importância que os vivos ligavam ao fato de terem a sua estátua, por privilégio, erguida no pátio do templo, pois assim podiam participar, junto com o deus, das ofertas que o culto diário propiciava. O número prodigioso de estátuas parti­culares encontradas em Camaque testemunham o uso irrestrito que desse privilégio se fazia. Entretanto, a despeito de todas essas medidas, o abandono dos mortos por parte dos vivos era um facto evidente e o egípcio não tinha esperanças muito brilhan­tes quanto ao futuro Que o aguardava. Cito, a propósito, as palavras do ‘!Canto do Harpista”: “Os divinos reis que outrora viveram, repousam em suas pirâmides, assim como os nobres glorificados. ..Construíram capelas cujo local não mais existe. Quem fez isto?.. Imotep, Hordjedef, cujas palavras estão em todos os lábios, onde agora repousam? Os muros foram destruí­dos, seus túmulos desapareceram como se jamais tivessem exis­tido… ”
Surge, então, uma desesperada tentativa de remediar todos esses males: a magia. Mandavam figurar nos túmulos relações detalhadas de alimentos, com cenas quotidianas da vida domés­tica, campestre ou profissional; sucedem-se, nos túmulos, as representações de colheitas, de vindimas, da fabricação do pão, da cerveja. ..Julgavam, assim, em virtude de um preceito muito caro à magia, a substituição, assegurar o futuro do corpo do defunto.Paralelamente, sempre segundo a ideia de que a aparência do rito é suficiente para recriar a realidade dos objetos evocados, procuram reter a atenção de eventuais visitantes das necrópoles e deles obter a simples enunciação da fórmula de oferendas, cujo enunciado será suficiente para fazer “sair” todos os alimentos requeridos: “ó vivos que estais sobre a terra, seme­lhantes a mim; logo estarão com o deus aqueles que disserem: milhares de pães, de potes de cerveja; bois, aves etc., para o amigo único…
Com o tempo, as últimas ilusões dos egípcios desvanece­ram-se. Já não criam, e a realidade diária disso os convencia, que os vivos tivessem tempo ou quisessem se importar com os mortos. Os rituais das últimas épocas mostram que os mortos se contentavam com libações de água simbólica, derramada todos os dez dias, enquanto que o rito que tinha o título “Que Meu Nome Subsista”, reduziu o serviço que os mortos imploravam dos vivos à simples recitação do nome, suficiente para lhe dar, na tristeza do além, alguns momentos de pálida sobrevivência.

“Feliz aquele que caminha nos caminhos de Deus”… Esse modo de falar, que se poderia crer próprio dos livros de sabedoria, aparece também nas inscrições: “Contentei Deus naquilo que ele amava, pois estava lembrado de que chegaria a Deus quando morresse”.
Acnáton quis fazer triunfar a idéia de uma divindade única e coletiva, o que não era, em si, crença nova nem subversiva; mas ele fez do novo deus um ser visível e dotado de um nome, Aton. Isto era substituir os deuses por um Deus, era romper com o passado, com todas as convicções centenárias e entronizar um recém-chegado tirânico e exclusivista.
A religião egípcia, nos seus últimos anos, evoluía para a idéia de um deus universal, único, espécie de “alma colectiva”. O povo, insatisfeito com esse deus abstrato, apegava-se mais e mais aos seus símbolos terrestres, seus animais sagrados, aos gênios secundários, às divindades folclóricas. Daí a idéia que os autores faziam dos sacerdotes: eram grandes sábios que con­sagravam a vida a sublimes mistérios, ao passo que o povo, turba ignorante, adorava os animais nos campos e as hortaliças nos canteiros.

DIMON -Um dos quatro deuses Lares dos egípcios. -V. Anáquis.
DJED (COLUNA) – Espécie de fetiche pré-histórico de natureza ainda mal definida. Figurava, talvez, uma árvore arran­cada ou uma estaca trabalhada; provavelmente desempenhava algum papel nos ritos agrícolas. A “erecção da coluna (ou pilar) Djed”, feita pelo rei, a favor do deus Ptá, era um rito milenário que ainda subsistia na Baixa época. Homófono do termo “esta­bilidade” ou “duração”, o pilar (ou coluna) Djed servia de modelo para inúmeros amuletos e talismãs.

DUAT – Outro nome para Tuat.

DEUS – Seria inútil acentuar o carácter politeísta da religião egípcia: tudo aquilo que o velho Egito nos deixou proclama eloquentemente esta verdade. Milhares de deuses e de deusas, gênios, demónios…
Mas é preciso distinguir os deuses elementares, elaborados pelos teólogos, e que não tiveram muito sucesso nas crenças correntes e populares, dos gênios e deuses familiares da mito­logia popular, que não deixaram nem templos nem monumentos. Essa diversidade de divindades é mais fruto do desenvol­vimento do Estado unificado que uma tendência politeista, pois o Egipto não era mais que uma porção de tribos independentes justapostas em virtude de condições históricas. Convém não esquecer que o egípcio jamais suprimia algo que pertencesse ao passado; ele apenas justapunha o que existia ao que a evolução consigo trazia.
Ao lado desse politeísmo histórico, mas não inato, vê-se a tendência que tinha o povo em atribuir a um só deus várias ou mesmo todas as funções. Não é isto sintoma de que o egípcio era, por natureza, inclinado ao monoteísmo? O Netjer, ideia abstrata que poderíamos traduzir por “divindade” e que era representada por uma estaca encimada por um enfeite, servia como termo comum para designar cada um dos deuses, fosse qual fosse seu nome ou atributos; era a soma daquilo que todos tinham em comum. O emprego dessa palavra indica a crença numa força divina, independente de qualquer deus, indetermi­nada, impessoal. e. assim que encontramos nos textos a menção de Deus sem outro qualquer atributo: “Não são as disposições do homem que se realizam, mas os desígnios de Deus”; “Deus conhece aquele que por ele age”; Deus glorificará aquele que assim age”; “O homem é limo e palha, Deus é seu construtor’!;

EGIPTO – A actual república do nordeste da Africa, entre o Mar Vermelho e a Líbia, ainda tem o nome de Egipto e compreen­de, sobretudo, o vale do Nilo, do Sudão ao Mediterrâneo. A parte habitada é o pequeno vale, estreito e longo, pelo qual corre o rio Nilo, que com suas inundações periódicas fertiliza a região: O Egipto é um presente do Nilo, disse Heródoto, e sua afirmação ainda hoje é válida. A etimologia do nome Egipto, que nos veio do grego através do latim, se perde na noite dos tempos pré-helê­nicos. Sabe-se que a cidade de Mênfis era chamada, pelos nati­vos, de Hikuptah, “Castelo-Do-Ca-De-Ptá.”; segundo hipótese plau­sível, dessa voz os gregos tiraram a palavra Aegyptos (ou Aigyp­tos, como aparece nos poemas homéricos). Os povos da Asia designavam o Egito por um termo semita que serve ainda para nomear este país em língua árabe: Misr.
Para os antigos egípcios o país era “O Negro e o Vermelho” ; o vermelho seria o quadro saariano cujo clima reina no Egito, seriam as extensas planícies ardentes do deserto, de este e do oeste, onde a verdura se manifesta apenas nos oásis líbicos; o negro seria o vale, anualmente enriquecido com o limo novo perpetuamente renovado; a fauna e a flora, tipicamente africanas, abundavam nas vertentes áridas; mas desabrochavam com exube­rância nos pântanos e marnéis que marginavam o rio, imensas extensões de terra negra, coberta de papiros, de lótus, de junça; as irrigações artificiais levavam o benefício da água a distâncias imensas, isto já nas mais recuadas eras.
O povo egípcio sempre viveu do solo negro; e o nome deste tornou-se muito cedo o nome da região: Kemi.
Nas inscrições, porém, onde domina o estilo enfático e pom­poso, o Egipto é mencionado pela justaposição de um junco flo­rido, símbolo da região meridional, e um tufo de papiros, insígnia do Baixo Egito. Pois, geográfica e politicamente, o reino do faraó, “Senhor das Duas Terras”, é duplo, compreende o País do Norte e o País do Sul.
Desde as origens, a raça, a flora, a fauna, as técnicas e as crenças que dominaram no Egito procedem de quatro mundos distintos que ele une: o Saara, a Africa negra, o Oriente Próximo e o Mediterrâneo. Nessa região privilegiada, antes do ano 3000 a.C., o povo que lá vivia soube elaborar uma civilização -única no mundo -que foi própria, mistura, contudo, de tradições arcai­cas e de criações da vanguarda. Essa civilização conferiu, no curso das idades copta e muçulmana, originalidade prestigiosa ao país que forma hoje a parte capital da República Arabe Unida.

ELURO –‘ Divindade egípcia, o gato.

EMBALSAMAMENTO -A mumificação dos mortos é um desses mistérios inquietantes que faz o prestígio do antigo Egito. Por que esse esforço, prolongado durante milênios, para sub­trair à corrupção os corpos que a vida abandonou?
A morte, para os egípcios, não era um fim, mas uma pas­sagem perigosa, no curso da qual os diversos elementos que constituem o corpo humano se dispersavam, mas conservando, individualmente, a sua integridade. Quando esses elementos se reuniam e se introduziam novamente no corpo, era possível a existência de nova vida, semelhante à que os vivos aqui gozavam. Mas para obter esse resultado era mister preservar o corpo, o mais frágil, o mais corruptível desses elementos compostos que formavam o ser vivo; deixar que ele se decompusesse, era perder para sempre e inapelavelmente a possibilidade da reunião das forças vitais.
Heródoto, impressionado com essa idéia, descreveu minucio­samente o processo de embalsamamento. Inicialmente, com um gancho de ferro extraíam o cérebro pelas narinas; os resíduos que permaneciam no interior da cabeça, eram dissolvidos com certas drogas (“lavagem encefálica”); a seguir, com uma pedra afiada, praticavam uma incisão ao longo do flanco e esvaziavam o corpo de todas as vísceras (“evisceração”); então o interior do corpo era lavado com vinho de palmeira e polvilhado com plantas aromáticas; enchiam, a seguir, o ventre com mirra moída, cássia e outros arômatas, exceto incenso; finalmente cosiam a abertura. Começava, então, outra fase da embalsamação. A fim de desidratar a pel~, os ossos e as cartilagens, impregnavam o corpo com sal e o mergulhavam no natro durante setenta dias. Esse banho se operava no natro seco, capaz de absorver toda a umidade. Passados os setenta dias, retiravam a múmia do natro, lavavam-na cuidadosamente e enrolavam-na com faixas de gaze muito fina, endurecidas com certa goma. O compri­mento desses faixas ou tiras é considerável; as múmias mais bem preparadas tinham faixas que contavam algumas centenas de metros de estofo finamente tecido e cuidadosamente enrolado; os dedos, as mãos e os pés eram cobertos com faixas finíssimas; depois, o corpo todo era envolto em tiras mais largas, o envol­tório externo. Todos esses tecidos eram empregados não a seco, mas humedecidos com óleos cosméticos, a fim de aderirem firme­mente ao corpo e impregná-lo de suave perfume. No interior dessas camadas de faixa, à medida que se processava o enfai­xamento, colocavam, nos lugares prescritos, amuIetos de pedras semi-preciosas para assegurar a conservação da múmia; algumas faixas eram decoradas com desenhos feitos a tinta (figuras de divindades etc.).
O embalsamamento era caro; muitas classes não possuíam posses suficientes para arcarem com o Ónus de tão custosa ope­ração.
A palavra múmia, que os egípcios não conheciam, veio do árabe mumya, “cadáver embalsamado..

ENÉADE -Uma enéade (palavra grega que significa “no­ve”), em egípcio pesedjet, era, inicialmente, a reunião de nove divindades, hierarquizadas ou complementares, cuja soma repre­sentava todas as forças elementares do Universo.
A enéade mais conhecida é a de Heliópolis. Atum, o criador solitário, e depois os pares (seus filhos) Shu-Tefnu; seus netos, Geb-Nut; finalmente os dois pares: Osíris-Isis e Set-Néftis.
Às vezes o número de nove era insuficiente para nomear todos os deuses; criava-se, então, uma enéade complementar.
Não raro o colégio divino não alcançava o número nove ou o ultrapassava de pouco; assim, com o tempo, o termo perdeu seu sentido etimológico inicial, para designar, simplesmente, o “colégio dvino” de uma teologia qualquer.
A “grande enéade” de Abidos, por exemplo, compunha-se de apenas sete divindades; a enéade tebana, por sua vez, contava quinze nomes diferentes. A teologia de Hermópolis, porém, con­servou o seu colégio divino num grupo fixo de oito deuses, a Ogdoade.

ESCARABEU -Coleóptero coprófago e da cor de antra­cito, tinha o escarabeu ou escaravelho, entre os egípcios, o nome de quéprer. Quando surgiu a linguagem escrita, o escarabeu ser­viu para notar um termo assaz vago e complexo, o verbo quéper, que pode si,gnificar “surgir para a vida tomando determinada forma”, “ser” ou “tornar-se”.
Provavelmente a homofonia com o verbo fez do escaravelho um dos símbolos da renovação e em Heliópolis consideraram-no manifestação do demiurgo “Que Traz A Existência de Si Mesmo”, o deus Quépri, o sol levante.
Entre outras figuras igualmente estranhas, o Vale dos Reis nos apresenta um escaravelho negro que sai da areia caminhando para trás, impulsionando urna esfera ruborescente. A explicação de Plutarco parece referir-se a essa extravagante figura: “Quanto ao escaravelho, pretendiam que sua espécie não possui animais fêmeos, todos são machos e eles depositam o sémen em Uinfi matéria que juntam em forma de esfera e a rolam diante deles com as patas trazeiras, imitando, nisto, o curso do sol, que se dirige do oriente para o ocidente e parece seguir direção contrá­ria à do céu..;”
Os escaravelhos serviam corno sinetes e como amuletos. Encontraram-se aos milhares, de pedra dura, de esteatite, de calcário ou de faiança. De tamanho variam entre 1 a 10 cm. Os formatos divergem, desde o tipo naturalista até o escara­bóide com élitros, énfeitado com gravuras, e o com cabeça de carneiro. Em geral, no ventre, se encontra urna inscrição ou desenho referente à finalidade que se espera ele alcance; outros, como sinetes, trazem o nome do funcionário ou votos de felici­dades.
Escarabeus históricos eram emitidos à maneira das nossas medalhas comemorativas; havia duas séries principais, grande e pequena.
Não raro os escaravelhos eram ornados com sinais profilá­ticos e escondiam criptogramas; comumente, alguns escaravelhos permitiram datar todo um estrato arqueológico e a “escarabeo­logia” é capaz de dizer tanto quanto a numismática.
Os grandes “escaravelhos de ‘coração”, geralmente talhados na pedra dura, ou feitos de faiança, flanqueados de asas de fal­cão, eram talismãs funerários especiais.

ESCORPIÃO -A imagem característica desse perigoso arac­nídeo é um dos mais antigos hieróglifos, usados para designar um soberano pré-dinástico, o “Rei Escorpião”.
O escorpião ainda hoje pulula no Egipto.
A fêmea do escorpião era a deusa Selquet ou Selquit, no fundo divindade benfazeja, pois atribuía poder às manifestações dos “encantadores de Selquet”, velha corporação de feiticeiros­-curadores. Mas nas inscrições a efígie da deusa e toda manifes­tação do escorpião amarelo eram substituídas prudentemente pelo “escorpião d’água”, desprovido de cauda; esse substituto gráfico não feriria o defunto, se o hieróglifo se revelasse por meio de magia.
As numerosas conjurações contra os répteis venenosos aludem especialmente ao escorpião.
Conta o mito que a gata sagrada, filha de Ré, fora picada por um escorpião; o pai logo a cura. A recitação dessa história curava todo aquele que tivesse sido ferido por um escorpião, pois o paciente se identificava com a deusa salva pelo deus seu pai. Quando Isis fugia do perverso Set, estava escoltada por sete escorpiões.Certa vez, urna mulher, apavorada, fechou-lhe a porta no nariz. Os escorpiões foram tornados de furor; reuni­ram-se e deliberaram corno deveriam proceder; por fim acerta­ram que todos injetariam o veneno num só, chamado Téfen, e que este deslizaria sob a porta e feriria a filha da mulher. De feito, tudo aconteceu como tinham planejado. Mas a deusa Isis, preocupada em salvar uma inocente, inventou, então, as fórmulas que se recitam junto a urna criança atacada por um escorpião: “Veneno de Téfen, vai-te embora, corre pelo solo, sem circular nem entrar…”

ESFINGE -Monstro fabuloso que se encontra na Grécia e no Egito.
No Egito a Esfinge era uma estátua colossal representando, em geral, um leão agachado, com cabeça de homem; a Esfinge fêmea é mais rara. A Esfinge era, propriamente, urna forma do Sol, Harmacuti, Harmaquis, Horo nos dois horizontes. As ruínas dos templos egípcios da Tebaida oferecem longas avenidas de esfinges monólitas.
A Esfinge grega é um monstro cruel, leoa com cabeça de mulher, enigmática, segundo se vê no mito de Édipo. Os famo­sos leões divinos do Egito foram chamados pelos gregos de “esfin­ges”, mas na verdade são feras com a cabeça de faraó, esfinges masculinas, “androesfinges” corno diz Heródoto.
A palavra grega sphinx e a voz egípcia shespankh (“Estátua Viva”), que os egípcios usavam notadamente para designar os leões androcéfalos, não correspondem. São termos analógicos; a partir dessa analogia, alguns sábios acreditam que o nome e o aspecto da esfinge grega seja urna longínqua herança vinda do Egito através da Síria. Restaria, apenas, explicar, a mudança de caracteres, pois a Esfinge bondosa do Egito tomou-se perver­sa nas terras helênicas. No vale do Nilo, com efeito, mesmo nos raros casos em que ela é fêmea (Esfinges de Rainhas), mesmo quando assume a forma de pantera com asas de falcão e se lança sobre os chefes bárbaros, a Esfinge, moralmente, nada tem de monstro perverso. É, sempre, um poder soberano, impla­cável para com os rebeldes, mas protetora dos bons.
A Esfinge de Gizé goza da mais merecida fama; é a maior e uma das mais anti~as Esfinges. Consiste numa colina calcária, de 200 m de comprimento, que Quéfren mandou esculpir; a pedra bruta transformou-se num gigantesco leão, guarda das galerias ocidentais, por onde vão o Sol e os mortos. Em o Novo Império, dessa Esfinge fizeram o deus Harmaquis, o “Horo do Horizonte”; os reis que iam caçar por aqueles lados dedica­ram-lhe estelas. Urna colônia de cativos cananeus viu nela o deus palestinense Hurun.
Várias vezes (notadamente sob Tutmósis IV) foram obriga­dos a libertá-Ia das dunas de areia que o vento lançava sobre o seu corpo; seu rosto teria ainda aquele misterioso e suave encanto se um vizir da Idade Média não lhe tivesse mutilado os traços.

FAGRE -Peixe vermelho do qual os egípcios fizeram uma divindade.

FALCAO -O falcão de bela plumagem, rapace e atrevido, era comum no Egito. Dizia-se que “o inimigo se sentia parali­sado diante do Faraó, corno as aves diante do falcão”. O deus Horo (“O Mastado”, talvez alusão aos longos e ele­ vados giros que a ave faz na imensidão dos céus) assumia a forma do falcão ou o aspecto de um homem hieracocéfalo. Mas não se creia que toda divindade assim representada seja Horo. Efetivamente, vários deuses se tinham encarnado no falcão. Ré, por exemplo, com o disco solar sobre a cabeça, Mutu, com dois altos remígios, Socáris, falcão mumificado etc…

FARAO -A palavra “faraó” só começou a ser divulgada no primeiro milenário a.C. Transmitida pela Bíblia, a palavra vem do egípcio pir-ó, “casa grande”; primeiro designava o palácio, mais tarde serviu para identificar o senhor do palácio.
Em nenhuma época da história egípcia o nome faraó, sozinho era o título oficial do rei; o protocolo oficial compreendia cinco nomes.
A aparência do faraó era magnífica. Suas insígnias o iden­tificavam com os deuses; como eles, trazia na cintura uma cauda de animal, que caía para trás; usava uma barbicha postiça que já era, em si mesma, uma divindade; na mão sustentava o cetro com a cabeça setiana (de Set); os fiéis cantavam hinos a suas coroas animadas de vida sobrenatural; no meio da fronte osten­tava o uraeus. O faraó, era, em suma, o filho carnal do deus supremo.

FÉNIX -Ave maravilhosa, célebre nas tradições da Grécia e do Egipto. O nome parece provir da palavra boinu (ou bonu ou vonu), donde os gregos fizeram phenix; a palavra egípcia servia para designar o pavãozinho de Osíris. O protótipo da fênix mís­tica é, provavelmente, o belo gavião do Egito, ou talvez, a garça cendrada (ardea cinerea), de bico longo e com a cabeça ornada de duplo penacho. O gavião do Egito era adorado em Helió­polis, assim como nas cidades onde havia um culto regular do deus Sol; era, pois, a encarnação dos deuses solares. Os gregos fizeram da fênix um animal fantástico, do tamanho de uma águia, com topete na cabeça, dourada no pescoço, cauda branca matizada de penas vermelhas; seus olhos brilhavam. Vivia 500 anos (outros falam de 1000 ou de 5000); quando sentia que seu fim se aproximava, fazia no deserto um ninho com plantas odorí­feras; inflamava-se aos raios do sol e das suas cinzas nascia um ovo ou uma outra fênix. O primeiro cuidado do recém-nas­cido era levar os restos mortais do pai ao templo de Heliópolis. Era o símbolo da imortalidade da alma, ou do ano que renas­ce após haver perecido, ou, enfim, de um grande ciclo astronó­mico, diferente do ciclo sotíaco.

FESTAS -O ano egípcio comportava grande número de dias feriados: o Primeiro do Ano, festas bimensais, começo de estações, começo das sementeiras, das colheitas, da cheia anual etc. Ao lado desses, mais ou menos fixos, havia outros eventuais, como o coroamento do faraó, jubileu ou algum aniversário parti­cularmente caro ao povo ou à casa real. Mas as festas mais significativas eram as dos mortos. As famílias, então, dirigiam­-se para as necrópoles a fim de levarem alimentos aos seus defun­tos; mas eram festas privadas. Ao contrário, às panegírias anuais das grandes divindades, interrompiam por muitos dias as atividades do país, atraíam milhares de peregrinos, convulsionavam a vida social de uma ou mais cidades. Heródoto nos fala das festas de Bubástis, que atraíam 700 000 peregrinos, homens e mulheres, todos dispostos a rir, comer bem, beber melhor e divertir-se a valer.
Em Tebas realizavam-se anualmente a festa de Opet e a festa do Vale.
Outra festa célebre era aquela no curso da qual Hator de Dendera ia anualmente passar alguns dias em Edfu, com seu divino esposo Horo. Ao lado dessas festas regionais, cada cidade religiosa tinha seu próprio calendário; havia procissões, mimos e representaçoes.
No quarto mês do ano egípcio (Khoiak), o país inteiro, em devoto recolhimento, aguardava a ressurreição de Osíris.

FRASIO -Adivinho de Chipre, que Busíris -v. essa pala­vra -imolou sobre seus altares.

FTA -V. Ptá.

FUNERAIS -O sepultamento de um cadáver comportava quatro fases. Primeiro o luto na família do defunto, ao redor do leito mortuário, dominado por uivos, gritos e lamentações das carpideiras profissionais, que batiam no peito, arrancavam os cabelos e cobriam-se de pó; o céu era testemunha da dor que experimentavam; como em Roma, quanto mais rico fosse o de­funto, maior era o berreiro e as vociferações.
Depois organizava-se o cortejo até o Nilo; o defunto passava o rio no catafalco, sobre uma barcaça; duas mulheres represen­tavam Isis e Néftis; os lamentos prosseguiam durante a travessia. Na margem ocidental o féretro (ou sarcófago de madeira) era colocado num carro tirado por vacas e organizava-se nova pro­cissão; os parentes choravam, as carpideiras uivavam, os sacer­dotes incensavam o defunto. Chegavam, então à necrópole; come­çam os ritos finais, oficiados pelos sacerdotes: Abertura da Boca, adeus ao morto, pronunciado pela viúva e descida do féretro ao túmulo, com seu mobiliário; logo a seguir os presentes parti­cipavam de um festim fúnebre em comunhão com o morto.
Nas cidades onde a necrópole se encontrava na mesma mar­gem, as cerimônias eram mais rápidas, pois não tinham a nave­gação; os demais ritos eram idênticos.

GATO -Nos tempos pré-históricos do Egito, havia na região uma espécie de gato selvagem, que errava pelas bordas do deser­to. Davam-lhe o nome de chaus. Tinha a cauda curta, era peludo e agressivo e infatigável caçador. Os gatos selvagens que ainda hoje enxameiam no Egito são descendentes desses primitivos chaus.
Sem dúvida foi este felino selvagem e não o seu confrade domesticado, o protótipo inicial do “Grande Gato Que Está Em Heliópolis”, do qual fala o Livro dos Mortos, ente solar muito antigo, que protegia o homem e dilacerava a serpente do mal postada ao lado da árvore sagrada. O gato doméstico, muito gracioso, manifestou-se muito tardiamente; sua primeira manifes­tação ocorre em 2100 a.C.: a mãe de um funcionário do rei Mentuhotep I se chamava “A Gata”. A partir do Império Médio as representações do gato domesticado são mui numerosas; os egípcios o chamavam por meio de uma onomatopéia: myéu.
O Olho do Sol, filha de Ré (Olho em egípcio é do gênero feminino), encolerizara-se e fugira para o deserto da Núbia; conseguiram apaziguá-la; a leoa de fogo tomou, então, o aspecto de uma graciosa gata, Bastet, a deusa-felino.

GEB -Ser divino, masculino, que personifica a Terra, espo­so da deusa Nut, o Céu (Terra em egípcio é do gênero masculino e céu feminino); ambos estavam separados por Shu, a Atmos­fera. Segundo as lendas de Heliópolis, Geb participava da enéade. Segundo tz:adição mais recente, Geb teria arrebatado à força o reino de seu pai, Shu, que se tornara muito velho. Antigamente Geb era representado sem nenhum atributo; a iconografia mais recente empresta-lhe uma coroa.

GEBEB -O deus-Terra. -V. Geb.

GÉNIOS – Menos rica do que a civilização mesopotâmica, contudo, a demonologia egípcia contava grande número de génios malfazejos; eram forças do Caos, seres híbridos, homens sem cabeça, animais monstruosos, toda uma fauna misteriosa que causava pavor. As paredes do Vale dos Reis estão cobertas com as figuras dessas estranhas figuras.
Havia legiões de demônios que eram causa das enfermidades e que invejavam a sorte dos felizes; não tinha número o cortejo de maus espíritos, masculinos e femininos, íncubos, sonâmbulos, epilépticos, afogados que gostavam de atormentar os vivos e arrebatar as criancinhas dos berços.
Havia, por fim, os emissários de Secmet, que, por parte da divindade, traziam a doença e a morte àqueles que negligen­ciavam seu culto.
A todos esses seres inquietantes opunham-se os “bons Gênios”, protetores de Osíris, guardiães dos templos e das sepulturas.

HARACTI – O deus-falcão Horo.
HARIDI – Serpente adorada no Egipto.
HARMAQUIS – O Horo do Horizonte, o Sol. Era represen­tado pela Esfinge de Gizé.

HATOR – Hator era a deusa de importantes cidades: Gebe­lein, Cusa, Atfih, Imau, Mênfis. Os gregos a identificaram com Afrodite, e todas as cidades que a cultuavam passaram a cha’­mar-se “Afroditópolis”. Senhora do céu, alma viva das árvores, deusa com forma de vaca, alimentadora do soberano do Egito, mãe de Horo (como Isis), deusa do ouro, deusa em figura de leoa (e confunde-se, então, com Tefnut), Hator era a personalidade múltipla de várias divindades. Existe, até, um grupo de “Sete Hators”, espécies de fadas, que atribuíam aos recém-nascidos ou os males ou os bens.
Os egípcios, ainda, faziam dela a Senhora dos países longín­quos: Punto, Biblos, Sinal…
Sobre a margem esquerda, em Tebas como em Menfis, Hator tornou-se a padroeira da montanha dos mortos e é nesse papel cósmico e familiar que a representa a vaca encontrada na sua cápela de Deir el-Bahari. Mas é no grande templo de Dendera que ela aparece com seus aspectos mais clássicos: ao mesmo tempo deusa universal, jovem amável, sorridente e bela, e deusa da Alegria, da Dança e da Música.

HEMFTA -Divindade que corresponde ao Zeus grego.

HEROS -Um dos quatro deuses Lares dos egípcios. – V. Anáquis.

HIDRIA – Vaso de todos os lados furados e que representava o deus das águas. A palavra é de origem grega.

HIERABOSCOI – Sacerdotes que estavam encarregados de alimentar os gaviões sagrados. Do grego hiérax, “gavião” ou “falcão” e bósko, “eu alimento”.

HIPOPÓTAMO – Os egípcios serviam-se da sua figura para escrever a palavra “pesado”. O hipopótamo era sobretudo odiado por causa dos seus imen­sos e continuados grunhidos e por causa do dano que causava aos agricultores: “Da colheita, os répteis tomaram uma metade, os hipopótamos comeram a outra”. De feito, esse imenso her­bívoro não era uma criatura perversa; não atacava os homens nem os animais domésticos; mas, numa sociedade essencialmente agrícola, era temível inimigo.
Destarte, consideraram o animal como manifestação de for­ças negativas; votaram-no, pois, a Set, o perverso, e em Edfu, cidade do bom Horo, havia harpoadores sagrados, cujo ofício consistia em caçar os pesados hipopótamos.
Mas o ,grande paquiderme não foi sempre e em toda parte considerado um ser nefasto. O hipopótamo fêmea.. com largos flancos gordos, com imensos seios pendentes, simbolizava a fecun­didade. Foi identificada, portanto, com a deusa Tuéris. Repre­sentavam-na sob a forma de um hipopótamo, erguido sobre as patas trazeiras, com os seios pendentes e apoiada no nó mágico, símbolo da proteção.

HORO – Os deuses-falcões foram muito numerosos no Egipto. O mais célebre é Horo.
Inicialmente Horo foi um grande deus do céu, assim como o falcão é o rei dos ares. Deus dos espaços aéreos, cujos olhos eram o sol e a lua, transformou-se logo no próprio Sol, em parti­cular com o nome de Ré-Haracti. Mas continuava a ser o deus que reinava sobre o céu e os astros. A partir da I dinastia, Horo tornou-se o deus-falcão protetor do rei, e, em certo sentido, o próprio Faraó. Feito filho de Osíris e de Isis, sobrinho de Set, Horo lutou para reaver seus direitos.

HUPE -Pássaro que era reverenciado em todo o Egito.

IBIS – Ave sagrada. Era crime capital matar uma, mesmo por acaso. Segundo a tradição, protegia o vale do Nilo contra as invasões das serpentes aladas.
A “íbis sagrada”, de plumagem branca, com cabeça e cauda pretas, era a encarnação de Tot. Chamava-se vulgarmente hib.

ICNEUMON -“Rato do Faraó”, mangusto. Era adorado pelos egípcios; constava que comia os ovos dos crocodilos. Encontrou-se grande quantidade de icnêumons de bronze; os animaizinhos estão sentados sobre as patas trazeiras, com as dian­teiras erguidas em sinal de adoração. Representava uma divin­dade solar cujos caracteres especiais ainda não estão bem deter­mmados.

IMOTEP -O Sábio divinizado. Sua vida e obra nos são mal conhecidas; foi conselheiro do rei Djeser (III dinastia, 2900 a.C.); atribuem-lhe o início dessa admirável arquitetura de pedra que veio, subitamente, substituir, sobre o platô de Sacara, as antigas construções de tijolos; era o padroeiro dos pedreiros.
Mas não se tornou deus em virtude das suas habilidades como arquiteto; tampouco as suas obras literárias lhe mereceram tal graça: perderam-se todas (se é verdade que escreveu alguma). Na Baixa Epoca votaram-lhe culto como curador; a sua ca­pela, em Sacara (chamada Asklepieion pelos gregos), tornou-se um sanatório para o qual afluíram os coxos de todo o Egito. Gozava de grande prestígio entre os gregos que o chamavam Imuthes.

ISIS -Através das lendas osíricas, Isis tornou-se a figura mais popular do panteão egípcio; irmã e esposa do deus Osíris, recolheu-lhe o corpo defunto, depois que Set o matou; com a ajuda de Néftis e de Tot conseguiu, com o vento das suas asas, restituir-lhe o sopro vital, a vida; por fim, quando Osíris, nascido para uma vida nova, mas restrita ao além, partiu para sempre, criou com cuidado o filho Horo, nos brejos do Delta; figura popular, é o tipo da esposa e mãe.
Não se sabe de quem é filha nem em que cidade nasceu. Segundo uma tradição extravagante, teria se casado com Osíris no seio da sua mãe, de sorte que quando nasceu já estava  gá­vida de um filho. Isis e Osíris reinaram muito tempo no Egipto, no meio da felicidade geral de todos; mas Osíris, que resolvera conquistar a tndia, partiu com um exército de homens e mulhe­res; à sua volta Set, seu irmão, conspirou contra ele e o matou; mas Set não gozou por muito tempo do fruto do crime; Isis for­mou um exército e deu o comando a Horo; este venceu Set em duas batalhas.
Depois da morte de Isis os egípcios a adoraram juntamente com seu marido e irmão; como, durante a vida, tinham ambos se esforçado para desenvolver a agricultura no país, o boi e a vaca tornaram-se seus símbolos; a seguir publicou-se que a alma de 1sis fora habitar a Lua, ao passo que a de Osíris se dirigira para o Sol.
Os egípcios criam que as cheias periódicas do Nilo eram produzidas pelas lágrimas de Isis, derramadas por causa da morte de Osíris e era por isso que celebravam a festa da deusa quando as águas começavam a subir.
Ísis passou, também, por ser a Natureza ou Mãe de todas as coisas. Davam-lhe diferentes nomes, segundo seus atributos; veneravam-na em todas as cidades do Egito, de modo especial em Bubástis, Copto e Alexandria. Seu culto passou para Roma e chegou até às Gálias.
Representavam Isis ora sob os traços de mulher, com cornos de vaca, símbolo das fases da lua, ora com um sistro na mão direita e um vaso na esquerda, ora com a cabeça coroada de torres, como Cibele, tendo a seus pés o globo da terra; às vezes davam-lhe asas, um carcás ao ombro e nas mãos o Corno da Abundância (“Cornucópia”).
Era considerada, também, como grande feiticeira, mas boa e caridosa. Seu poder mágico velava, principalmente, sobre as crianças. Sabe-se que Isis, por esperteza, surpreendeu o nome mágico do deus supremo, o que lhe conferiu poderes extraordinários.

ISIS (FESTA DO NAVIO DE) -Festa anual que os egípcios celebravam em honra de   Isis como rainha do mar. Essa festa se realizava no mês de março. Conduziam num navio, ricamente adornado, cestas com perfumes e tudo aquilo que era necessário ao sacrifício; depois lançavam ao mar uma composição feita com leite e outras matérias; fingiam, então, que o navio vogava à mercê dos ventos. Essa festa passou para os gregos e romanos; estes últimos faziam despesas imensas para que a festa de Isis fosse magnificentíssima.

ISIAS -Sumo-sacerdote ou príncipe dos sacerdotes egípcios. Fez uma estátua do deus Anúbis, que o tempo poupou.

LEÃO -Atualmente não há leões no Egito; na pré-história, porém, eram assaz numerosos. Consideravam-no o animal real por excelência. A mitologia conhece o leão sob os mais diversos aspectos; dele deriva a Esfinge.
Os egípcios domesticavam os leões; os Ramsés faziam guerra acompanhados de leões.
O país estava cheio de templos dedicados à deusa-leoa, que era venerada com diversos nomes: Bastet em Bubástis, Páquet em Beni Hassan, Hator em Gebelein, Secmet em Mênfis e na maior parte dos santuários leonmos.
A génese heliopolitana narrava que os primeiros deuses nas­cidos do demiurgo solar se tinham manifestado como um casal de leõezinhos, no tempo em que Atum engendrou Shu e Tefnut, em Heliópolis, quando era Uno e quando se transformou em Tr6is.
A leoa emprestou seus caracteres ao Olho de Ré para que este aniquilasse a humanidade. Sobre os telhados dos templos, o leão é a divindade que afugenta Set e seus perversos companheiros.

LINGUA -A velha língua faraónica conta mais de 5000 anos; os primeiros textos aparecem por volta de 3 lDO a.C.; o copta, último aspecto dessa língua milenar, não se apagou intei­ramente diante do árabe senão por volta do XVII século; serve, ainda, como língua litúrgica nas igrejas coptas do Egito. A língua egípcia pertence à família camito-semítica; é das mais simples: o feminino em t, o plural em u, ui; não possui casos; na oração, em geral, o verbo ocupa o primeiro lugar, seguido do sujeito, do objeto direto, do objeto indireto e do advérbio: Escrever eu carta a ti amanhã.

LIVRO DOS MORTOS – A partir do Novo Império, depu­nham um livro (papiro ou couro) junto do corpo do defunto, no sepulcro. Esses manuscritos, encontrados às centenas, escritos em hieróglifos, em hierático e em demótico, são textos funerários; praticamente revelam a idéia que tinham os sacerdotes-mágicos do Universo e refletem as mil crenças funerárias. Mas não repro­duzem, como às vezes se imagina, uma Bíblia egípcia, um manual de iniciação filosófica ou mesmo um livro que tratasse metodi­camente dos destinos póstumos. São compilações de encantações (completadas com desenhos destinados a aumentar o poder opera­tório), cuja leitura ou presença é suficiente para assegurar àalma um destino feliz e triunfante, divino e humano ao mesmo tempo.Todas as compilações desse gênero trazem o título:
“Fórmulas para sair à luz”, ou “Livro do vir à luz”, em egípcio Per-em-hru; entretanto, como os depredadores árabes das cata­cumbas davam o nome de Kitábul máit o maitín, isto é, “Livro do Morto” ou “Livro dos Mortos”, a todo rolo de papiro que encontravam com as múmias, foi adotado modernamente este nome para aquela célebre compilação.

LOTO -Crescia aquela planta que os gregos e os romanos chamavam loto em todos os marnéis e sítios palustres do Egito. Dava uma bela flor. Conheciam os egípcios dois tipos (atesta­dos pelos desenhos e relevos, pois não há quase uma única manifestação gráfica, pictórica ou iconográfica que não repre­sente o loto, “0 brasão floral do Egito”), o Nymphaea lotus e o Nymphaea caerulea. Bem mais tarde, foi introduzida uma ter­ceira espécie, vinda da lndia, o Nymphaea nelumbo, que foi des­crito por Heródoto e que é comumente figurado nos monumentos helenísticos. Os rizomas feculosos do loto entravam na alimen­tação do egípcio. De todas as ninfáceas do antigo Egito, sem dúvida o loto azul foi o mais sagrado. Enquanto o loto branco exalava um perfume forte e agressivo, o aroma do loto azul era suave e doce: cheirava a vida divina. Foi, também, o emblema primitivo do jovem deus de Mênfis, Nefértum, senhor dos perfu­mes. Era para os egípcios o que são as rosas para nós: as mais belas flores, a rainha das flores. Eles chamam o loto de nanufar, em o Novo Império, e o termo chegou até nós, o nenúfar. Entrava, também, o loto nas formas arquiteturais, nos capi­téis das colunas, nos arabescos das volutas que encimavam as cornijas.
LOTUS – V. Loto.

MAAT -Filha de Ré. Era a encarnação da Verdade e da Justiça, assim como representava o equilíbrio do Universo, a relação harmoniosa dos elementos entre si, a coesão de todas as partes que formam a manutenção do todo. É, por conseguinte, a Ordem Universal; mas como influi também nas pessoas, torna-se, então, a Ordem Ética, que determina como agir e como proceder, não só consigo mesmo mas também com os demais.

MACACO -Dois tipos de macacos aparecem desenhados ou esculpidos nos antigos monumentos egípcios, o Cercopithecus aethiops e o Papio Hamadryas, isto é, o cercopiteco e o babuíno.
O macaco era um deus no Egito. Não era animal original do país, mas importado. Não obstante, eram numerosos e bem conhecidos dos egípcios. Os animalistas tini tas os esculpiam com predileção; os senhores das mastabas mênfitas costumavam reu­nir num grupo seus anões, cães e macacos. No outro mundo a alma precisava ter muita sorte para escapar aos macacos que pescavam com redes; mas havia, também, macacos bons, amigos do Sol e dos homens. Os cinocéfalos costumavam, ao raiar do sol, gritar agudamente; acreditavam, então, que os macacos aju­davam o astro-rei a sair das trevas e o saudavam com grandes guinchos quando viam que o astro vencera. No Egito, assim como na Babilônia, o babuíno era a imagem do Sol. Mas o maca­co supremo que o Egito inteiro adorava, era Tot, o deus de Hermópolis Magna (“Hermópolis a Grande”, Tuna em egípcio). Quando seu culto se implantou nessa cidade, o Tot do Delta, sem renunciar à sua figura de íbis, assumiu também o aspecto de babuíno. Destarte passaram a figurar a divindade como um velho cinocéfalo sentado, mãos nos joelhos, pesada juba, o sexo arrogante e erecto e ar pensativo; em cima, o disco lunar. Quando o Olho de Ré se tornou gata, o macaco tentou conven­cê-Ia a voltar, pois Tot era o padroeiro dos sábios e dos letrados.

MACÉDON – Filho de Osíris.

MASTABA -Tumbas particulares no Antigo Império, que se agrupavam em quarteirões regulares, tanto em Gizé, como em Sacara e em outras localidades. Em geral dispunham-se ao redor da pirâmide real. Existem vários tipos, conforme sejam feitas de tijolos, de pedra ou de calçáreo; distinguem-se, tam­bém, pela disposição interior.
Em geral a mastaba se compõe’ de duas partes independen­tes: a sepultura e a capela; a sepultura, disposta no fundo de um poço, contém o sarcófago de pedra e o material funerário indispensável à vida da alma no outro mundo; essa sepultura era murada depois do enterramento; o poço, entulhavam-no com pedras e cascalho; a parte construída da mastaba, visível acima do solo, consistia num pequeno outeiro feito com materiais gros­seiros, coberto ou cercado por um muro de pedras; o plano era geralmente retangular e os muros ligeiramente inclinados. Daí o nome: mastaba, em árabe, quer dizer “banco” ou “ban­que ta”. No exterior dessa massa erguia-se uma pequena capela, onde se realizava o culto funerário. A capela era acessível aos visitantes. Nela depunham os vivos as oferendas e queimavam incenso em honra do defunto.

MEMNON (COLOSSOS DE) – As duas estátuas colossais do rei Amenófis III, sentado, que tradição milenar diz ser as “estátuas de Mêmnon”, fazem parte da paisagem tebana.
Os antigos consideravam esses dois simulacros como partici­pando das Maravilhas do Mundo. Atualmente estão isoladas as duas estátuas, no meio de campos cultivados. São monólitos de grés e medem 15 metros de altura; contudo, a fama desses colos­sos não provém da sua grandeza nem da originalidade. Em 27 a.C. um terremoto ou convulsão telúrica abalou a campina tebana; o colosso mais ao norte fendeu-se e partiu-se em dois, na altura da cintura. A partir desse fato, segundo um fenômeno físico que foi constatado recentemente nos templos de Edfu e Carnaque, a pedra se põe a vibrar quando se processam os brus­cos movimentos de umidade e calor que acompanham o nascer do dia. A estátua produzia um som nítido, firme, sonoro. Esse fenômeno intrigou profundamente não só os egípcios mas tam­bém os viajantes que por lá passavam e por fim pessoas que se dirigiam ao local a fim de assistirem ao prodígio. Estrabão, que provavelmente ouviu o “canto da estátua”, não acreditou em poderes miraculosos.
Mas quem era Mêmnon? Por que lhe puseram tal nome? O mito diz o seguinte: “Mêmnon era filho da Aurora e de Titono, neto de Laomedonte. Segundo alguns, era rei da Pérsia, conforme outros, da Etiópia ou do Egito. No décimo ano do assédio de Tróia, correu em socorro de Priamo, com vários carros de combate, e distinguiu-se pela sua bravura. Foi morto por Aqui­leso Aurora, desesperada, lançou-se aos pés de Júpiter pedindo-Ihe que concedesse ao filho algum privilégio que o distinguisse dos demais mortais. Júpiter acedeu aos rogos da mãe desolada; logo que a fogueira fúnebre foi acesa, viu-se sair dela uma infinidade de pássaros, que se separaram em dois bandos e começaram a lutar ferozmente, ao redor da pira funerária, até que todos tom­baram mortos. Foram chamados Memnômidas. Tão insigne honra não acalmou o espírito da mãe. Diariamente continuou a chorar, e o seu pranto é o orvalho que cai ao amanhecer. Em Tebas, no Egito, a estátua de Mêmnon vibrava em acordes har­moniosos logo que as primeiras luzes da Aurora a atingiam. Era a resposta do filho aos doces chamados da mãe.”
Sétimo Severo, animado das melhores intenções, resolveu consertar a estátua mutilada; escultores reconstituíram o colosso. Mas esse fato trouxe como conseqüência que Mêmnon se tornou um colosso igual aos outros e perdeu a voz.
Somente o nome, agora, evoca essa longínqua e maravilhosa história. MENDES -Divindade que era adorada principalmente na cidade que tinha o mesmo nome. Os habitantes de Mendes a contavam entre os oito principais deuses. Mendes era, também, o nome do bode consagrado a um deus que foi pelos gregos identificado a Pã; outros crêem que Mendes era o próprio deus.

MENES -Legislador e primeiro rei do Egito, segundo a lenda. Ensinou aos seus súditos o culto dos deuses, no número dos quais mais tarde foi colocado. Menes é forma grecizada de Menei.

MENFIS -1) Filho de Júpiter e de Protogenia; desposou a Libia.
2) Filha de Ucoreu. Foi amada do Nilo, que se transformou em touro, e teve dela um filho, chamado Egito, de força e vir­tude maravilhosas. Fazem-na, também, esposa de P-pafo e mãe da Libia. Deu seu nome a uma cidade do Egito.
3) Cidade do Nilo, muito antiga, construída às margens do Nilo. Foi capital do pais. No seu lugar existe, hodiernamente, uma pequena aldeia, Mit-Rahined.

MENÚTIS -Divindade que era adorada num burgo do mesmo nome, perto da cidade de Canopo.

METEMPSICOSE -Heródoto escreveu o seguinte: “Os egíp­cios foram os primeiros que afirmaram ser a alma humana imor­tal; pela morte do corpo ela passa sucessivamente a outras for­mas vivas, e após haver habitado alternadamente todos os corpos dos animais da terra, do mar e do ar, penetra novamente no corpo dum homem; é necessário 3 000 anos para que ela conclua todas essas migrações.” O Livro dos Mortos e outras inscrições parecem confirmar o que disse Heródoto; encontramos inúmeras fórmulas para o defunto se transformar em fênix, em falcão, em lótus, em andorinha… Malgrado as aparência, não se pode falar em metem psicose a respeito dos egípcios. As fórmulas do Livro dos Mortos e outras inscrições permitem a alma ba não se tornar prisioneira do sepulcro, onde o corpo jaz para sempre; permitem que a alma se evole sob formas diferentes e erre sobre a terra. Mas são transmigrações passageiras; a alma não percor­re, sucessivamente, ciclos de reencarnação; ela permanece, defini­tivamente, ligada ao corpo embalsamado na sua tumba; pode, apenas, fazer pequenos passeios cá fora. Os casos de real reencarnação dum morto numa nova exis­tência pertencem à literatura popular e fazem parte dos “contos fantásticos”.

MIN – Deus itifálico que foi identificado pelos gregos ao grande Pão Era o santo protetor de Akhmim e de Copto e guar­dião das rotas e estradas da antigüidade.
Impressiona, nessa divindade, o tranqüilo impudor com que exibe o seu monstruoso falo erecto, com uma mão levantada para trás, a direita, em forma de esquadro; sobre sua cabeça flutua o chicote real, símbolo do terror salutar; o outro braço desliza sob as vestes e segura a raiz do falo divino; é a imagem do touro que cobre as fêmeas, senhor da geração, cuja procissão abria o tempo das colheitas e ao qual se oferecia, solenemente, alface que estava impregnada, dizia-se, de virtudes afrodisíacas. O corpo é negro, pois o rito queria que as estátuas de Min fossem ungidas com uma substância vivificante, feita de betume e ingre­dientes carbonizados. Na cabeça trazia duas enormes plumas, o que ainda mais elevava seu talhe esbelto e esguio.

MNP-VIS – Touro consagrado ao Sol na cidade sagrada de Heliópolis; tributavam-lhe o mesmo culto que ao touro Apis.

MOMENFIS – Cidade do Egipto cujos habitantes adoravam uma divindade identificada a Vênus ou a Mrodite, com culto particular. Os habitantes dessa cidade tinham uma novilha sagrada, como os de Menfis possuíam o touro Apis.
MONTU -Deus-falcão da Tebaida, padroeiro de vários sobe­ranos da XI dinastia. Parece que Montu, na origem, foi uma divindade guerreira.
Eclipsado por Amon, reconquistou seu prestígio quando o clero tebaI1o começou a decair. Vários templos foram erguidos em sua honra, em Tebas, Medamud, Tod e Ermant.
Seu animal sagrado era o touro Búquis, que era enterrado nos corredores do Buqueum de Ermant.

MORTE -Não há nenhuma nação que tenha consagrado à Morte e à esperança de sobreviver a ela tantos esforços como os egípcios. É óbvio que eles nela não encontravam nenhum encan­to. “A morte é penosa -dizem os textos -fonte de lágrimas e de pesar.” Todos almejavam ter um belo enterro, mas espera­vam que esse ocorresse somente na mais avançada idade. Cento e dez anos era a idade ideal que todos esperavam alcançar.
Os mensageiros de Secmet e de Bastet, portadores da morte, eram particularmente temidos. Não havia, entre os egípcios, um deus particular que perso­nificasse a Morte, e isto porque a morte, para eles, não era um fim, mas sim o começo de outra situação, a vida além-túmulo.

MÚMIAS – V. Embalsamamento.
MUT – Deusa-mãe do Céu, mulher de Amen-Ré, em Tebas. Com cabeça de abutre, simbolizava a maternidade. Quensu, seu filho, completava a trindade tebana.

NECABIT – V. Necbet.
NECBET -Deusa-abutre da cidade de EI-Kab, no Alto Egito. Necbet tornou-se rapidamente a deusa tutelar do Sul, como Uadjyt, a serpente de Buto, evocava os marnéis do Delta. Sob esse título era representada como assegurando a proteção ao rei, enquanto o abutre entrava simbólicamente no penteado dos soberanos. Senhora dos desertos, Necbet foi, com a evolução gradual das teologias, comparada a outras deusas, tais como Hator, e logo integrada no ciclo solar.
A crença popular fez de Necbet a deusa protetora dos nasci­mentos e dos partos, razão pela qual os gregos a identificaram com Ilithyia.

NEFÉRTUM -Nefértum ou Nefértem, uma das divindades da tríade ‘de Mênfis. Era filho de Ptá e Sequet, deus do ardor do sol nascente, representado com uma chama em forma de lótus sobre a cabeça, como símbolo da força geradora. Figurava, tam­bém, como assessor do morto diante do tribunal de Osíris.

NÉFTIS – Irmã de fsis. Participou dos ritos relativos à proteção e ao renascimento do deus morto, Osíris. Algumas tradições fazem dela a esposa de Set ou a mãe de Anúbis. Parece que jamais Néftis foi adorada particularmente; essa a razão pela qual é associada a outras deusas, como Anú­quis; sob essa forma era adorada em Kom Mer, no Alto Egito, em época tardia.

NEIT – Deusa muito antiga da cidade de Sais. Seus aspec­tos e funções eram múltiplos: criadora assexuada, água primor­dial que, por primeiro, ganhou a vida e da qual procedem todas as criaturas, mãe do Sol; às vezes é confundida com Nut, a abó­bada celeste: outras tradições a representam como deusa arquei­ra, repelindo com flechas os maus. gênios; outras, ainda, fazem dela a protetora do sono, a criadora da arte de tecer, a padroeira das unções com óleo e uma das quatro deusas que velavam sobre os sarcófagos e os vasos canopos.
Conforme os lugares do culto, associa-se ao crocodilo Sobec e às vezes a Osíris. Seu prestígio cresceu a partir da XXVI dinastia. Os gregos a identificaram com Atena.

NEITME -Divindade egípcia que foi assimilada à Atena grega; é provável que seja a mesma Neit.

NEOMENIAS -Festas da lua nova, que eram celebradas na Síria, no Egito e na Grécia. Apolo era honrado com o epíteto de Neomênio, principalmente na época da lua nova.

NILO -1) Neto de Atlas. Deu seu nome ao rio Nilo. 2) Deus dos egípcios, que era venerado sob a forma do deus Nilo. 3) Rio do Egipto, o mais longo do mundo (6500 km), intimamente ligado à história dos egípcios. A etimologia é duvidosa; herdamos a palavra dos gregos, Neilos; há muita fantasia a respeito da origem desse nome. Lê-se, às vezes, que o Nilo era um deus chamado Hapi. Não é bem exato; o Nilo, como entidade topográfica, era chamado pelos egípcios de Ioteru, “O Rio”; Hapi não é o rio divinizado, mas antes o espírito do Nilo, sua essência dinâmica; por isso diziam: “A vinda de Hapi”, isto é, a cheia se aproximava.
Representavam o Nilo sob a figura de um andrógcno pan­çudo com peito de velha ama, verde e azul como as ondas, cabe­ludo e desnudo como um pescador dos paludes.

NO DE ÍSIS – Amuleto que tem vagamente a forma de uma cruz ansada; vulgarmente chamam-no de “cruz egípcia”; os dois braços caem. Sua significação inicial é incerta; o emprego corrente, na decoração, em colunas djed, fez com que o referissem a fsis. O nó da cintura das divindades apresenta, por vezes, essa forma.

NUN -É o “Espírito de deus movendo-se sobre a superfície das águas”. Era o nome que davam ao princípio criador da vida na primeira massa d’água da criação. Era personificado como um deus macho e fêmea autogerado, capaz de produzir prole.
Representavam-no como divindade masculina solar, casado com Mut; era chamado “O pai dos deuses” cósmicos em Her­mópolis.

NUT -Filha de Shu e de Tefnut, casou-se com Geb, o deus­-Terra. Personifíca a abóbada celeste. Os baixos-relevos a repre­sentam como uma mulher cujos pés atingem o horizonte oriental, enquanto seu corpo se curva por cima da terra e seus braços atingem as fronteiras do poente; outras tradições fazem dela uma grande vaca levantada por cima do mundo; ao longo do seu corpo navegam os astros; transformada em mãe do Sol-Ré, acre­ditavam que ela, todas as tardes, engolia o disco solar e o vomi­tava todas as manhãs.
Em Heliópolis consideravam-na a mãe de Osíris, Isis, Néftis e Set. Uma lenda referida por Plutarco, explica como Nut, que seu pai havia tornado estéril, por ter ficado extremamente enco­lerizado com ela, ganhou no jogo de dados cinco dias, do seu parceiro Tot, o deus que regia o tempo; Nut aproveitou-se desses cinco dias (que foram acrescidos aos 360 do ano comum) que ganhara para pôr no mundo, clandestinamente, cinco filhos.

OGDOADE –  “Grupo de oito”. A palavra designa os quatro pares de forças elementares que, segundo os teólogos de Hermó­polis, precederam à criação do mundo. Eram os seguintes: Nun e Naunet, a água primitiva; Heh e Henet, o infinito espacial; Kek e Keket, as trevas; Amon e Amaunet, aqueles que não podem descobrir. Este último par, segundo as tradições, trazia outros nomes que evocavam o Nada e o Vazio ou a indeterminação espacial.
Não são, pois, divindades do universo organizado, mas personificações de elementos do caos, antes da criação. Forças obscuras de um mundo ainda não organizado, esses oito deuses tinham o aspecto de rãs e de serpentes, criaturas espontâneas das águas primordiais. Por obra e graça dessas divindades surgiu o primeiro outei­ro, onde, então, de um lótus, nasceu o Sol. A cidade de Hermópolis, em honra da ogdoade, recebeu o nome de Quemenou ou Quemenu, “A Cidade dos Oito”; dessa palavra derivou o copta Shmun e o árabe moderno Ashmunein. O admirável destino histórico do deus Amon, divindade teba­na, homófono de um dos deuses da ogdoade, explica a impor­tância que nos documentos greco-romanos se deu ao colégio her­mopolitano dos oito deuses iniciais.’ Acreditavam que sob a colina de Djeme (Medinet Habu) descansavam esses oito deu­ses; aí eles recebiam, nos últimos tempos da civilização egípcia, a libação funerária que os deuses vivos seus sucessores, vinham, de década em década, lhes derramar.

ON – O Sol.
ONFIS -O mesmo que Osíris.
ONÚFIS -Touro consagrado a Osíris.

ONÚRIS – Literalmente a palavra significa: Aquele que reconduziu a 10n!!;Ínqua”. O Olho do Sol, uma deusa, ficara irritada e fugira para os desertos da Libia onde se transformou numa leoa.Onúris con­seguiu fazer com que voltasse, inteiramente apaziguada. Deus guerreiro, figurado com altas plumas e puxando uma corda que descia do céu, tinha dois grandes santuários, Tis e Sebenitcs. Sua célebre lenda foi objecto de adaptações locais. Admitia-se, também, que Onúris era o deus Tot, a divindade sábia; a deusa furiosa que fugira para a Líbia era Hator; o perseguidor era Shu, filho de Ré e a leoa, Tefnut.

OPAS – Nome de uma divindade que foi identificada ao Hefestos grego (Vulcano em latim).
OPET -Deusa adorada especialmente em Tebas e represen­tada com corpo de hipopótamo, erguido sobre as patas traseiras, com grandes seios pendentes. Era o símbolo da maternidade e lactação. Davam-lhe o nome de “A Branca” e “O Harém”. -V. Tuéris.

ORAS -Divindade que foi assimilada ao Febo grego (Apolo).

OSIRIS -Osíris é o mais conhecido dos deuses egípcios. Os gregos o faziam filho de Zeus e de Níobe ou de Cronos e de Réia.
Conforme o mito original, Osiris reinou com Isis sobre o Egito numa fase particularmente feliz; todos viviam satisfeitos, não havia pobreza, nem doenças, nem ódios. O casal real ensi­nava aos súditos as normas fundamentais da civilização, a agri­cultura e muitas outras artes extremamente úteis à vida. Depois Osiris empreendeu longínquas viagens; fez memoráveis conquis­tas e pereceu quando regressou graças às emboscadas de Set (Tifon ou Tifão), seu irmão. Os egípcios, a fim de conservarem a memória dos benefícios que desse principe haviam recebido, outorgaram-lhe honras divinas sob o nome de Serápis, sua grande divindade; e, como Osíris havia ensinado aos homens a agricul­tura, lhe deram o boi por símbolo. Representavam Osíris com uma mitra ou um globo sobre a cabeça, um bastão na mão esquerda e o chicote na direita. Às vezes, em lugar da cabeça humana lhe emprestavam cabeça de gavião. A hera lhe estava consagrada.
Segundo outro mito, Osíris havia encerrado num ovo doze figuras piramidais brancas, a fim de caracterizar os infinitos benefícios que ele desejava atribuir aos homens; mas Tífon (ou Set) abriu o ovo e nele introduziu, secretamente, doze outras pirâmides negras e por esse meio o mal sempre se encontra mis­turado ao bem.
Essencialmente Osíris era o deus da ressurreição humana; no fim da V dinastia, o faraó morto era um Osíris; no começo do Império Médio, todos os mortos são Osíris.
Plutarco deixou-nos uma narrativa acerca de Osíris: Nascido durante os cinco dias complementares -v. Nut -do ano, Osí­ris tornou-se rei do Egito; casou-se com Isis, sua irmã; logo arrancou o povo à vida de privações e de animais selvagens, fazendo com que conhecessem os frutos da terra e os deuses do céu; a seguir percorre a terra para a civilizar. Mas o irmão de Osíris, Set (que Plutarco chama de Tífon ou Tifão), enche-se de inveja ao ver que Osíris é amado por todos. A ele se ligam 72 cúmplices; toma as medidas, secretamente, da estatura de Osíris, e constrói um cofre soberbo, admiravelmente decorado e ordena que o conduzam para a sala onde se realiza um banquete. À vista do cofre todos se admiram; Set (ou Tífon), rindo, pro­mete fazer presente do cofre àquele que nele couber perfeita­mente; todos o experimentam mas não serve a ninguém; enfim Osms entra no cofre e seu corpo cabe perfeitamente nele; no mesmo instante os conjurados se lançam sobre o cofre e o fecham com pregos, cravos e chumbo derretido. A seguir lançam-no no mar (ou no Nilo). Começa, então, a busca de Osíris. Segundo a versão egípcia, Isis e Néftis encontram o cadáver do deus na margem de Nedit, o local da sua morte. Mas, paralelamente ao desenvolvimento tardio do culto das relíquias (cada cidade reli­giosa se gabava de possuir um pedaço do corpo divino), uma lenda mais complexa refere o desmembramento de Osíris por Set: Isis teria encontrado o corpo de seu marido no porto de Biblos e o reconduzira para o Egipto, depois de muitas aventuras. Mas Set, que descobrira o esconderijo onde Isis depositara o corpo do marido, o teria cortado em pedaços e os disseminara por todo o país; recomeçou a busca; cada pedaço encontrado era sepultado no próprio local onde Isis o achara; a ressurreição do deus ora era atribuída a sua mãe Nut, ora à piedade de Ré, que mandara em socorro o deus Tot e seus infalíveis sortilégios, ora a Anúbis. Lendas posteriores referem as lamentações de Isis e de Néftis, os apelos dilaceradores que dirigem ao deus para que retornasse à terra. Isis, por fim, concebe de seu esposo, já defunto, um filho; durante muito tempo esconde este fruto póstumo dos seus amores nos pântanos de Quêmis, a fim de subtraí-lo aos furores de Set; por fim Hora, atingida a idade viril, vinga o pai.
Alguns episódios da lenda osiríaca eram representados anual­mente em Abidos: a saída do deus, sua barca, guiada pelo cão Upuaut, sua morte, enterramento e vingança. Paralelamente a essas evocações dramáticas que se realizavam no meio de grande concurso de povo, havia outras cerimônias secretas, os mistérios, que se efetuavam em salas retiradas dos templos. Essas festivi­dades eram realizadas no quarto mês do ano egípcio, quando as águas da inundação se retiravam; faziam, então, pequenas está­tuas de barro de Osíris e misturavam limo por cima; a seguir, semeavam grãos que logo germinavam e conservavam a figura da estátua: era o Osíris que vegetava. É interessante observar que ainda hoje os egípcios fazem lentilhas germinar em algodão impregnado d’água, em certas festas religiosas.

OZOCOR – Divindade que os egípcios assimilaram ao Héra­cles grego (Hércules).

PAAMILA – Mulher da Tebaida, a quem uma voz sobrena­tural anunciou o nascimento de um herói que um dia deveria fazer a felicidade do Egito. Tratava-se de Os íris, de quem Paa­mila foi ama.
PAAMILES –  Epíteto de Osíris.
PAAMILIAS – Festas que se celebravam em honra de Osí­ris, instituídas em memória da sua ama Paamila.
PACT – Esposa de Ptá no grupo de Mênfis. Era uma divin­dade fellna, com cabeça de leão ou de gato, similar de Bast; usualmente era portadora de males. Algumas vezes era incluída na companhia de Set ou funcionava como seu equivalente na triade.
PALMICIO – Divindade egípcia também chamada Palmites.
PALMITES -Divindade egípcia.
P ANMELES – Nome grego que se dava a Osíris e que signi­fica UAquele Que Vela Sobre Tudo”.

PASSAROS – Os próprios hieróglifos nos dão conta da alta estima que os egípcios dedicavam aos pássaros e aves. Mais de vinte espécies figuram nos signos hieroglíficos; um túmulo do Império Médio, numa frisa, ostenta 29 voláteis, incluindo dois morcegos.

PEIXES – Os peixes eram comuns no Egito; abundavam no Nilo, nos canais, nos profundos paludes e nos lagos costeiros do mar de Faium.
Nas tumbas antigas ou nos quadros de pesca, os peixes apa­recem desenhados ou esculpidos com rara perfeição, e são de vários tipos: enguias, carpas, percas, mormiros, oxirrincos, silu­ros, o perverso fagre de grandes dentes, Uo cão do Nilo”, como diz o felá, e outras variedades mais. Mas um tabu, de origem e data incertas, mas evidentemente milenário, interditava a todo ser sacralizado, rei, sacerdote, morto glorioso, comer peixes; o povo profano, porém, não se privava desse prato, fosse fresco, seco ou salgado. Em determinadas épocas não se podia comer peixe; noutras era mister comê-los assados; uma cidade consi­derava tal peixe tabu, ao passo que outra dele fazia uso regalado. Sabe-se que o mormiro tinha a sua cidade sagrada, Oxirrinco, onde era grandemente venerado; pois um dia houve guerra entre Oxirrinco e a cidade fronteira porque esta comera o seu deus, o mormiro sagrado. A perca estava consagrada a Neit, a enguia ao deus de Heliópolis. Havia a deusa “rainha dos peixes”, o golfi­nho fêmea, protetor de Mendes. Outrora, dizem as lendas, o barbo, o fagre e o oxirrinco partilharam seu sexo com Osíris que fora emasculado pelo cruel Set. Os adoradores do crocodilo afirmavam que os peixes eram rebeldes, votados à morte.

PERINA -Divindade confundida com a Atena grega (Mi­nerva em latim). Essa divindade achava-se sentada. Esse epíteto lhe foi dado em virtude de Perina, bordadora, tê-la, pela primeira vez, representado nessa atitude.

PSICOSTASIA – “pesagem da alma”, palavra grega que se aplica ao ato que é reproduzido em múltiplos exemplares e de maneira às vezes um pouco diversa, no Livro dos Mortos.
Conforme a concepção egípcia, o deus justiceiro está entro­nizado sob um dos seI (em geral é Osíris), cercado de Isis e de Néftis; não raro Ré, o grande juiz, acha-se presente. Diante dele assentam-se os 42 assessores. O morto é introduzido por Anúbis; seu coração é colocado num dos pratos da balança; Maat em outro; Tot fiscaliza a pesagem e anota o resultado numa tabuinha. Durante essa operação que irá decidir da sua sorte, o morto pronuncia a dupla “confissão negativa”; a primeira é geral: “Não cometi injustiças… não maltratei os animais… não blasfemei… não fiz ninguém chorar… M; a segunda, em 42 artigos, dirige-se, sucessivamente, a cada um dos juízes-assessores: “O juiz tal, não cometi injustiças…; ó juiz tal, não matei nin­guém. ..; ó juiz tal, não permaneci surdo às palavras da verda­de…M Junto da balança, uma personagem de pesadelo, “A Devoradora”, aguarda o resultado da pesagem para se lançar sobre ele se o julgamento for desfavorável; caso contrário o de­funto será admitido na região do além. Como se vê, a psicos­tasia egípcia é original; os gregos não a conheceram.

PTA – Deus da cidade de Mênfis, figurado sob forma huma­na, estreitamente encerrado num estojo, como uma múmia no seu féretro.
A teologia local o considera criador do mundo; foi ele quem pôs na terra as formas visíveis, por meio da língua (o verbo criador) e por meio do coração (o pensamento).
O destino histórico de Mênfis fez dele o padroeiro da rea­leza e o regente das festas jubilares.
Tradição muito antiga o considera inventor das técnicas, e os artífices o adoram como seu padroeiro; o sumo-sacerdote de Ptá tinha o título de “Decano dos mestres-artífices”. Os gregos o identificaram com Hefestos.
Com o correr dos séculos, assimilou-se ao deus funerário So­cáris, depois, por intermédio deste, com Osíris; constituiu, então, uma familia divina com a deusa Secmet; o filho desse casal era Nefértum, “O Lótus Perfumado”.

QUEB – A Terra. O mesmo que Seb ou Geb. -V. Sebo

QUEBSNAUF – Um dos espíritos de Amentet. Era a divindade cabeça-de-falcão que zelava o fígado, a bílis e a bexiga.

QUÉFERA – Nome do deus Sol-Nascente da primeira massa d’áp;ua da criação; diariamente renasce no este, depois da via­gem noturna ao inferno. Consideram-no o “Pai dos deuses”, cria­dor universal, que simboliza o nascimento e a ressurreição. O escaravelho era o seu emblema.

QUENSU – Filho de Amon-Ré e de Mut na trindade de Tebas. Era o deus da cura, identificado com a Lua.

QUÉPRI – Q Sol-Levante, representado pelo escaravelho. — V. Quéfera e Escarabeu.

RA -V. Ré.
RAMSEION – V. Ramseum.
RAMSEUM -“O Castelo de Milhões de Anos do Rei Usi­maré-Eleito-De-Ré Que se Uniu Em Tebas, no Domínio De Amon À Oeste De Tebas”, foi simplificado, pelos sábios, com o nome de Ramseum. O historiador grego Diodoro, inexatamente, o chamou de túmulo de Osimt1ndias; Osimândias é deformação grega do nome egípcio Usimaré, prenome de Ramsés II.
Esse belo templo funerário, construido por Ramsés para Amon e para ele mesmo, ainda hoje pode ser visto, ao nordeste dos Colossos de Mêmnon.

RÉ -O deus Ré (Rá nas antigas obras e nas palavras cru­zadas) é o mesmo Sol, realidade visível. Sem dúvida foi adorado desde os tempos mais antigos em todo o Egito. Mas sua metrópole foi Heliópolis (“Cidade do Sol”, Hélios, em grego); nessa cidade tinha o nome de Atum e presidia à grande Enéade. No domínio funerário era o chefe do reino do além, o Grande Juiz dos antigos tempos; mas cedeu, ao menos em parte, seu lugar a Osíris.
Os mitos que se referem a Ré são todos inspirados na sua via­gem diurna pelo céu do Egito; quando ele surge, nas longínquas costas orientais, um coro de cinocéfalos o acolhe com alegria; Ré, então, sobe na Barca do Dia e navega até a tarde; nesse mo­mento muda de condução e se acolhe na Barca da Noite que o conduzirá às regiões do mundo inferior. Essa diária navegação de Ré era assim sintetizada: Ao surgir, criança, Quéfri ou Quépri; homem maduro ao meio-dia, Ré; ancião à tarde, Atum.

REIS-SACERDOTES – Sob Ramsés XI, no fim do Novo Império, o general Herihor tornou-se “o primeiro profeta de Amon” o senhor dos bens do todo-poderoso deus de Tebas. Por volta de 1080 a.C. a dinastia ramésida se extingue e Esmêndis de Tânis funda, no Delta, a XXI dinastia. Mas os descendentes de Herihor fizeram da Tebaida um principado praticamente independente; três desses reis-sacerdotes mandaram escrever seus nomes no cartucho, à moda do faraó. Esses pontífices militares exerceram uma ditadura teocrática; toda decisão, relativa a vivos ou a mortos, era formulada como um oráculo de Amon.

SAUABTIS – Pequenas estatuetas feitas de madeira, de pe­dra, de bronze e de faiança. Eram amuletos mágicos, por sua forma de múmia real; eram de caráter agrícola, pois traziam o alvião ou enxadão.
No Médio Império, quando aparece o uso das estatuetas Sauábtis, era de praxe colocar-se uma no túmulo do falecido. No curso do Novo Império chegavam a empilhar 700 numa única sepultura; não eram, então, substitutos da pessoa, mas escravos.

SEB -Seb ou Geb ou Queb, era o primeiro deus do mundo, consorte de Nut. Pai de Osíris e de Set, de  Isis e de Néftis, con­forme a teologia heliopolitana. Acredita-se que tenha sido o autor do Ovo Celeste.

SECMET – Secmet significa, literalmente, “A Poderosa”.
Era a deusa-leoa que teve santuários em todos os lugares onde o leão costumava beber; mas seu centro principal foi Mênfis, onde a consideravam esposa de Ptá e mãe de Nefértum, o deus-Loto. Representava a manifestação do Olho de Ré cheio de fúria e a destruidora dos inimigos do Sol.
Por meio do rito de “Apaziguar Secmet”, os homens alcan­çavam tomar propícia essa deusa sanguinária, senhora dos men­sageiros da Morte, responsável por todas as epidemias e panzoo­tias. Mas os sacerdotes de Secmet formavam uma das mais antigas corporações de médicos e de veterinários, o que vem comprovar a verdade de que “quem sabe matar, sabe também curar”. Amenófis III multiplicou as imagens da deusa, assentada, no templo de Mut (Carnaque) e no seu santuário funerário.

SEQUET – Divindade da Tríade de Mênfis, encabeçada por Ptá. Consideravam os seus filhos Nefértum e Imotep. Era a deusa do calor ardente ou do fogo.

SERAPEU – O Serapeu de Mênfis continha nas galerias subterrâneas as sepulturas dos touros Apis. Mariette aí encon­trou, em l85G-5l, 24 sarcófagos de basalto ou granito, dos quais os mais pesados atingem 70 toneladas. Uma câmara, murada no ano 30 do reinado de Ramsés, estava intacta, e via-se, ainda, o sinal dos pés do último egípcio que havia deixado o lugar antes de ser ele definitivamente selado.
Sob Ptolomeu I, o velho Serapeu conheceu nova fase e nova atividade; o deus recém-introduzido, Serápis, não só deu seu nome ao ántigo monumento, mas o transformou numa espécie de sana­tório, onde os enfermos vinham em busca de curas milagrosas; /tinha pessoal recluso, voluntariamente, os catoques. O acesso do Serapeu foi ornado com longos dromos de esfinges, e está­tuas de poetas e filósofos gregos foram dispostas em hemiciclo na sua vizinhança.

SERAPIS – Deus introduzido no Egito sob o reinado de Pto­lomeu I e destinado, sem dúvida, por seu criador, a ser divindade comum a gregos e egípcios. Tomou alguns caracteres de Osíris, mas o essencial dos seus atributos é grego; assemelha-se ora a Zeus ora a Asclépios ora a Dioniso. Seu culto espalhou-se de Alexandria (onde o Serapeu era considerado uma das Maravilhas do Mundo) para os países mediterrâneos. O prestígio extraor­dinário do culto de lsis eclipsou, parcialmente, o brilho do de Serápis.
Representavam-no com a cabeça coberta por um alqueire, para figurar a abundância, da qual esse deus, considerado como o Sol, era o pai. Freqüentes vezes era assimilado ao deus Plutão (o Hades grego). Conforme a teologia alexandrina, em Serápis estavam contidos todos os deuses.

SERPENTE – Os nilotas sempre temeram as serpentes, as dos pântanos, as dos campos, as dos desertos. O homem pré­-histórico das margens pantanosas do Nilo temia uma serpente que não picava, mas sufocava a vítima, a temível serpente Pitão (ou Píton).
Nos velhos mitos aparece a serpente de ferro nascida do lótus primordial. As serpentes podiam ser benéficas ou nocivas. Todas, mais ou menos divinas. As serpentes das areias, da terra e da lama eram fundamentalmente benfazejas; mas havia aquela longa serpente que deslizava pelos campos húmidos ou pelos brejos e que, estando colérica, tomava a forma dilatada da uraeus, a ainda hoje famosa naja; perigosas eram as víboras, que emer­giam silenciosamente das areias ardentes: a víbora carenada, a víbora de cauda negra e a famosa cerasta cornuda (o hieróglifo te). Todos os curadores conheciam de cor o repertório das fór­mulas conjuratórias relativas ao “veneno de toda serpente, macho ou fêmea.. de todo escorpião, de todo réptil capaz de picar…” A boa senhora-cobra, Renutet, padroeira do celeiro, recebe do felá as primícias do campo, pois vigia o crescimento das plantas. Com o advento do Cristianismo, Renutet transforma-se em santa Termútis, ama presumida de Moisés.
Nas rochas tebanas, Merseger, “A Amiga do Silêncio”, amada do bom povo de Deir el-Medinet, protege a necrópole.
O Destino era uma serpente, fosse ele bom ou mau.
O folclore egipcio está cheio de avatares ofídicos.

SET -Set foi identificado com Tífon pelos gregos.
O porco, o asno, o hipopótamo e o órix do deserto procedem de Set. O próprio deus encarnou-se numa espécie animal fan­tástica, misto de porco, asno, girafa, cão e ocápi.
Lendo-se Plutarco chega-se à conclusão de que Set era o Mal. De facto, o deus “vermelho” jamais foi uma criatura bon­dosa e cheia de carinhos; mas é ele, não obstante, que com a lança fere o horrível Apópis. Os reis hicsos, estabelecidos em Aváris, cidade de Set, o tomaram por Baal; os Tutmósidas guer­reiros comparavam-se a Set. Houve urna época em que Set patrocinava a produção dos oásis. Mas o crescente favor popular em relação a Osíris pôs fim a essa honorável carreira; ele se transformou, e para sempre, num feroz demônio.

SHU – Shu e Tefnu, filhos do demiurgo, constituem o pri­meiro par da Enéade heliopolitana. Representa a Atmosfera. Sustenta, com o braço erguido a cúpula celeste acima da terra, separando Geb (a Terra) da sua esposa (Nut, o Céu); é a perso­nificação teológica do sopro luminoso que anima as criaturas ter­restres.
O sincretismo religioso o confunde com Consu, Tot, Onúris e Cnum.

SIGALION – Divindade egípcia que foi confundida com o Harpócrates grego, deus do silêncio.
Harpócrates é de origem egípcia, filho de Isis e de Osíris. Alguns o confundem com Horo.

SOBEC – Divindade-crocodilo. — V. Crocodilo.
SOCARIS – Divindade egípcia.
SUCO – Crocodilo domesticado que era honrado com culto religioso em Arsínoe, cidade do Egipto.

TALAMOS – Nome de dois templos que o touro Apis tinha em Mênfis.
TEFNUT – Deusa-leoa, irmã e esposa de Shu. Era mãe de Seb (a Terra) e de Nut (o Céu).
TEIR – Divindade egípcia que foi assimilada ao Hermes (Mercúrio) grego.
TELETAS – Ritos solenes que se celebravam em honra de Ísis.
TERMúTIS -Isis considerada como a deusa vingadora dos crimes.
TEUTATES – Divindade confundida com Anúbis. Davam­-lhe, também, o nome de Tuis. – V. Tot.
TIQUES – Segundo deus doméstico dos egípcios.

TIQUIS – O mesmo que Tiques, um dos quatro Lares dos egípcios.

TITRAMBO -Divindade egípcia que foi confundida com Hécate. O nome significa” Aquela Que Inspira Furor”. Convém não esquecer que o culto de Hécate, a deusa tri­forme, originou-se no Egito, e, conforme a tradição, foi levado à Grécia por Orfeu.

TOT -Deus-lunar com forma de íbis. Era adorado em todo o Egipto, mas em Hermópolis recebia culto especial. Contudo, quando fez sua aparição nessa cidade, já ela con­tava com uma bela fauna divina: a lebre sagrada, oito deuses­-rãs, serpentes e um babuíno. Mas Tot rapidamente se instalou e mais rapidamente ainda se livrou dos incômodos vizinhos: a lebre permaneceu apenas no nome do nomo; as oito divindades­-rãs transformaram-se na Ogdoade dos primeiros tempos; as serpentes dispersaram-se; o babuíno foi obrigado a conviver com aíbis para poder encarnar a forma material de Tot. Parece que Tot reinava sobre tudo que comportasse operação intelectual: a criação da linguagem escrita, separação das linguas, confecção de anais e de leis; era o padroeiro dos escribas. Era o deus que contava, media e calculava, não só o tempo e as divisões tem­porais, mas também os números como entidades científicas; era, portanto, o padroeiro dos matemáticos. Nos mitos aparece, sempre, como o diligente secretário dos deuses, o assessor indis­pensável a toda ação divina. Por conta das suas habilidades em hieróglifos e em números, tornou-se o mais reputado mágico do Egito; não é por menos que os teólogos de Mênfis o consideravam a língua de Ptá, isto é, a expressão verbal pela qual o deus dá existência ao Universo. Em outros textos aparece como o cora­ção de Ré, isto é, a essência do pensamento criador.
A biblioteca de Hermópolis, sua cidade, era célebre: dizia-se que lá havia criptas secretas onde estavam guardados rolos escri­tos pela própria mão do deus.
Os gregos o assimilaram a Hermes (Mercúrio); sob o nome de Trismegisto teve papel importantíssimo na chamada “litera­tura hermética”; na verdade, as idéias expendidas através desses livros são mediterrâneas, e resultam mais do sincretismo reli­gioso alexandrino que das velhas crenças egípcias; Tot apenas emprestou-lhes o nome.

TRIADE -Agrupamento secundário de um esquema inva­riável (pai, mãe e filho) de uma divindade de determinada cidade; os elementos da Tríade, em geral, anteriormente, existiam separados. Em Tebas havia a Trfade composta de Amon, Mut e Consu, em Mênfis a de Ptá, Secmet e Nefértum, e em Edfu a de Horo, Hator e Harsomtus…

TRISMEGISTO – Nome do Hermes (Mercúrio) grego con­fundido com Tot. A palavra grega significa “Aquele Que É Três Vezes Grande”. Trismegisto era o conselheiro de Osíris. Atri­bui-se-lhe a invenção de infinidade de coisas úteis à vida.
Um outro Hermes traduziu as obras do acima referido sobre medicina, astrologia e teologia egípcias.

TUAT – As doze regiões do reino dos mortos, através das quais a “barca de um milhão de anos” de Ré todas as noites navegava; eram gargantas ou muros guardados por serpentes. Cada uma dessas regiões correspondia a uma hora das 12 que formavam a noite; em cada uma dessas horas (ou regiões) pro­cessavam-se provas especiais com julgamento e os demônios eram impedidos de passar. Às vezes tem o nome de Duat.

TUÉRIS – A grande deusa-hipopótamo. Era adorada sob a designação de “A Grande”; assistia às mães em trabalho de parto, quer fossem de deuses, de reis ou de simples mortais. Figuravam-na erguida sobre as patas trazeiras, com longos seios pendentes, um chapéu redondo na cabeça e apoiada no nó mágico.

UATCHET -Deusa-padroeira do Baixo Egito e do Delta. Era irmã de Necbet. Enquanto 1sis buscava Osíris, ela tomou conta do pequeno Horo e dele cuidou com carinho.

UBASTET -V. Bastet.

UCOREU -Rei do Egito, pai de Mênfis.

URAEUS -Uraeus é forma grecizada do termo egípcio uraios, que significa “basilisco”, através do latim. Designa a deusa de diversos nomes que, personificando o Olho ardente de Ré e simbolizando a natureza ígnea das coroas, tomava o aspecto de uma serpente fêmea ardendo de furor. A uraeus, com o pescoço dilatado, figurava na fronte do faraó; aparecia nos frisos dos templos, e nos hipogeus reais cuspia fogo contra os inimigos.

VACA – Se o boi ou o touro gozava de grande prestígio no Egipto antigo, maior ainda era o da vaca. Imolavam-se bois, jamais uma vaca leiteira. Era, com efeito, como vaca leiteira e como mãe, mãe celeste do Sol, “Jovem bezerro de boca pura”, e também como esposa do Sol, “O touro de sua própria mãe”, que os egípcios a adoravam.
Fosse Hator ou qualquer outra divindade, era sempre a vaca­-céu, guarda do mundo dos mortos e alimentadora do faraó.
Os deuses que tomavam forma de touro (Montu, Min, Amon etc.) e os touros nos quais os deuses se encarnavam (Apis, Mné­vis, Búquis etc.), tinham também suas vacas sagradas, sobre as quais afirmavam o caráter de procriado~s universais.

VESTES – O egípcio jamais se vestia de lã, já porque era considerada desprezível, já por causa do clima. Vestiam-se todos de linho. Os homens do povo costumavam usar apenas uma tanga.
As mulheres variavam muito no trajar; as deusas, porém, apareciam sempre trajadas da mesma maneira: vestido justo mantido sob o peito por duas fitas ou correias, muito largas.
Em geral os deuses masculinos aparecem muito sumaria­mente vestidos, bem como o homem do povo, que se contentava com um calção ou com uma tanga.

VINHO – A videira sempre foi objecto de cultura particular no Egipto. A vinha, em egípcio era krm; o vinho, erpi. Segundo o mito, os bagos de uva nasceram dos olhos de Horo. No Egipto todos bebiam vinho, desde o mais humilde lavrador até o faraó e os deuses.
(Fonte:”Dicionario de mitologia”, de Tassilo Orpheu Spalding)

 

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