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…….. . WICCA HISTÓRIA DA BRUXARIA Quando iniciamos o estudo de algo que nos é novo, a
primeira pergunta que nos vem Portanto, nada mais correto do que usar a história da Arte como
ponto de partida. Wicca é uma palavra do inglês arcaico que quer dizer
"bruxo" (plural wicce). Há quem diga que seu significado é
"sábio", mas isso não corresponde à verdade. A palavra tem sua origem na raiz indo-européia 'wikk-',
significando 'magia', 'feitiçaria'. O nome Wicca é o mais usado para
denominar nossa religião. Ela também é conhecida como Bruxaria, Feitiçaria,
Antiga Religião e Arte dos Sábios, ou simplesmente, a Arte. As origens da Bruxaria remontam à aurora da humanidade. Nossas
crenças começaram a tomar forma no Paleolítico, há aproximadamente vinte e
cinco mil anos. Neste período, o ser humano era nômade e suas principais
fontes de subsistência eram a caça e a coleta. Tudo era misterioso para o
homem e a mulher do paleolítico: o trovão, o sol, a escuridão... Para eles, o
mundo era um lugar perigoso, cheio de forças que deveriam ser temidas,
respeitadas e reverenciadas. Com o tempo, a idéia das forças foi evoluindo
para a idéia de Deuses. Um dos primeiros e, seguramente, o mais importante Deus
primitivo a surgir foi o Deus de Chifres. Para que o clã nômade sobrevivesse, uma das principais
atividades era a caça: dela provinham carne para alimentar-se, peles para
vestir-se, ossos e chifres para fazer instrumentos. Assim, tomou forma na
mente do ser humano primitivo a idéia de um Deus das Caçadas, dotado de
chifres, símbolo de seu poder. Alguns membros do clã iniciaram a prática de
atividades de caráter mágico-religioso, compostos por um elemento religioso
(esboços de rituais e mitos dedicados à adoração do Deus de Chifres, forças
da natureza e espíritos dos antepassados) e por um elemento mágico (práticas
que tentavam atrair a benevolência destas divindades e espíritos, a fim de
manipulá-la para interesses práticos do clã). Neste momento estava se
delineando algo que se assemelhava muito a grosso modo com um a classe
sacerdotal. Estes ‘sacerdotes’ realizavam ritos do que hoje é denominado maga
simpática, ou seja, práticas baseada na atração dos semelhantes. Pintavam-se
cenas de membros do clã vencendo e abatendo animais cobiçados, para garantir
o sucesso da próxima caçada. Miniaturas destes mesmos animais eram
confeccionadas, em osso, chifre ou barro, e então simulava-se sua caça e
abate. Estes ritos eram geralmente dirigidos por um destes 'sacerdotes',
geralmente usando a primeira de todas as túnicas: peles de animais e uma
máscara dotada de chifres. Em Trois Frères, na França, existe uma pintura de doze mil anos,
conhecida como "Le Sorcier" ("O Feiticeiro"). É a figura
de um homem vestido de peles, com cauda e chifres de cervo. A sua volta,
paredes cobertas por pinturas de animais em caçadas. A seus pés, uma
saliência na rocha, constituindo um altar. Mas as caçadas não eram a única
coisa que faziam o clã sobreviver. Havia um Mistério: o da fertilidade. O clã
precisava continuar. De tempos em tempos, a barriga das mulheres crescia, e,
ao fim de algumas luas, delas surgia um novo membro da tribo, pequeno, mas
que crescia com o passar do tempo. Os animais também tinham filhotes, e isso
garantia o alimento das futuras gerações. A chave de todo esse Mistério era a
mulher, aquele enigmático ser que, se já não bastasse ser a única responsável
pela continuação da tribo (ainda não havia a consciência da participação do
homem na reprodução), também alimentava as crianças com leite de seu próprio
corpo. Além disso, aquela criatura mágica vertia sangue de dentro de seu
corpo em algumas ocasiões, mas mesmo assim não morria. Todas estas constatações deram origem ao surgimento de uma Deusa
da Fertilidade, uma Grande Mãe. Figuras pré-históricas desta Deusa são incontáveis. Uma das mais
famosas é a Vênus de Willendorf: seu corpo parece uma grande massa disforme
da qual se destacam um gigantesco par de seios e uma proeminente barriga
grávida. Ela não tem pés nem braços, e seu rosto está coberto. Estas
características são comuns a várias outras 'Vênus' pré-históricas, e se devem
à ênfase que o ser humano primitivo dava ao aspecto de fertilidade da mulher. A Deusa era a Grande Mãe Natureza, fonte de toda a vida. Com o
tempo, os homens foram se conscientizando de seu papel na reprodução, e o
aspecto de fertilizador passou a ser mais um dos atributos do Deus de
Chifres. Ele tornou-se filho da Deusa, pois dela era nascido, e também seu
amante, pois a fertilizava para que um novo ser surgisse. A partir desta
concepção, novos ritos foram adicionados às práticas mágico-religiosas, onde
esculpiam-se ou pintavam-se animais ou humanos copulando, e todo o clã
entregava-se ao ato sexual, já tendo recebido a graça dos Deuses. No Neolítico, o ser humano desenvolveu a agricultura, e começou
a formar aldeias e povoados. Com a descoberta das técnicas de plantio, a
Deusa assumiu maior importância, passando a acumular também o aspecto de guardiã
da colheita. O Deus de Chifres começou a ganhar uma nova face, a de alegre
Deus das Florestas, protetor dos animais e criaturas dos bosques. Quando o
homem adquiriu a noção das estações do ano, esboçaram-se as primeiras idéias
sobre a Roda do Ano. Havia um período quente e fértil, onde realizavam-se as
colheitas e a natureza mostrava todo seu esplendor. As culturas desenvolveram-se com o passar dos séculos, e novos
aspectos dos Deuses foram descobertos. Cultos religiosos se estruturaram,
centrados nos ciclos e nascimento, morte e renascimento da natureza. O tempo
da plantação e o tempo da colheita eram muito importantes, marcados com
festividades, assim como o período do recolhimento do gado e a época de sua
liberação ao pasto. Nestas datas, juntamente com as de mudanças de estação,
realizavam-se encenações de mitos nos quais um Deus Velho morria para um Deus
Jovem nascer, representando a morte da antiga colheita e o nascimento de uma
nova. Estes cultos possibilitaram o refinamento da classe sacerdotal,
que chegou ao requinte de gerar representantes como os druidas, sacerdotes
celtas que encantaram os gregos e romanos com sua profunda filosofia e
integração com a natureza. Sua erudição era admirável, e acumulavam funções
como a de legisladores, médicos, poetas, bardos e guardiões da tradição oral.
Na Grécia Antiga, floresceram os Cultos de Mistério, dos quais deve
destacar-se os Ritos de Elêusis e os Mistérios Órficos. Também foram de
grande importância os cultos dionisíacos. Deve-se ter em mente que estas são
linhas gerais do início da bruxaria, que confunde-se com o surgimento das
primeiras manifestações religiosas humanas. O que relatei acima aconteceu, em épocas diferentes, nos mais
variados lugares. É verdade que nem tudo ocorreu exatamente da mesma maneira
em todos os lugares: enquanto no Crescente Fértil da Mesopotâmia nasciam
avançadas civilizações, na Europa ainda vivia-se de caça e coleta. Mas o que
impressiona e é importante não são as diferenças, e sim as semelhanças dos
primeiros esboços de religião. Meu objetivo, com a pequena exposição acima,
foi dar ao estudante noções de como foi o surgimento da idéia dos Deuses e
seu desenvolvimento. O
Surgimento do Cristianismo Ao contrário do que se pensa, o cristianismo não foi
imediatamente adotado pelo povo europeu ao ser declarado religião oficial do
Império Romano. Esta conversão dos Romanos ao catolicismo teve motivos
políticos, e não teve grande penetração fora dos centros urbanos. A grande
massa da população permaneceu fiel a seus deuses antigos. Os cultos antigos,
então, receberam a denominação pejorativa de "pagãos"
("pagani",plural de paganu, 'morador do campo'), por ter como foco
de resistência à nova religião o povo dos campos, longe das cidades e das
zonas de comércio e ensino. Os missionários cristãos, com o tempo, passaram a ter mais
aceitação nas cidades, mas continuavam sendo repelidos no campo, nas
montanhas e nas regiões distantes, verdadeiros enclaves da Antiga Religião.
Houve ainda uma tentativa de reativar o paganismo e o culto aos Deuses
antigos como religião oficial do Império Romano. Um dos ardis utilizados pelos cristãos era o de apropriar-se de
festividades pagãs como orações religiosas de sua própria religião. Assim, por exemplo, o festival do solstício de inverno, onde se
comemorava o nascimento do Deus-Sol, transformou-se no Natal cristão. Também o festival de Samhain, comemorado em intenção dos mortos,
recebeu o nome de Dia de Todos os Santos, logo seguido pelo dia de Finados. A despeito destas tentativas, as tradições pagãs continuaram
mantendo sua força. A partir de um decreto do Papa Gregório, os cristãos
também se apossaram dos locais sagrados da Antiga Religião e, derrubando os
templos ali existentes, erigiram suas igrejas. Os Deuses de cada santuário
foram transformados em santos e santas (um exemplo é Santa Brígida, da
Irlanda, na verdade a Deusa Bhríd, protetora do fogo e dos partos). Quando os cristãos deram-se conta da importância da Deusa-Mãe
para as pessoas, aumentaram a proeminência da Virgem Maria no culto cristão. Mitos e práticas pagãs foram, sistematicamente, absorvidas,
distorcidas e transformadas em ritos cristãos. Esculturas de temas pagãos
foram incluídos em igrejas e capelas. O maior exemplo de sincretismo entre costumes pagãos e cristãos
é o cristianismo irlandês, que ainda hoje conserva hábitos célticos mesclados
a liturgias cristãs. Os padres tinham a seu favor o tempo, o poder e a força.
Os pagãos tinham que lutar sozinhos contra a profanação de seus templos,
crenças e costumes. Desta maneira, o povo simples dos campos foi
acostumando-se à nova religião, e gradualmente, foi sendo convertido. Mas os
sacerdotes restantes da Antiga Religião não se renderam à nova ordem.
Juntamente com pessoas ainda fiéis às antigas crenças, mantiveram o culto ao
Deus de Chifres e à Deusa Mãe. As crenças pagãs, enfatizando a adoração aos Deuses e a
realização dos festivais de fertilidade, foram amalgamando-se à magia
popular, criando a Bruxaria Européia. A magia popular consistia em um
conjunto de feitiços feitos com o uso de ervas, bonecos e diversos outros
meios. Estes feitiços tinham como objetivo a cura, a boa sorte, atrair amores,
e fins menos nobres, como a morte de algum inimigo. São práticas
desenvolvidas a partir do que restara da magia simpática pré-histórica,
unidas ao conhecimento xamânico dos povos bárbaros. Os teólogos cristãos passaram então a sustentar que a Bruxaria não
existia. Assim, pretendiam terminar com a credibilidade dos bruxos e anular
sua influência. Foi um período de relativa paz para a Arte. Mas logo os
cristãos perceberam que seus esforços para exterminar completamente o
paganismo não haviam dado resultado. Fizeram então mais uma tentativa: transformaram o Deus de
Chifres na personificação do Mal, do Antideus, do Inimigo. A natureza dos Deuses pagãos é completamente diferente da do
todo-poderoso “senhor de bondade” dos cristãos. Nossos Deuses são quase “humanos”, pois têm características
tanto ‘boas’ quanto ‘más’. A teologia cristã já pressupunha a existência de
um antagonista a seu Jeová (o ‘Satan’ hebraico do Antigo Testamento e o
‘diabolos’ do Novo): um Inimigo. Ele ainda não possuía forma definida e, quando era representado,
o era em forma de serpente, como a que persuadiu Adão a comer a fruta da
Árvore da Sabedoria. Dando a seu Satã a forma do Deus de Chifres (notadamente
de deuses agro-pastoris como Pã e Sileno, dotados de cascos de bode e
pequenos cornos), os cristãos conseguiram iniciar um clima de terror e medo
em relação aos praticantes da Antiga Religião, o que os forçou a praticarem
seus ritos em segredo. Mas a era mais triste da Arte ainda estava por vir. A Era das
Fogueiras. A situação da Igreja até ao século XIII era caótica. Facções
adversárias lutavam entre si, cada uma digladiando-se em favor de um dogma.
Nos numerosos concílios realizados, ora, uma das facções impunham sua visão,
ora outra. Isso favorecia um desmoralizante 'entra-e-sai' de dogmas, o que
desacreditava a Igreja. Algumas destas facções também criticavam a corrupção
e o jogo de poder dentro da classe sacerdotal, e levantavam dúvidas sobre o
poder espiritual do papado. Foi então criado um instrumento de repressão: o Tribunal de
Santa Inquisição consistia em um corpo investigatório ignorante, brutal e
preconceituoso, dirigido pela ordem dos Dominicanos. Sua função primordial era a de acabar com as facções que se
opunham a Igreja (denominadas 'heréticas'), através do extermínio sistemático
de seus membros. Exemplos destas facções 'heréticas' eram os cátaros, os
gnósticos e os templários. Com o tempo, os cristãos perceberam outro uso para
seu Tribunal. Ainda persistiam Cultos aos Deuses Antigos, e, graças a
transformação do Deus de Chifres no Demônio Cristãos, eram acusados de
delitos absurdos, como o canibalismo, a destruição de lavouras (acusar de tal
crime uma Religião dedicada à manutenção da fertilidade das colheitas é, no
mínimo, ridículo) e muitos outros. Foi então proclamada, em 1484, a Bula
contra os Bruxos, pelo Papa Inocêncio VIII. Neste documento, ele relacionava os crimes atribuídos aos bruxos
e dava plenos poderes à Inquisição para prender, torturar e punir todos
aqueles que fossem suspeitos do 'crime de feitiçaria'. Em 1486 foi publicado o Malleus Malleficarum ('Martelo dos
Feiticeiros'), escrito pelos dominicanos Kramer e Sprenger. O livro, absurdo e miseógino, era um manual de reconhecimento e
caça aos bruxos, e, principalmente, às bruxas (o livro trazia afirmações surpreendentes,
como: "quando uma mulher pensa sozinha, pensa em malefícios"). A
partir daí, a Igreja abandonou completamente a postura de ignorar a Bruxaria:
pelo contrário, não acreditar na sua existência era considerada a maior das
heresias. Iniciou-se então um período de duzentos anos de terror, conhecido
entre os bruxos como "Era das Fogueiras". Mas os bruxos (e também os hereges e inocentes: doentes mentais,
homossexuais, pessoas invejadas por poderosos, mulheres velhas e/ou
solitárias) não pereciam só em fogueiras: eram também enforcados e esmagados
sob pedras. Isso quando não pereciam nas torturas, as quais são tão cruéis e
sádicas que não merecem nem ser mencionadas. A maioria das vítimas dos tribunais de Inquisição não eram
verdadeiros praticantes da Arte, mas muitos bruxos pereceram na mão dos
cristãos. Aproximadamente nove milhões de crimes como este foram cometidos
durante a Inquisição, ironicamente em nome de uma religião que se dizia 'de
amor'. Nunca uma religião demonstrou tanta necessidade de exterminar seus
antagonistas como o cristianismo. A perseguição aos bruxos não resumiu-se apenas ao países
católicos: espalhou-se pela Europa protestante. Os protestantes não se guiavam pelo Malleus Malleficarum, mas
davam razão à sua paranóia através do uso de uma citação do Antigo
Testamento: "não deixarás que nenhum bruxo viva". Na Era das Fogueiras, os praticantes da Antiga Religião adotaram
o único comportamento que lhes possibilitaria a sobrevivência: "foram
para o subterrâneo", ou seja, mantiveram o máximo de discrição e segredo
possível. A sabedoria pagã só era passada por tradição oral, e somente
entre membros da mesma família ou vizinhos da mesma aldeia. Como técnica de proteção, os próprios bruxos ajudaram a
desacreditar sua imagem, sustentando que a Bruxaria não passava de lenda, ou
disseminando idéias de bruxos como figuras cômicas e caricatas, dignas de
pena e riso. Por volta do final do século XVII, a perseguição aos bruxos foi
diminuindo gradativamente, estando virtualmente extinta no século XVIII. A
Bruxaria parecia, finalmente, ter morrido. Mas os grupos de bruxos ("covens") resistiam,
escondidos nas sombras. Algo que surgiu nos primórdios da humanidade não
morreria assim tão facilmente. O Renascer
da Bruxaria.
Em 1862, Jules Michelet lançou sua obra "A
Feiticeira", na qual falou sobre a sobrevivência dos cultos pagãos nas
Idades Média e Moderna e sobre o surgimento paralelo do satanismo. Apesar de
importante, as principais intenções de seu livro eram políticas: pretendia
provar que a Bruxaria era um culto surgido nas camadas inferiores da
sociedade em protesto à repressão da classe dominante. Isso pode ser verdadeiro para o satanismo, mas não corresponde à
realidade quando se trata de Bruxaria. Mas isso não diminui a importância de
seu livro: sua tese da sobrevivência dos cultos pagãos influenciou o trabalho
de vários antropólogos e folcloristas do final do século XIX e do início do
século XX. Um deles foi o norte-americano Charles Leland, um folclorista
conhecido na época por suas pesquisas sobre cultura cigana. Em 1899, Leland lançou um livro intitulado "Aradia, ou o
Evangelho das Bruxas". Foi a primeira obra de grande importância para o
renascimento da Bruxaria no século XX. Neste livro, Leland registrava as
crenças reunidas por uma bruxa toscana chamada Maddalena, que ele conhecera
em uma viagem pela Itália no ano de 1866. O livro fala da vecchia religione praticada naquela
região: o culto à Deusa Aradia, filha de Diana com seu irmão Lúcifer. Aradia
foi la prima strega ('a primeira
bruxa'), enviada à Terra por sua mãe para ensinar as artes da feitiçaria aos
humanos. A idoneidade do livro é contestada atualmente por alguns
historiadores da feitiçaria, que argumentam que Leland dirigiu sua pesquisa
para enquadrar-se em suas concepções e nas idéias de Michelet. Outros dizem
ainda que Maddalena traiu a boa fé do folclorista. O fato é que nada disto
tira o mérito do livro, um clássico da Bruxaria moderna. A década de 20 produziu dois importantes livros para a Bruxaria
moderna: um deles foi "O Ramo de Ouro" ('The Golden 'Bough'),
gigantesca obra do antropólogo James Frazer, versando sobre rituais de
fertilidade. As idéias que expôs em sua obra, juntamente com o conhecimento
passado por Leland em 'Aradia' levaram a antropóloga Margaret Murray a lançar
seu importante livro "O Culto de Bruxaria na Europa Ocidental"
('The Witch-Cult in Western Europe'), em 1921. Nele Murray sustentava que a
Bruxaria era uma antiqüíssima religião organizada, presente em toda a Europa,
baseada no culto a um deus chifrudo da fertilidade, que ela denominou de
Dianus (ela falou mais sobre ele em seu livro 'The God of the Witches'). De
acordo com ela, essa religião havia sobrevivido à perseguição e continuava
com suas práticas, de maneira oculta. Muitas críticas já foram feitas à
Murray, e a maioria se baseou na fraqueza de alguns de seus argumentos para
defender a suposta 'organização' dessa religião. Hoje sabemos que ela não era tão organizada nem praticada em
tantos lugares quanto Murray sustentava, mas indubitavelmente existia um
culto pagão, praticado de formas diferentes em lugares diferentes, que
sobreviveu à perseguição. Em 1948 Robert Graves escreveu sua excelente obra "A Deusa
Branca" ('The White Goddess'), no qual concordava com Murray quanto à
existência de um culto pagão disseminado pela Europa, mas apoiava a tese de
que sua divindade mais importante era uma Deusa-Mãe, e não o Deus de Chifres.
Três anos depois, em 1951, caíram as últimas leis anti-feitiçaria da
Inglaterra. Admirador de Frazer e Murray, realizava profundas pesquisas
sobre os cultos de fertilidade pré-cristãos e sua sobrevivência. No decorrer
destas pesquisas, em 1939, conheceu um grupo de pessoas que mais tarde
descobriu fazerem parte de um Coven secreto (como o eram todos, na época). Gardner ficou fascinado: a existência destes bruxos confirmava
as teses de Margaret Murray. Estabeleceu uma relação de amizade profunda com
os membros deste Coven (denominado Coven de New Forest), e acabou por receber
Iniciação. O Coven de New Forest, dirigido por uma bruxa conhecida por 'Old
Dorothy', era representante de uma tradição que havia sobrevivido às
perseguições. Há quem insinue que Gardner inventou o Coven para dar bases à
seu trabalho posterior, e que Old Dorothy nem ao menos existiu. Essas
declarações foram brilhantemente refutadas com evidências históricas por
Doreen Valiente, no ensaio "Em Busca de Old Dorothy", publicado no
livro 'The Witches' Way"('O Caminho dos Bruxos'), do casal Janet e
Stewart Farrar. Com o passar do tempo, Gardner preocupou-se com o futuro da
Tradição, pois todos os membros do Coven eram idosos, e não havia previsão de
aceitar novos iniciados. Ele não aceitou esse destino, e pediu permissão para
publicar algumas práticas da religião. Relutantes, os Sábios do Coven
negaram. Mesmo assim, Gardner publicou, em 1948, "High Magic's
Aid", um romance no qual descrevia, sutilmente, alguns rituais da Arte.
A publicação do livro causou polêmica entre o Coven de New Forest, e Gardner
quase foi banido. Mas, com a queda das leis anti-feitiçaria, os Sábios do
Coven reviram sua posição e deram permissão a Gardner para afirmar que a
Bruxaria estava viva, desde que não revelasse nenhum segredo. Então, em 1954, Gerald Gardner publicou o primeiro livro da
Bruxaria Moderna: "Witchcraft Today", seguido de "The Meaning
of Witchcraft"(1959). Neles, Gardner afirmava estarem certas as teorias
de Murray, pois ele mesmo era um bruxo iniciado. Os livros falavam apenas superficialmente sobre a Tradição que
lhe havia sido confiada, concentrando-se mais no aspecto histórico da
religião. Paralelamente à publicação dos livros, Gardner saiu do Coven de New
Forest e iniciou seu próprio Coven, iniciando pessoas que lhe pareciam
sinceras e dedicadas. A essas pessoas, transmitia integralmente o conteúdo de
um manuscrito, por ele denominado de "Livro das Sombras". Este
livro continha integralmente a Tradição do Coven de
New Forest, mesclada a práticas mágicas retiradas da Clavícula de Salomão e
dos escritos de Crowley. Seu conteúdo, copiado por todo iniciado, passou a
ser denominado de Tradição Gardneriana, a primeira Tradição da Bruxaria
Moderna. O 'Livro das Sombras' Gardneriano teve três versões, conhecidas
pelas letras A, B e C. O texto que é utilizado atualmente pelos Covens
Gardnerianos é o C, escrito por Gardner em conjunto com uma de suas
iniciadas, Doreen Valiente, responsável por grandes mudanças no texto
original. Valiente "paganizou" ao máximo os ritos e textos,
retirando qualquer influência de magia judaico-cristã ou textos escritos por
Crowley. Atualmente, a Gardneriana é a mais sigilosa de todas as
Tradições modernas. Gardner morreu em 1964, e o comando de seus Covens foi
passado à Monique Wilson, conhecida como Lady Olwen. Na década de 60, surgiu outro personagem importante na história
moderna da Arte: Alex Sanders, que recebeu o título de "Rei dos
Bruxos". Sanders era um grande interessado em bruxaria, que nunca havia
conseguido ingressar em um dos Covens Gardnerianos. De algum modo que até hoje não está bem esclarecido, conseguiu
tomar posse de um 'Livro das Sombras' Gardneriano. Uniu o conhecimento do
livro (provavelmente cópia do texto A) ao que afirmava ter sido transmitido
por sua avó, uma bruxa familiar. Sanders possuía um
temperamento completamente antagônico ao de Gardner. Era um especialista em
marketing pessoal, o que lhe deu extrema notoriedade. Milhares de pessoas
foram iniciadas em seus Covens, e ele aparecia em entrevistas em TV, rádio e
jornais. Era tão público que foi ameaçado de maldição por bruxos mais
tradicionais, temendo que ele revelasse algum grande segredo da Arte. Mas
isto nunca ocorreu: Sanders era um "show-man", mas não era burro. A Tradição Alexandriana, fundada por Alex Sanders, é muito semelhante
à Gardneriana. Sua principal diferença é a maior ênfase mágico-cabalística,
quase inexistente na Tradição de Gardner. Sanders morreu em 1988, mas sua
Tradição é uma das mais difundidas no mundo. Existe também uma Tradição moderna denominada Alexandriana-Gardneriana
(Al-Gard), que tenta conciliar os ensinamentos de ambas, com a inclusão de
novos elementos, em sua maioria de origem céltica. Os maiores representantes públicos atuais da Al-Gard são Janet e
Stewart Farrar, da Irlanda. Nos EUA, o primeiro bruxo a se manifestar publicamente foi o
anglo-gitano Raymond Buckland, iniciado por Gardner e Lady Olwen. Considerado pelo próprio Gardner um de seus herdeiros, Buckland
migrou para os Estados Unidos logo após a morte do bruxo. Lá, ganhou
notoriedade por seus livros sobre Ocultismo e por ser o fundador da Tradição
Saxônica da Bruxaria, a Seax-Wica. Nos Estados Unidos, com raras exceções, a Arte ganhou um novo
aspecto, inexistente na Bruxaria Européia: o aspecto político. A Bruxaria
uniu-se ao feminismo para gerar uma nova forma da Religião. Surgiram então
Covens denominados "Diânicos", formados só por bruxas. Algumas das representantes da Bruxaria feminista americana são
Starwahk, Zsuzsana Budapest e Laurie Cabot. Com exceção da primeira, nenhuma
delas é levada muito a sério pelos bruxos tradicionalistas europeus, que
julgam-nas produtoras de distorções no verdadeiro espírito da Arte. (Artigo originalmente escrito para instrução reservada de
alunos. (...)A reprodução por qualquer meio é livre (...): 1993, Daniel
Pellizzari.) Ir para Wicca
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