O uso dos craneos na bruxaria

Crânios na Bruxaria

Portal a&eO uso dos craneos na bruxaria

 

Livro: “Enciclopédia de Wicca e Bruxaria”
Autor: Raven Grimassi
“O Crânio é um símbolo de sabedoria e conhecimento guardado. Nos mistérios internos dos ensinamentos o crânio é um símbolo da natureza interna despojada de sua origem através do processo de Iniciação nos grandes Mistérios do Ocultismo. Ele também é um símbolo da morte, seja a morte da carne ou a morte do ego/ de si mesmo. Esta é uma razão pela qual o crânio aparece nas cerimônias de iniciação na Antiga Religião. Aqui, ele é um lembrete de que a antiga personalidade estava morrendo para uma nova consciência.

O crânio, particularmente quando mostrado com os ossos cruzados, também é um símbolo do Deus em antigas religiões Pagãs. Os ossos cruzados abaixo do crânio são símbolos do Deus Sacrificado, e um sinal da ressurreição da morte. Na Bruxaria, o crânio algumas vezes é mostrado colocado na frente de um caldeirão. Nesta posição ele simboliza o renascimento através dos poderes da transformação associada com o caldeirão. Na Bruxaria Italiana o crânio também representa a culminação do conhecimento ancestral.

Na magia e no misticismo, o crânio é uma ligação para os espíritos dos mundos Sobrenaturais através de sua associação com a morte. Ele também é um receptáculo para a energia psíquica, e por esta razão normalmente é colocado próximo dos instrumentos de adivinhação como a bola de cristal e o espelho mágico. Uma vez que os magos se tornaram mais sofisticados, o simbolismo do crânio evoluiu na arte da frenologia. Esta arte foi popularizada no século XVIII pelo Dr. Franz Joseph Gall, que teorizou que as faculdades do cérebro poderiam ser determinadas a partir da forma do crânio.”

 

Livro: “Bruxaria: a Tradição Renovada”
Autores: Evan John Jones e Doreen Valiente

O crânio é um dos instrumentos com associações mais antigas e conhecidas sob várias formas de pensamento e trabalho ocultos, embora na tradição da Arte não sej aobjeto tão comum, principalmente por, suspeito, estar ligado ao roubo e à profanação de sepulturas, satanismo, vodu, etc. Talvez o uso do crânio em rituais seja visto como algo demoníaco em conseqüência do pensamento cristão em relação a qualquer prática mágica contrária à palavra de Deus, bem como por estar ligado ao Demônio e ao lado obscuro da natureza humana.

Ao mesmo tempo, dentro da igreja cristã houve e ainda existe o reconhecimento de que os restos mortais pertencentes a determinadas pessoas os santos possuem certos poderes. Estes em geral envolvem cura, e, conseqüentemente, eram tratados como relíquias sagradas. Conservadas em tumbas magníficas, tornaram-se foco de peregrinações. Acredita-se que estas relíquias, quando acompanhadas de preces, formam, para os crentes, um elo com o espírito do santo na esperança de obter alguma graça sob a forma de milagre. Da mesma maneira, o crânio, nos rituais, agia como foco de moradia para um espírito. Havia somente esse tipo de contato em nível pessoal para o grupo ou coven e restrito somente àquele grupo.

No passado, várias culturas criaram alguma mitologia sobre crânio ou ossos como instrumentos de culto. Historicamente falando, no caso do pensamento europeu, essas idéias basicamente originam-se no culto celta às cabeças. Para os celtas, a cabeça era a fonte de poder espiritual e força de vida do homem. Com ela, o poder do homem morto era transferido para quem o tivesse matado e trabalharia a seu favor. Ao segurá-la, a coragem e a bravura do guerreiro morto poderiam ser invocadas para agir como defesa contra qualquer forma de perigo sobrenatural.

Ao decorar a casa, paliçada, estaca do portão ou os portais do templo com crânios ou cabeças cortadas tanto dos inimigos do clã como dos guerreiros da tribo, a mensagem era: esse local ou área está defendido pelas almas unidas desses guerreiros mortos. A crença de que existe uma relação entre a alma da pessoa morta e a cabeça fazia com que o crânio de um antigo sacerdote ou xamã servisse freqüentemente como foco no ritual de invocação da alma de um homem morto, habitante do outro mundo. Como na vida era reconhecida como moradia do poder espiritual da pessoa viva, na morte tornava-se a casa vazia do mesmo espírito. Por meio do ritual, aquele espírito podia ser chamado para aquele objeto reconhecível a fim de ajudar e proteger os membros vivos da família, grupo ou clã do morto.

Uma das coisas que achamos difícil compreender hoje em dia é que a morte não fosse barreira entre os mundos, como é agora. Com as palavras “descanse em paz”, o que estamos querendo dizer ou pedir é que a alma da pessoa permaneça em seu mundo e não atravesse para o nosso, embora para os celtas os mundos físico e psíquico estivessem interligados nesse plano. Em vez da luz e das trevas, havia um reino obscuro através do qual determinadas pessoas podiam atravessar a separação entre o mundo dos vivos e o dos mortos, trazendo informação, enquanto os mortos podiam contatar os vivos com os mesmos objetivos em mente. Dessa forma, passado e futuro podiam ser trazidos para o presente. Ao reconhecer isto, considera-se possível para a alma atravessar do outro mundo para este, o material, sob a forma de guardião ou espírito profético.

Ao reconhecer a possibilidade de contato com o bem vindo do além, não podemos nos esquecer de que o mal possui o mesmo poder. Portanto, é necessária proteção sobrenatural contra o mal sobrenatural. O culto ao crânio deveria crescer para se equiparar às necessidades espirituais de qualquer época.

Acredito que tenhamos nos afastado desses conceitos e idéias, tendendo a considerá-las fantasia e superstição primitivas. Mas o fato de termos agido dessa maneira não significa que não haja verdade nisso tudo. Muitas pessoas acreditam na imortalidade da alma, embora, ao mesmo tempo, neguem a existência de fantasmas. A idéia de que um “fantasma” é o eco de acontecimentos passados constitui uma das teorias atuais mais comentadas. Isto ignora o reconhecimento de que, se existe alma imortal dentro de uma pessoa, essa alma deve ter o poder de retornar a um determinado local de alguma forma importante para ela em existência passada.

Neste sentido, o crânio dentro do círculo é o reconhecimento desse fato. Além disso, os ritos e rituais ligados ao crânio não são, de forma alguma, tentativa de chamar os mortos por encantamentos ou para prender aquela alma ou espírito para servir ao grupo. Qualquer contato feito com o outro lado será na base de vontade e desejo mútuo de ambos os mundos, dentro do contexto das práticas e rituais da arte.

Quero dar outro aviso. O fato de haver determinada utilidade no crânio em determinados aspectos da prática da Arte não justifica a profanação em nome da fé. Os grupos podem e realizam rituais sem ele. Alguns nnunca sequer pensaram em ter um. Quanto a isso, se houver a possibilidade e o grupo desejar obter um crânio por meios legais de fornecimento a escolas de medicina, não há razão para não fazê-lo. Mas não podemos esquecer que um grupo que usa um crânio está aberto a todos os tipos de carga.

Um dos primeiros rituais é o de limpeza do crânio realizado com e em nome dos quatro elementos: terra, ar fogo e água. Por trás desse ato está o reconhecimento de que o crânio deve ser limpo de todas as suas ligações passadas. Num sentido oculto, o crânio não está sendo usado como meio de chamar de volta a alma que o habitou, mas como meio de atrair o fantasma de uma pessoa com ligações com a feitiçaria. Nesse sentido, o crânio age como uma chave para o reconhecimento de que, por um lado, o grupo está trabalhando dentro da estrutura reconhecível de “O Crânio dentro dos ritos”. Por outro, os membros do grupo estão se abrindo para um contato sobre o rio do esquecimento.

Com esse objetivo, a pergunta é exatamente o que está sendo contatado ou o que está vindo. Será uma pessoa que morreu há muito tempo e que espera o renascimento ou um aspecto do Deus Cornudo, se manifestando enquanto pessoa? Esta é mais uma pergunta sem resposta. Creio que, na maioria das vezes, se trata do fantasma, espírito ou alma de alguém que já morreu e pertenceu à Fé. Acredito nisto porque, nos casos em que soube que o crânio estava sendo usado, o contato gradualmente revelou um caminho individual reconhecível. Em um deles, o contato era feminino, com nome e vida passada claramente identificável. Em outro (e nesse somente repito o que me foi revelado), era masculino e grande apreciador de mulheres e de piadas sujas, embora em ambos os casos o contato tenha se tornado real com um grande fluxo de material inspirado para trabalhos desse tipo.

Para introdução do crânio no círculo, talvez a melhor idéia seja um trabalho interno. Pela natureza passiva do rito, e sendo necessária a introdução ao movimento real, as chaves principais são a paciência e a simplicidade. No lugar do fogo no centro do círculo, é colocado o crânio entre duas velas, com todos os presentes sentados à volta e virados para o centro. Aqui começa a paciência. Nesse caso, é somente esperar pela primeira leve sensação de contato mútuo. Gradualmente isso se fortalecerá e se delineará até uma forma reconhecível e estabelecimento do sexo.

Há uma troca de idéias entre os membros, como impressões sobre o que sentem quanto à identidade do contato que emana do crânio. No final, chega-se a um nome consensualmente aceito. O crânio, então, recebe formalmente o nome, e por meio disto é trazido para o coven ou para o grupo, como um dos membros invisíveis, parte da companhia oculta.

A partir do nome, a persona do contato tende a se fortalecer e a se desenvolver em contato reconhecível, com suas artimanhas e fraquezas particulares. Assim, quando houver uma taça de vinho consagrado em um dos encontros, a prática é colocar uma libação em sua homenagem e memória. Isto é feito porque ela também é parte do grupo de trabalho.

Cerca de três ou quaro meses antes da dissolução do meu grupo, houve uma sensação gradual de que o espírito de contato estava se desprendendo do grupo. No final, sentíamos que o nosso crânio estava “vazio”, e que nosso contato se mantinha firme do outro lado.

Para alguns, tudo isso parecerá fantasioso e motivo de críticas. Para ser franca, também tive dúvidas quanto ao primeiro caso. O que fiz foi sentar e esperar. Após algum tempo, comecei a sentir que havia ali mais do que supunha. Havia uma resposta definida que vinha do crânio. Para minha surpresa, não era o tipo de resposta que eu esperava. Não havia um fluxo súbito de conhecimento esotérico do que poderíamos descrever como um líder do passado contatando os novos seguidores desse lado. Era muito mais sutil do que isso e difícil de ser compreendido.

Parecia ser o eco de uma vida passada, com outro eco de outra vida. Havia um sentido de perplexidade e do porquê ela sentia o chamado do grupo. Aos poucos, quando alguns aspectos de sua natureza se tornaram conhecidos, compreendemos que o seu fantasma ou espírito estava aprisionado nela. Ela não tinha sido, naquela vida, uma seguidora da Deusa, porém, subjacente àquela memória havia uma outra, e era aquela memória de vida passada que estava respondendo, por intermédio do último renascimento e memória, e respondendo ao nosso chamado.

Em algumas ocasiões, havia a sensação distinta de que ela não queria estar ali e da falta de compreensão do porquê estava. Em outras, sentíamos a sua vontade de estar e a compreensão do que buscávamos e estávamos tentando conseguir. Nesses encontros havia a sensação da ligação com o passado e da sua lembrança que se refletia na maneira de como toda a natureza dos rituais havia mudado. Pelo menos, dois ou três de nós, a cada encontro, outros dois ou três que sentiam. No fluxo e refluxo desse contato, cada um de nós voltou com melhor compreensão, que foi muito considerada antes de ser posta em prática.

 

O Ritual da Purificação e da Aprovação:

Como já foi dito antes, em primeiro lugar o crânio deve ser limpo das influências passadas. Se for trazido para o círculo antes disso, haverá grande possibilidade de se reativar experiências traumáticas de vidas passadas, e, ao mesmo tempo, as portas ficarão abertas a todo tipo de sordidez. Pela natureza não-realizada de acontecimentos passados que emanam do crânio, as forças do caos podem e com freqüência se aproveitam e usam a abertura criada pelo crânio para fluir. Quando o caos penetra o círculo, é preciso forte ação mágica para fazê-lo retornar ao seu lugar. Por isso, de maneira alguma um crânio deve ser trazido para o círculo antes de ser limpo.

Cabe ao grupo decidir o local e o momento desse rito. Por sua natureza, prefiro o período da Lua Nova e acho que deve ser realizado como evento especial e não enquanto aproveitamento de um outro encontro. Mas isto é escolha pessoal. Como é necessário um ponto de fogo bem grande, maior do que a chama simbólica da vela usada para trabalhos internos, o lugar apropriado é um círculo externo consagrado e totalmente magnetizado. Isto é realizado com e em nome dos elementos da terra, ar, fogo e água. São escolhidos quatro membros para representá-los e participar como tal na ordem ritual correta.

 

Estágio 1

Se houver outros membros presentes durante o ritual, devem entrar no círculo antes e se colocar junto à borda, do lado de dentro. Entram, então, os membros que vão representar os quatro elementos. A pessoa que representa o Ar coloca o crânio perto do fogo, e o círculo é fechado. Com os representantes dos quatro elementos juntos no centro do círculo, o reto do grupo começa a “rodar o moinho’ em movimento widdershins, até que o Ar sinta que pode parar, quando então, pega o crânio com a mão direita e, com a esquerda, simula tirar alguma coisa do crânio pelas narinas, enquanto diz:

Ar: “Assim como eu retiro a respiração destas narinas… assim a vida e a memória da vida passada são retiradas.”

Isto é feito três vezes, usando-se as mesmas palavras. O crânio é recolocado perto do fogo. A Terra se aproxima e diz:

Terra: “Eu represento a Mãe de cujo ventre provém toda a vida… e também o lugar para o qual, com a morte, todos retornaremos… e salpicando essa terra… eu simbolizo esse retorno.”

Isto é repetido três vezes e, a cada vez, um pouco de terra que foi levada para esse propósito para dentro do círculo é salpicada sobre o crânio. O Fogo, então, segura o crânio com a mão direita e o passa nas chamas com a mão esquerda, dizendo:

Fogo: “Assim como tu passaste pela sepultura e pelos fogos da purificação… Local onde ambos, passado e presente, se queimaram em ti.”

Isto é feito três vezes, e o crânio é recolocado no seu lugar pelo Fogo. A Água se aproxima dizendo:

Água: “Com as águas do tempo e do perdão… Eu lavo tanto o passado como o presente… até que o renascimento te mande de volta a esse mundo para viveres uma nova vida.”

Novamente isto é feito três vezes, e a cada vez um pouco de água é aspergida sobre o crânio. Aqui termina essa parte do rito.

Estágio 2

Naturalmente, o segundo estágio é o do nome. deve ficar claro que, mesmo que faça parte do rito da purificação, esse estágio pode e muitas vezes é realizado em data posterior, e geralmente ao ar livre. Como já mencionado, o crânio é trazido para o círculo traçado na forma usual para essa ocasião. De preferência, deve ser transportado por um membro do sexo masculino. É colocado entre duas velas. O restante do grupo se senta em torno e se dá as mãos, enquanto focaliza a atenção no crânio. Aos poucos as impressões começam a surgir e, se alguém tiver uma que seja bem forte e definida, deve mencioná-la. À medida que a sensação for se intensificando, surgem o nome, o estilo da vida passada e uma sensação geral sobre o contato. Num determinado momento, quando sentir que deve, a Senhora [a suma sacerdotisa ou Magistra] pega o crânio com a sua mão direita e sopra nas cavidades das narinas, dizendo:

Senhora: “Por intermédio da nossa Senhora e em seu nome… eu sopro a vida proveniente do grupo em ti… Em seu nome… que assim seja.” [Obs: Senhora é um modo de se referir à Deusa, e não tem nada a ver com a “Nossa Senhora” dos cristãos. Não confunda.]

Coloca o crânio novamente no lugar e, a seguir, arruma três fios de lã colorida no topo do crânio, cruzando-os entre si:

Primeiro, o fio vermelho, símbolo do elo vermelho da vida pelo renascimento. [horizontalmente]
Segundo, o fio preto do conhecimento e símbolo do membro iniciado do coven.
[Assim: / ]
Terceiro, o fio branco da morte e do mundo além da morte.
[Formando um X com o fio anterior. O conjunto parece um X cortado horizontalmente por um travessão]

Nesse ponto, haverá uma reação sentida por todos. Se for boa, significa que foi aceito. Um pouco de vinho retirado da consagração é aspergido sobre o crânio pela Senhora [Magistra] com as palavras:

Senhora: “Em nome do (grupo, coven ou clã) e com este vinho… eu te nomeio (nome) sabendo que por meio desse crânio… tu escolheste ser chamado por nós e de boa vontade te uniste a nós para auxiliar na adoração aos Deuses Antigos… e, acima de tudo, à Deusa.”

Antes de terminar o rito, todos partilham uma taça de vinho em honra do novo contato, e, mais uma vez, um pouco de vinho é aspergido sobre o crânio. Assim, o crânio recebe um nome e, aos poucos, o contato é estabelecido.

 

O Crânio Dentro dos Rituais:

A principal função do “crânio dentro dos rituais” é a de servir como acesso aos trabalhos especiais. Por seu intermédio e vindo do outro lado surgem com freqüência um clarão de iluminação e o conhecimento que, em um instante, impulsiona todo o grupo vários degraus à frente no caminho. Muitas vezes confirmam-se os objetivos e as ambições do grupo ou coven. Além disso, há novos pensamentos e idéias colocados nas mentes do grupo, que ampliam o caminho a ser trabalhado e também abrem outros. Nesse sentido, o contato espiritual se torna ou ganha atributos do sacerdote-rei orientador e líder que habita a tumba real.

Em outro aspecto, torna-se o crânio da profecia. No passado, quando era mais utilizado para isso, segurava-se o crânio com as mãos enquanto se fazia a pergunta. Se ele ficava mais leve, a resposta era “sim”. Se ficasse mais pesado, a resposta era “não”. Hoje, em vez de segurá-lo, coloca-se o crânio no centro do círculo de um ambiente obscurecido, dirigindo-se as perguntas ao espírito de contato. Todos os presentes colocam a mente num tipo de fluxo livre, até que as respostas comecem a chegar.

Para ser sincera, não estou muito convencida de que todas as respostas sejam enviadas pelo espírito. Pelo simples fato de várias mentes estarem buscando uma resposta por meio do contato externo, isto propicia que elas mesmas encontrem as respostas dentro delas. Qualquer que seja a origem, as respostas chegam com o tempo e, posteriormente, mostram que estavam corretas. Existe outra forma de tradição em relação ao crânio dentro da Arte, que chegou até nós por intermédio de ancestrais muito antigos, embora hoje seja utilizada muito raramente, se é que ainda o é. É o uso do crânio como totem, o símbolo animista do clã, que evoluiu gradualmente para outra forma de ritual. Por isso, e também como assunto de interesse histórico, devo descrevê-lo.

Desde os tempos pré-históricos, tem havido o reconhecimento do elo mágico entre o caçador e sua vítima. Foram encontrados vários exemplos desse elo, desde as famosas pinturas rupestres da máscara de veado, do Deus coberto de hera ou do mago na Caverne des Trois Frères, em Arège, até as pilhas ritualísticas de ossos de animais escondidas no fundo das cavernas. Crescendo nesse conceito de harmonia mágica entre caça e caçador, passando por determinados rituais mágicos, o passo seguinte seria o reconhecimento gradual por parte do clã ou da tribo do animal envolvido: urso, bisão, veado ou qualquer outro. Entrelaçado com o conceito do ritual para uma caçada proveitosa veio o reconhecimento de que a fertilidade das espécies caçadas era de importância primordial. Se elas não procriassem, significaria a fome para a tribo.

O tempo trouxe mudanças. Não havia mais rituais realizados no fundo das cavernas, mas ao ar livre, dentro do círculo. Como parte do ritual, a agora familiar estaca das Bruxas era montada como porta de acesso ao círculo. No lugar da estaca em forquilha que conhecemos, havia um mastro reto com um crânio do animal totêmico fincado na extremidade. Embora a vida tenha mudado da sobrevivência que dependia das caçadas para as atividades agrícola e pastoril, no ciclo da natureza e na fertilidade dos campos, o culto ao Deus Cornudo e a Deusa Grávida ainda tem garantindo o seu lugar.

Nessa fé havia ainda o conceito do sacrifício animal como agradecimento aos deuses guardiães dos rebanhos e manadas e, acima de tudo, à Deusa Mãe da terra. Na verdade, parte do animal sacrificado era consagrada aos deuses e queimada no fogo sagrado. O resto era cozido e comido depois pelo grupo. Era festa sagrada, partilhada pelos deuses e pelo povo. O que tinha sido praticado dentro das cavernas era realizado agora ao ar livre, com envolvimento maior do grupo ou clã nos rituais. Mesmo que as circunstâncias e o estilo de vida tenham mudado, o conceito de fertilidade permanece o mesmo. mudando apenas na aparência externa. Em vez de boa caçada, orava-se por boa colheita.

À medida que o conceito da Deusa e dos Deuses Antigos tomava forma mais humana, a natureza do sacrifício também mudava.

Assim como a vida se tornava mais complexa e organizada, expandia-se a visão sobre os deuses. Em vez do sacrifício animal, surgia o conceito do mensageiro humano. Deuses e Deusa ganhando caráter mais humano podiam ser contatados por um ser humano, essa alma levando as preces e os pedidos da tribo. Desenvolvido paralelamente ao conceito de mensageiro dos deuses, e com o mesmo objetivo de força e bem-estar para a tribo, surgiu o sacrifício do Rei Divino, em que a força da tribo era fixada em uma pessoa não por direito de nascimento ou de herança, mas por seleção. Enquanto o rei fosse forte e vigoroso, assim seria a tribo. Sacrificado em seu apogeu, o rei tornava-se companheiro dos deuses pelo bem da tribo.

Posteriormente esse conceito foi modificado, e o sacrifício voltou mais uma vez a ser animal, com o que surgiu o conceito muito interessante de bode expiatório. O infeliz animal, portador de todos os males e pecados da comunidade, deveria levá-los diante dos deuses junto com a sua vida, como símbolo de expiação e pagamento para libertação_ uma vida substituindo a do rei.

Com esse conceito da possibilidade de transferir doenças e pecados para um animal a ser sacrificado e, ao mesmo tempo como lembrança do sacrifício do Rei Divino, o Mestre [Sumo Sacerdote/ Magister] detém os poderes de um líder, e deve pagar um preço por esses poderes.

Durante sete anos, pelas graças da Senhora [Suma Sacerdotisa/ Magistra], o Mestre lidera o coven. No final do sétimo ano, o preço dessa regra é transferido para o “Carneiro Real”. A vida do carneiro é oferecida à Deusa, substituindo a do Mestre. As partes sagradas são oferecidas ao fogo sagrado, e as outras são utilizadas nas festas sagradas. A cabeça do carneiro sacrificado é queimada ao lado da “Ponte entre os Dois Mundos”. Por essa razão, o avental algumas vezes usado pelo Mestre como parte doas seus paramentos, como no caso dos utilizados por outros membros, simboliza nada mais do que o avental do açougueiro.

Hoje em dia não há mais necessidade do sacrifício. Ele foi substituído pelo juramento do ofício feito e confirmado pela Senhora e pelos quatro oficiantes a cada sete anos. Entretanto, podemos ocasionalmente achar um grupo que marca a sua porta de entrada para o círculo com uma cabeça queimada de carneiro como lembrança do espírito-totem animista do clã. Da mesma maneira, a estaca ou mastro em forquilha e o símbolo do jovem Deus Cornudo das florestas e da caça, aquele que permanece entre o coven e a Mãe, a Deusa.

[Aqui termina o texto de EJJ e Doreen Valiente. É interessante comparar isso com o que Gardner diz sobre o carneiro.]

 

Livro: O Significado da Bruxaria

Autor: Gerald Gardner



Se houvesse o abate de animais durante esses festivais provavelmente serviam a propósitos mundanos, como alimentação, e as fogueiras serviram para cozinhar; porque nenhum encontro de bruxas era, ou é, uma comemoração completa sem alguma espécie de refeição festiva. Quando as pessoas vinham de longas distâncias para esse ponto de encontro, elas desejavam uma refeição substancial, e a carne e as bebidas faziam parte da atração do sabá das bruxas. A Igreja tentou dispersar essa atração perigosa divulgando a história de que a carne e a bebida das bruxas na verdade continham todos os tipos de substâncias horríveis e asquerosas a fim de fazer com que o sabá parecesse repulsivo, para que as pessoas não mais desejassem freqüentá-lo. Porém, a monstruosidade dessa história frustra o seu propósito; porque quem sairia de sua cama aconchegante, à noite, e percorreria longas distâncias pelo adorável prazer de comer imundícies e beijar o tergo de um bode? As pessoas comuns iam aos sabás das bruxas por uma razão natural e compreensível, porque elas viviam bons momentos ali.

Creio que seja importante ressaltar que, embora a maioria das ilustrações nos trabalhos dos oponentes à bruxaria pareçam, à primeira vista, ser trabalhos da fantasia e da imaginação, se não da loucura, ao analisar vários deles com uma bruxa, ambos percebemos que vários aspectos estavam corretos.

Na verdade, era como se o homem que tivesse feito o desenho tivesse estado presente e visto algo que ele não havia compreendido, ou possivelmente tivesse conversado com alguém que havia visto. (Obviamente ele devia ter estado presente nos julgamentos.)

Não posso falar sobre a maioria desses assuntos. Porém, devo mencionar isso. No princípio, eu ficava intrigado com o grande número dessas figuras que mostravam esqueletos de animais, com alguns fragmentos de carne ainda neles. Eles são geralmente retratados como se ainda estivessem vivos e se mexendo. Eu pensava que a intenção fosse simplesmente produzir um quadro horrível até o dia em que presenciei uma festa de bruxaria em um bosque; quando um carneiro inteiro foi “assado” em uma fogueira (e estava muito bom). Foi assado por inteiro, em um enorme espeto de ferro, e, quando pronto, a carne foi destrinchada. Foi uma visão estranha, com as chamas iluminando as árvores, e subitamente vi os contornos do carneiro através da fogueira, suas costelas descobertas, os ossos das quatro patas voltadas para baixo. A luz oscilante da fogueira e a fumaça davam a impressão de que ele se movia como se estivesse vivo, exatamente como mostravam os antigos “quadros de bruxaria”, com exceção de que este não tinha cabeça, e é provável que nos tempos antigos eles o assavam sem tirar a cabeça.

[Aqui termina o texto de Gardner. Se esse carneiro era um Carneiro Real ou não, só as Bruxas que o assaram saberiam dizer.]

O Velho Simon:

Livro: Enciclopédia da Bruxaria
Autora: Doreen Valiente



Quando o Sabá tem que acontecer em lugares fechados, o ritual é modificado conforme a necessidade. Então há geralmente um pequeno altar no centro do círculo. Esse altar deve ter fogo e água sobre ele, de alguma forma, e as bruxas de tradições mais antigas às vezes incluem um crânio e ossos cruzados, ou uma representação deles.

Esse é um símbolo da morte e da ressurreição e, portanto, da imortalidade. Ele é às vezes chamado de “Velho Simon”.

Existe uma crença cristã muito curiosa e antiga de que enquanto restassem um crânio e dois ossos das pernas de um homem, isso seria suficiente para assegurar-lhe um lugar na ressurreição geral do Último Dia. Essa crença pode muito bem ter sido originada do verdadeiro simbolismo do emblema do crânio e dos ossos cruzados. As fraternidades maçónicas também fazem uso do crânio e dos ossos cruzados em suas cerimonias, que descendem, se não na verdade derivaram, dos antigos cultos dos Mistérios.

Pessoas de fora podem considerar esse emblema algo terrível e cruel, principalmente quando visto sob a luz de velas em uma sala escura. Entretanto, os procedimentos na maioria dos Sabás de que participei eram alegres e espontâneos. Eles são responsáveis por algumas de minhas lembranças mais alegres.

[Aqui termina o texto de Doreen]

 

O Crânio no Altar: Modo de Usar

Livro: “Witchcraft: A Mystery Tradition”
Autor: Raven Grimassi

[p. 110]

Um dos mais mal-entendidos objetos que aparecem na Bruxaria é o crânio. Para muitas pessoas este é uma presença perturbadora, e significa morte. Entretanto, na Tradição dos Mistérios o crânio significa conhecimento e sabedoria. Essencialmente, o crânio representa o que resta da experiência de vida de alguém. Nesse sentido, ele representa o que nossos ancestrais sabiam e passaram adiante para as gerações futuras.

Os ossos cruzados representam guarda. Eles formam a figura de um X, o que simboliza o poder sobre o reino da morte. Na arte antiga o X aparece nos tronos de deidades associadas com o Mundo Inferior, e entre o seu simbolismo geral. De muitas maneiras eles simbolizam o mesmo que as espadas cruzadas, que denotam uma irmandade ou ordem secreta. No contexto da última, o crânio representa o conhecimento preservado da ordem.

Muitos comentadores sugeriram que entre os Celtas a prática da caça de cabeças tinha sua raiz em uma tradição espiritual (em oposição a uma de pegar troféus de guerra). Se nós olharmos para o fato de que o crânio retém conhecimento, então remover a cabeça vai proteger esse conhecimento de deixar o corpo com a morte. Há muitos contos celtas associados com o crânio, e com crânios específicos como o do herói Bran o Abençoado.

No conto de Bran, ele instrui seus homens de que após sua morte eles deverão cortar sua cabeça e enterrá-la no lugar onde hoje é Londres. Bran diz que isso irá proteger os Bretões de serem conquistados por invasores. A implicação aqui é que há algo do poder e do espírito de Bran que permanece no crânio.

O tema de reter o espírito ancestral aparece através da Europa Continental e as Ilhas Britânicas. Na Europa setentrional ela aparece no que é chamado o Culto ao Crânio.

[p. 215]

Uma representação de um crânio humano é colocada entre as imagens das deidades. Isso simboliza o conhecimento e sabedoria de nossos ancestrais preservados e passados adiante nos Mistérios. Uma vela preta é colocada no topo do crânio e acesa para os rituais realizados do Equinócio de Outono até o Equinócio de Primavera. Uma vela vermelha é usada do Equinócio de Primavera até o Equinócio de Outono. Preto simboliza o conhecimento ancestral retido em sua fonte, o Outro Mundo. Vermelho simboliza o conhecimento ancestral que flui do Outro Mundo ao mundo dos mortais.

Durante o correr do ano a cor da vela do crânio vai fazer par tanto com a vela da Deusa como com a vela do Deus. Preto representa o reino secreto das sombras, a profunda floresta escura, e a jornada mística que leva ao Outro Mundo. O Deus que escolta os mortos e que auxilia na transição. Cernunnos é um exemplo desse aspecto do Deus.

Vermelho representa o sangue da vida, a pulsação interna que sustenta e dá poder. Relacionado à Deusa, ele corre através da terra debaixo do solo, pois ela é a doadora da vida. Vermelho simboliza o lugar da vida e da renovação, o que se reflete no ciclo menstrual. No contexto da figura do crânio, o vermelho simboliza o conhecimento antigo fluindo da fonte de onde eles brotam.

Na frente do crânio um caldeirãozinho é colocado. Este representa o Portal da Lua [Moon Gate], que é o útero da Deusa. Através da Deusa todas as coisas nascem do Outro Mundo e a ela retornam novamente. Então o caldeirão conduz de e para o conhecimento ancestral. Por causa disso ele contém a essência mágica da transformação.

[Aqui termina o texto do Grimassi.]

Segundo o que Grimassi escreveu em “Bruxaria Hereditária”, uma diferença entre a Bruxaria Italiana e a Bruxaria das Ilhas Britânicas é que, na Italiana, o ano é dividido entre a metade luz (do Cervo) e a metade sombra (do Lobo), sendo que a divisão se faz de Equinócio a Equinócio. Enquanto que, nas Ilhas Britânicas, o ano é dividido entre a metade luz (do Rei Carvalho) e a metade sombra (do Rei Azevinho), sendo que a divisão se faz de Solstício a Solstício. Podemos portanto concluir que, nas Ilhas Britânicas, a vela vermelha seja usada durante o reinado do Rei Carvalho (Solstício de Inverno ao Solstício de Verão), e a vela preta, durante o reinado do Rei Azevinho (Solstício de Verão ao Solstício de Inverno).

 

O Culto de Orfeu:

Livro: Mitos e Tarôs
Autoras: Dicta e Françoise



Segundo se pensa, o primeiro culto [de Orfeu] consistia em envolver uma cabeça, verdadeira ou falsa, com um pano [de linho] ou pedaço de pele, cobrindo apenas o crânio, como se fizesse para ele uma veste; depois, embalar, acariciar esse corpo figurado, até que, pela boca do sacerdote mágico, a cabeça começasse a falar, a profetizar.

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