Evangelhos apócrifos – O Livro de Melquisedeque

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Primeira parte

A História de um Vaso

Capítulo I

Eu estava descansando sob a sombra do Carvalho de Mambré, junto à tenda, quando vi chegar  apressadamente um dos servos de meu sobrinho Ló. Quase sem fôlego, ele passou a relatar-me sobre a tragédia: houvera no dia anterior uma batalha entre as cidades da planície, envolvendo quatro reis contra cinco. Como resultado, Sodoma fora derrotada e muitos de seus habitantes levados cativos, entre eles o meu sobrinho Ló. A notícia deixou-me muito aflito, pois ao mesmo tempo em que sentia que precisaria sair em seu socorro, via-me frágil, sem nenhuma possibilidade de me sair vitorioso.

Sempre fui um homem pacífico e detesto aqueles que derramam sangue. Tenho muitos servos, mas poucos sabem manejar espadas e lanças, pois desde a infância são treinados como pastores. Em lugar de espadas, eles manejam bordões com os quais conduzem os rebanhos. Em lugar de escudos, carregam vasos em suas cinturas, sempre cheios de água fresca para matarem sua sede e refrigerarem as ovelhas cansadas. Em lugar de vinho para se embebedarem, carregam presos em seus cintos pequenas botijas com o azeite das oliveiras, com os quais untam as feridas do rebanho. Em lugar de ressonantes trombetas eles sopram pequenos chifres, com os quais convocam o rebanho para o curral.

Imaginando como seria um combate entre os meus servos e os exércitos daqueles cinco reis vitoriosos, comecei a rir. Enquanto gargalhava, a voz d’Aquele que sempre me guia, soou aos meus ouvidos, dizendo:

–           Abraão, Abraão! Não menosprezes os instrumentos dos pastores, pois santificados pelo fogo do sacrifício, haverão de conquistar o grande livramento.

O Eterno passou a dar-me ordens, fazendo-me avançar pela fé, sem saber como tal livramento haveria de se realizar. O primeiro passo foi a convocação de todos os pastores que, deixando seus rebanhos, dirigiram-se ao Carvalho de Mambré, trazendo seus instrumentos pastoris. Eram ao todo 600 pastores. Ordenei que eles esvaziassem os jarros, colocando neles o azeite da botija.  Depois de cumprirem esta ordem, pedi que tomassem cada um a lã de uma ovelha, misturando-a com o azeite dos jarros.

Depois de transmitir todas as ordens aos pastores, o Eterno falou-me:

–           Toma agora o teu vaso, o teu único vaso, e traga-mo a mim para que eu te mostre o que deves fazer”.

Tínhamos na tenda três jarros adquiridos na cidade de Harã; Nos dois menores, guardávamos o azeite para as lâmpadas, e no terceiro que era o maior e mais bonito, guardávamos pérolas e pedras preciosas, jóias reunidas por Sara ao longo de nossas peregrinações. Julgando ser o terceiro jarro o escolhido, estendi as mãos para tomá-lo, mas o Senhor impediu-me de fazê-lo, afirmando que, ainda que ele fosse portado de riquezas que seriam essenciais para o livramento, Ele escolhera um jarro especial – aquele que fora rejeitado e esquecido. Lembrei-me do grande jarro de barro que nos fora presenteado por um humilde oleiro, quando estávamos próximos de Canaã. Nós o pusemos inicialmente ao lado dos três, e nele colocamos os primeiros frutos colhidos na terra prometida. Não havendo, contudo, nenhuma beleza nele, Sara o rejeitou, lançando-o para fora da tenda. Sete anos depois, o oleiro visitou-nos e, ao encontrá-lo abandonado junto à tenda, mostrou-nos uma maneira em que ele poderia ser útil. Amarrando-o firmemente com uma corda de linho, lançou-o ao fundo do poço; por meio dele, os pastores passaram a tirar água para os rebanhos.

Seguindo as orientações do Eterno, dirigi-me ao poço, fazendo emergir de suas profundezas o jarro esquecido; Ao vê-lo repleto de água, lembrei-me do momento em que ele fora lançado ali, vazio e seco. Depois de esvaziá-lo, o Eterno ordenou-me transferir para ele o azeite dos dois jarros menores bem como as jóias do terceiro. Como sobrara muito espaço vazio no jarro, o Eterno ordenou completá-lo com azeite novo de oliva. Ao concluir essa tarefa, o Senhor mandou-me fazer um longo pavio de lã, devendo ficar uma de suas pontas mergulhada no azeite e a outra suspensa sobre o vaso.

Depois destas coisas, o Eterno ordenou-me a acender o pavio com o fogo do altar. Ao aproximar-me do fogo sagrado que ainda ardia sobre o sacrifício da manhã, uma pequena fagulha saltou para o pavio, e pouco a pouco foi-se alimentando do azeite, até tornar-se numa labareda que podia ser vista de longe.

Capítulo II

Com o vaso nos ombros, comecei uma longa caminhada rumo às cidades da planície, sendo acompanhado pelos pastores. Logo começaram a surgir escarnecedores que, ao verem-me com aquele vaso incandescente em pleno dia, passaram a dizer que eu ficara louco. Ao espalhar esta notícia, muitos vieram ao meu encontro, aconselhando-me a retornar para a tenda, abandonando aquele jarro que seria capaz de destruir a boa reputação que eu havia conquistado entre eles. Quando eu lhes falei sobre os exércitos e sobre minha missão juntamente com os pastores, eles concluíram que de fato eu ficara louco. Tentaram tirar-me o vaso pela força, mas, agarrando-me a ele, impedi que o tirassem de mim.

Envergonhados diante de tudo aquilo, muitos pastores começaram a afastar-se: alguns retornaram para suas tendas, enquanto outros, uniram-se àqueles que riam de meu comportamento estranho. Sentindo-me sozinho com aquele pesado vaso sobre os ombros, comecei a angustiar-me. Ansiava encontrar alguém com quem pudesse compartilhar minha experiência, mas todos lançavam-me olhares de reprovação. Lembrei-me de Sara, minha amada esposa. Em obediência à voz do Eterno, havíamos trilhado por muitos caminhos, estando ela sempre ao meu lado, animando-me a prosseguir mesmo nos momentos mais difíceis. Com certeza Sara me traria consolo e forças para continuar firme, conduzindo o jarro da salvação. Enquanto avançava pelo caminho pensando em Sara, ela surgiu no meio da multidão. Ao dirigir-me a ela, fiquei surpreso e desalentado ao notar em seus olhos o mesmo menosprezo daqueles que zombavam de mim.

Lembrando-me da ordem do Criador de que teria de libertar meu sobrinho Ló, fui andando sozinho pelo caminho. Ao colocar-me no lugar daqueles que me achavam louco, eu dava-lhes razão, pois, em condições normais, nenhuma pessoa sai de casa, sem rumo definido, levando em pleno dia um vaso com uma labareda, afirmando estar marchando contra o exércitos de cinco reis. Realmente parecia se tratar de uma grande loucura. Mesmo assim, a despeito de todas as humilhações e palavras contra mim, eu avançava rumo ao vale. Toda aquela zombaria foi finalmente diminuindo à medida em que me distanciava do Carvalho de Mambré.

Começaram a sobrevir ao meu coração muitas dúvidas quanto ao meu futuro. Ficava às vezes aflito com o pensamento de que toda a minha experiência, desde a convocação dos pastores até aquele momento, poderia ser, de fato, demonstração de insanidade. Cheio de dúvidas, comecei a pensar na possibilidade de abandonar à beira do caminho o jarro, retornando para a tenda. Esses eram os conselhos de alguns pastores e amigos que, condoídos de minha solidão, ainda vinham ao meu encontro, aconselhando-me a retornar. Ali, diziam, eu poderia conquistar novamente a confiança dos pastores, voltando a ser, quem sabe, até mesmo um sacerdote honrado como antes. Sobre o altar, diziam, havia um fogo muito maior do que aquele que eu carregava sobre os ombros. Estava a ponto de retornar, quando Sara veio ao meu encontro, contando-me sobre o desprezo que muitos pastores lançavam contra mim. Ela estava consternada, pois toda aquela desonra recaía também sobre ela, ao ponto de não sentir mais desejo de permanecer junto ao altar.

Depois de alertar-me, Sara passou a falar-me de um plano: poderíamos, quem sabe, nos mudar para uma cidade distante, onde esqueceríamos todo aquele vexame. Esquecendo-me da voz que me mandara seguir rumo à planície, respondi que eu estaria disposto a acompanhá-la para qualquer lugar, se ela permitisse que eu levasse aquele jarro; Ele seria o nosso altar, aquecendo e iluminando nossas noites com sua chama. Ao ouvir sobre o vaso, Sara ficou novamente irada, afirmando não entender minha teimosia em continuar levando sobre os ombros aquele símbolo de vergonha e desprezo. Depois de dizer-me tais palavras, voltou-me as costas, retornando para a tenda.

Capítulo III

Angustiado por não poder agradar Sara, prossegui rumo ao futuro incerto, sendo orientado unicamente pela chama, cujo brilho aumentava à medida em que as trevas adensavam-se. Comecei a meditar sobre aquele fogo que me acompanhava com seu brilho e calor. Eu estava acostumado a ver o Fogo Sagrado entronizado sobre o altar de pedras, em meio aos louvores de muitos pastores, entre os quais me destacava como mestre e sacerdote. Naqueles momentos de adoração, eu me vestia com os melhores mantos, e fazia questão de realizar o sacrifício somente quando todos os meus servos estivessem reunidos ao meu redor, para que ouvissem meus conselhos e advertências. Na hora do sacrifício, eu erguia minha espada desembainhada e, com palavras amedrontadoras, proclamava a grandeza do Senhor dos Exércitos, o Deus Todo Poderoso que domina sobre os Céus e a Terra. Vibrando a espada num movimento ameaçador, eu representava diante de meus pastores a imagem de um Deus severo, que está sempre pronto a revidar qualquer afronta. Depois dessa demonstração de soberania e poder, eu tomava uma ovelha das mãos de um pastor, e a amarrava sobre o altar. Para que ficasse patente a ira divina, eu pisava sobre o seu pescoço, golpeando-a severamente, até vê-la perecer. Depois eu descia do altar e ficava esperando pelo Fogo Sagrado que jamais deixou de manifestar-se sobre o sacrifício.

Eu aprendera desde a infância a reverenciar o Fogo Sagrado, crendo ser ele uma revelação visível do Eterno, o Grande Deus Invisível. Até então, eu o vira como um Fogo Único e Indivisível. Agora, ao transportar em humilde jarro a chama que se desprendera do Altar, meus pensamentos agitavam-se com o surgimento de um novo conceito sobre o Criador: o conceito de um Deus Sofredor que é capaz de desprender-se do grande Ser representado pelo Fogo, para acompanhar o pecador em sua jornada.

Arrependido, prostrei-me diante do jarro e chorei amargamente. Estava consciente de que todo o zelo demonstrado junto ao Altar, tinha por finalidade a exaltação de meu orgulho, e não do amor daquele que me acompanhava pelo caminho. Subitamente, gravou-se-me na mente a convicção de que aquela pequena chama que se desprendera do Fogo Sagrado, era uma representação do Messias prometido, que Se desprenderia do Eterno para ser Deus Conosco, companheiro em todas as nossas jornadas. Ao sobrevir-me esta convicção, a chama alegrou-se, tornando-se mais brilhante e calorosa. Com o coração transformado, prossegui pelo caminho rumo ao vale, levando sobre os ombros o jarro que me trouxera depois de tanto desprezo, a alegria de uma nova compreensão sobre o caráter do Criador.

Momentos difíceis começaram a surgir em minha caminhada, quando ventos frios vindos do Mar Morto começaram a arremeter-se contra a pequena chama, procurando apagá-la. Eu a amparava com o meu corpo, andando muitas vezes de lado e mesmo de costas, mas sempre avançando rumo ao vale. Ao romper a luz do dia, achei-me a um passo da planície. Comecei então a encontrar pelo caminho muitos rebanhos que eram conduzidos por rudes pastores. À medida em que avançava entre eles, ocorriam tumultos e confusões, pois muitas ovelhas e cabras assustavam-se com a chama de meu jarro, debandando-se por todas as partes. Isto fez com que a maioria dos pastores ficassem irritados com a minha presença em seu meio. Sabendo que não poderia ficar retido naquele vale, prossegui rumo a Sodoma.

Enquanto avançava, começou a acontecer algo interessante: muitas ovelhas, meigas e submissas, começaram a acompanhar-me. Eram poucas a princípio, mas pouco a pouco seu número foi aumentando, até que passei a andar com dificuldade, devido ao grande número de ovelhas que me seguiam. Ao longe eu podia ver os pastores, enfurecidos, pela perda de suas ovelhas mais bonitas. Ao chegar à cidade de Sodoma, encontrei-a vazia e devastada. Seguindo os rastros deixados pelos exércitos e pela multidão de cativos, fui me aproximando cada vez mais do alvo de minha missão. Ao chegar à campina de Dã, pude avistar ao longe o grande acampamento dos soldados, ao pé de um outeiro. Sem pressa, encaminhei-me para lá, conduzindo o meu novo rebanho. Do alto do monte, pude observar o acampamento em toda a sua extensão. Havia ali milhares de soldados comemorando a vitória. Enquanto isso, centenas de cativos jaziam amontoados no meio do arraial, humilhados e sem esperança. Diante desse quadro, fiquei imaginando como poderia se dar o livramento.

Minha presença despertou curiosidade em alguns soldados que, ao ver-me com o vaso fumegante, aproximaram-se. Quando me perguntaram sobre o motivo de minha presença naquele lugar, eu disse-lhes que viera libertar meu sobrinho Ló. Minhas palavras tornaram-se motivo de muitos gracejos em todo o acampamento. Depois disso, passaram a escarnecer de Ló. Em pouco tempo, toda aquela zombaria transformou-se em gritos de vingança, e proclamaram que, na manhã seguinte, todos os cativos seriam exterminados, começando pelo meu sobrinho.

Capítulo IV

Enquanto eu tentava imaginar o que o Eterno poderia fazer para alcançar o livramento, vi surgir ao longe o vulto de pastores que se encaminhavam em minha direção, vindos de Sodoma. Pensei a princípio que fossem os pastores inimigos que vinham arrancar-me o rebanho conquistado com amor. Tal receio logo desapareceu dando lugar a um sentimento de muita alegria, quando descobri que eram os meus pastores fiéis. Ele foram aproximando-se em pequenos grupos de doze, até alcançarem o total de 300 pastores. Ao olhar para eles, pude notar em seus semblantes os sinais de uma grande luta espiritual que tiveram de enfrentar, para estarem do meu lado. Contaram-me da experiência de muitos companheiros que, desanimados, haviam lançado fora o azeite e a lã de seus vasos, retornando para as suas tendas. Falaram-me de como, na noite anterior, haviam aprendido a amar a luz de meu jarro, que para eles tornara-se como uma estrela que os guiava na escuridão.

Alegrava-me com a presença de meus humildes pastores, quando vieram em nossa direção Aner, Escol e Manre, acompanhados por 15 homens armados; Eram eles fiéis amigos que, conhecendo os perigos que enfrentaríamos naquele vale, vieram socorrer-nos. Para que não atrapalhassem o plano divino, pedi-lhes que permanecessem escondidos até o alvorecer, quando receberiam orientações sobre como participar da missão. Comecei a orientar os pastores, seguindo as instruções da voz divina que soava de dentro da chama: A primeira tarefa dos pastores seria cuidar do rebanho até o anoitecer. Ao retornarem, ordenei que amarrassem os novelos de lã embebidos em azeite na ponta de seus bordões, colocando-os dentro dos jarros que deveriam ser mantidos suspensos de boca para baixo. Passei a incendiá-los com o fogo de minha labareda, até que as trezentas tochas ficaram ardendo, mas, ocultas no interior daqueles vasos.

Ordenei a quarenta de meus corajosos pastores que, no momento indicado por um sinal, deveriam avançar silentes para o meio do acampamento, circundando todos os cativos que jaziam amontoados no meio do arraial. Ao mesmo tempo, os 260 pastores restantes deveriam circundar todo o acampamento, aguardando pelo sinal de quebrarem os vasos com os chifres. Orientado pela voz da chama, indiquei-lhes os sinais: quando a última tocha se apagasse no acampamento, deveriam ficar atentos, pois uma pequena lamparina seria acesa por um dos cativos. Assim que a lamparina começasse a arder, deveriam correr cada um para o seu lugar, evitando qualquer ruído para que não fossem notados. O sinal para quebrarem os vasos com os chifres, erguendo bem alto a tocha, era o apagar da lamparina.

Depois dessas orientações, os 260 pastores, ocultos pelas sombras da noite, espalharam-se pelo vale, e ficaram esperando pelo momento de se posicionarem ao redor do acampamento. Enquanto isso, os 40 se posicionaram próximos a uma passagem vulnerável, através da qual haveriam de alcançar os cativos. Já era alta noite quando a tocha do último soldado apagou-se, sobrevindo completa escuridão e silêncio sobre o arraial. Entre os cativos, havia um homem que naquela noite vivia a maior angústia de sua vida. Era o meu sobrinho que, depois de tornar-se alvo de tantos abusos e humilhações, tomara conhecimento do castigo que os aguardava pelo alvorecer. Naquela noite, Ló tinha seus pensamentos voltados para o seu tio. Lembrava-se com arrependimento do momento em que me deixara, mudando-se para as campinas de Sodoma. Em seu desespero, sentiu desejo de rever minha face e pedir-me perdão por ter-se afastado de mim. Justamente naquele momento, Ló foi atraído pelo brilho de uma tocha que ardia sobre o outeiro. Ao fitar o brilho, imaginou estar tendo uma visão, pois o mesmo revelava-lhe a face de seu querido tio. Querendo mostrar-me o seu rosto, Ló apalpou em meio às trevas, até encontrar uma pequena lamparina que trouxera em seu alforje. Frustrado, percebeu que não havia nela nenhum azeite. Concluiu que a lâmpada apagada e seca era um símbolo de sua vida vazia e sem fé. Sem desviar os olhos de meu rosto iluminado pela chama do jarro, num desesperado gesto de fé, Ló apalpou o pavio de sua lamparina, descobrindo nele um resto de azeite. Curvando-se, passou a ferir as pedras do fogo, até que uma faísca saltou para o pavio. Sem que soubesse, Ló estava comandando, com seus gestos, os passos para um grande livramento.

Os trezentos pastores ao verem o tênue brilho da lamparina, encaminharam-se rapidamente para os seus postos e ficaram aguardando o apagar da pequena chama. Desde o momento em que Ló erguera-se com sua diminuta chama, fiquei olhando para os seus olhos que fitavam os meus. Vi que sua face trazia sinais de indizível angústia e maus tratos. Mesmo assim pude ler em seus olhos que a esperança e a fé ainda não o haviam abandonado.O foguinho de sua lamparina, contudo, não resistiria por muito tempo. Era necessário que se apagasse, para sinalizar a grande vitória. Quando a escuridão voltou a cobrir a face de Ló, meus trezentos pastores arremeteram os chifres contra os vasos que mantinham ocultas as tochas ardentes. Um forte ruído, como de cavalaria em combate, ecoou por todas as partes, enquanto as tochas eram suspensas pelos bordões. Os trezentos chifres, usados até então para conduzir o rebanho, soavam agora como trombetas de conquistadores.

Todo o acampamento despertou num único salto e, sem saberem como escapar de tão terrível investida que partia de fora e de dentro, os soldados começaram a lutar entre si, enquanto meus pastores permaneciam em seus lugares, fazendo soar os chifres. Os cativos ficaram muito espantados a princípio, mas pouco a pouco foram tomando consciência do grande livramento que estava se operando em seu favor. Quando amanheceu, revelou-se aos nossos olhos um cenário de completa destruição. Todo o arraial estava coberto por milhares de corpos rasgados pelas próprias espadas e lanças. Somente uns poucos conseguiram fugir daquele acampamento de morte, mas foram perseguidos pelos meus 18 aliados que estavam armados, sendo alcançados em Hobá, situada à esquerda de Damasco. Enquanto isso, os cativos, agora libertos, recuperavam todas as riquezas que haviam sido saqueadas pelos inimigos.

Capítulo V

Do cimo do outeiro, enquanto eu vibrava com a alegria dos cativos naquela manhã de liberdade, ouvi a voz do Eterno falando-me do meio da chama:

–           Este livramento que hoje se concretiza, representa o livramento que hei de operar nos últimos dias, salvando os remanescentes de teus filhos, do cerco de numerosas nações que se aliarão a Gog com o propósito de destruí-los. Naquele dia em que triunfarem sobre o meu povo, a minha indignação será mui grande, e contenderei com ele por meio da peste, do fogo e do sangue; chuva inundante, grandes pedras de saraiva, fogo e enxofre farei cair sobre ele, sobre as suas tropas e sobre os muitos povos que estiverem com ele. Assim, eu me engrandecerei, vindicarei a minha santidade e me darei a conhecer aos olhos de muitas nações; e saberão que eu sou o Senhor. E sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o Espírito de Graça e de Súplicas; olharão para Mim a quem traspassaram, prantear-me-ão como quem pranteia por um unigênito e chorarão por mim como se chora amargamente pelo primogênito. Naquele dia, haverá uma fonte aberta para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém, para remover o pecado e a impureza.(1).

A chama que para mim tornara-se uma representação do Messias prometido, apagou-se no momento em que desci ao encontro dos pastores e dos muitos cativos agora libertos. Cheios de alegria e de admiração, todos queriam saber como tornara possível tão grande livramento, somente com a utilização daquelas tochas e chifres. Falei-lhes da importância daquele fogo que se desprendera do Altar, para libertá-los naquele vale, identificando-o com o Messias Salvador. Ao ver que todos carregavam em seus corpos e mantos a sujeira da escravidão, convidei-os a seguirem-me até o rio Jordão, onde poderiam banhar-se para purificação de seus pecados, pois aquele era o Yom Kipur, o dia do perdão. Somente três pessoas atenderam ao convite: Ló e suas duas filhas mais novas. Os demais retornaram contaminados para suas casas.

Antes de partir, o rei de Sodoma veio ao meu encontro, prometendo dar-me todas as riquezas recuperadas naquela manhã. Eu recusei sua oferta, para que jamais alguém possa dizer que eu me enriqueci com aquele saque. Permanecemos acampados às margens do rio Jordão, nas proximidades de Jerico por quatro dias. Naqueles dias de descanso, todos ficaram livres das impurezas, deixando-as nas águas do Jordão. Esse era um preparo especial para nossa subida a Salém, onde comemoraríamos a vitória nos dias de Sukot.

Cheios de alegria, iniciamos uma caminhada ascendente rumo à cidade de Salém, inconscientes da feliz surpresa que nos aguardava. Eu seguia à frente tendo ao meu lado Ló e suas duas filhas, e atrás vinham os 300 pastores, conduzindo o grande rebanho. À medida em que avançávamos, comecei a notar que o meu jarro tornara-se muito pesado. Ao baixá-lo, fiquei surpreso ao descobrir que estava repleto de pérolas e pedras preciosas de variados tamanhos e brilhos. Ao avistarmos ao longe a alva cidade, começamos a ouvir sons de uma grande festa. Acordes harmoniosos repercutiam pelos montes, enquanto avançávamos pelo caminho. Minha curiosidade em conhecer aquela cidade e o seu jovem rei era imensa, pois muito já ouvira sobre sua grandeza e fama. Tratava-se de um reino diferente, onde os súditos eram treinados não no manejo de arcos e flechas, mas no domínio de instrumentos musicais. Melquisedeque, o seu jovem rei, regia a todos com um cetro muito especial: um alaúde, pelo qual pagara um preço elevado.

Enquanto crescia em mim a alegria por estar nos aproximando da cidade do grande Rei, vimos uma multidão vestida de linho fino, puro e resplandecente, saindo ao nosso encontro. Todos tangiam instrumentos musicais e cantavam um hino de vitória. À frente da multidão vinha um jovem tocando um alaúde, trazendo na fronte uma coroa repleta de pedras preciosas, que brilhavam sob a claridade do sol poente. Eu tive a certeza de que aquele era o tão aclamado rei de Salém.

Ao nos encontrarmos, ficamos surpresos com a saudação que nos fizeram. Inclinando-se diante de mim, Melquisedeque afirmou:

–           Bendito és tu Abraão, servo do Deus Altíssimo, que possui os Céus e a Terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos (2).

Capítulo VI

Surpresos pela festiva recepção, fomos introduzidos na cidade, onde a beleza das mansões e jardins nos causou muita admiração. Tudo ali era puro e cheio de paz. Salém estava em festa, pois teria início naquele entardecer a festa de Sukot. Fomos recebidos no palácio real, edificado sobre o monte Sião. Ali, uma nova surpresa nos aguardava: a grande sala do trono estava toda adornada com representações de nossa vitória sobre os inimigos. Havia no centro uma mesa muito comprida, coberta por toalhas de linho fino adornadas com fios de ouro e pedras preciosas. Sobre a mesa estavam 304 coroas, cada uma trazendo a inscrição do nome de um vencedor. Num gesto que novamente nos surpreendeu, Melquisedeque, tomando as coroas, começou a colocá-las na cabeça de cada um de nós, começando por Ló e suas filhas. Estávamos todos admirados pelo fato do rei de Salém conhecer-nos individualmente, e por Ter preparado aquelas coroas muito antes de sermos vencedores. Eu observava a alegria de meus companheiros coroados quando, tomando uma coroa semelhante à sua, o rei de Salém dirigiu-se a mim com um sorriso. Ao levantá-la sobre minha cabeça, notei algo que até então não havia percebido: suas mãos traziam cicatrizes de profundos ferimentos. Vencido por um sentimento de gratidão, prostrei-me aos seus pés e, comovido, beijei suas bondosas mãos, banhando-as com minhas lágrimas.

Ao levantar-me, perguntei-lhe o significado daquelas cicatrizes. Com um meigo sorriso, ele prometeu contar-me a história daquele próspero reino, e do quanto lhe custara a sua paz.

Depois de coroar-nos, Melquisedeque nos fez assentar ao redor da grande mesa, e passou a servir-nos pão e vinho. A partir daquele momento, passamos a honrá-lo como sacerdote do Deus Altíssimo. Num gesto de gratidão, tomei o jarro que se enchera de pérolas e o coloquei aos pés do rei. Tomando-o nos braços, ele passou a acariciá-lo sem atentar para o brilho das jóias. Expressando gratidão por aquela oferta, ele disse-me que aceitaria o jarro; Quanto às pérolas e pedras preciosas, ele aceitaria somente o dízimo delas. Imediatamente passei a contar as jóias, separando as mais belas para o rei. Havia um total de 1440, das quais lhe entreguei 144. Ele as guardou cuidadosamente em uma caixinha de ouro puro, em cuja tampa havia lindos adornos marchetados de pedras preciosas. Depois de receber o dízimo que simbolizava o grande livramento operado por Deus na planície, Melquisedeque chamou para junto de si um de seus súditos que era mestre em adornos e pinturas, ordenando-lhe embelezar o jarro com uma linda gravura que retratasse o momento em que eu o ofertei. Enquanto o jarro era pintado, Melquisedeque passou a contar-me a história de seu reino, desde sua fundação até aquele momento em que estávamos comemorando a grande vitória sobre os inimigos.

Ao devolver-me o jarro, agora honrado pela mais bela gravura e inscrições que exaltavam a justiça e o amor, o rei de Salém ordenou-me levá-lo com aquelas jóias. Durante seis anos eu e meus pastores deveríamos contar para todos a história daquele jarro que transportara a chama vitoriosa do altar. A todos aqueles que, com arrependimento, aceitassem a salvação representada por sua história, deveríamos oferecer uma pedra preciosa ou pérola. Ao fim dos seis anos, as jóias acabariam. Já não haveria oportunidade de salvação. Sobreviria então o sétimo ano, no qual haveria um tempo de grande angústia e destruição, quando somente existiria proteção para aqueles que possuíssem as jóias. Por essa ocasião, as cidades da planície seriam totalmente destruídas pelo fogo do juízo, e os demais povos impenitentes, seriam dizimados por terríveis pragas.

Capítulo VII

Depois de revelar-nos sobre os sete anos que ainda restavam, dentro dos quais teríamos uma missão importante a cumprir, Melquisedeque nos afirmou que nossa experiência consistia numa parábola que representa a história universal, com ênfase no livramento dos filhos de Israel nos últimos dias. Ele o previu com as seguintes palavras:

–           Ao chegar a plenitude dos tempos, todos os esforços humanos em busca da paz se frustrarão. Naquele tempo, numerosas nações se aliarão contra o reino de Jerusalém, e sobrevirá um tempo de angústia qual nunca houve para os filhos de Israel. Depois de um terrível conflito, verão numerosos exércitos invadindo sua terra, numa aparente vitória. No momento mais difícil, quando as suas forças estiverem esgotadas, o Eterno intervirá em Seu favor, lançando por terra os numerosos inimigos.(3)

–           Toda a humanidade testemunhará, com espanto as cenas de livramento. Naquele dia, muitos povos e poderosas nações se posicionarão ao lado do Senhor dos Exércitos. Naquele dia acabará a cegueira dos filhos de Jacó, e olharão para Aquele a quem traspassaram, e chorarão amargamente por ele como se chora por um filho unigênito. Naquele dia os eleitos de Deus compreenderão as palavras do Livro:

–           Ouvi-me, vós, que estais à procura da justiça, vós que buscais o Eterno. Olhai para a rocha da qual fostes cavados, para a caverna da qual fostes tirados. Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, aquela que vos deu a luz. Ele estava só quando o chamei, mas eu o abençoei e o multipliquei. O Senhor consolou a Sião, consolou todas as suas ruínas; ele transformará o seu deserto em um Éden e as suas estepes em um jardim. Nela encontrarão gozo e alegria, cânticos de ações de graças e som de música.(4)

–           Naquele dia os habitantes de Jerusalém trocarão suas armas por instrumentos musicais e os remidos, consolados pela grandiosa revelação de Deus, com alegria cantarão:

–           “Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz, do que proclama boas novas e anuncia a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina! Porque o Eterno consolou o seu povo, ele redimiu Jerusalém. O Senhor descobriu o seu braço santo aos olhos de todas as nações, e todas as extremidades da terra viram a salvação do nosso Deus.(5)

–           O grande livramento se cumprirá no início de uma nova semana de anos, ao fim de um ciclo determinado envolvendo dez jubileus. Durante seis anos, toda a humanidade, iluminada pela maior revelação do amor e da justiça de Deus, terá oportunidade de romper com o império do pecado, unindo-se aos filhos de Israel em sua marcha de purificação e restauração do reino da luz. Então acontecerá que todos os sobreviventes das nações que marcharam contra Jerusalém, subirão, ano após ano, para prostrar-se diante do Rei e Senhor dos Exércitos, e para celebrar a festa de Sukot. E acontecerá que aquele das famílias da Terra que não subir e não vier, haverá contra ele a praga com que o Eterno ferirá as nações que não subirem para celebrar a festa de Sukot.(6).

–           Naqueles anos de oportunidade, soará por todas as partes do mundo o último convite de misericórdia, num apelo para que todos os pecadores se arrependam e se unam ao Criador numa eterna aliança .Por todas as partes se ouvirá o brado divino:

–           Observai o direito e praticai a justiça, porque a minha salvação está prestes a chegar e a minha justiça a manifestar-se. Bem-aventurado o homem que assim procede, o filho do homem que nisto se firma, que guarda o sábado e não o profana e que guarda sua mão de praticar o mal. Não diga o estrangeiro que se entregou ao Senhor: – Naturalmente Deus vai excluir-me do seu povo, nem diga o eunuco: – Não há dúvida, eu não passo de uma árvore seca. Pois assim diz o Senhor aos eunucos que guardam os meus sábados e optam por aquilo que é a minha vontade, permanecendo fiéis à minha aliança: Hei de dar-lhes, na minha casa e dentro dos meus muros, um monumento e um nome mais precioso do que teriam com filhos e filhas; hei de dar-lhes um eterno nome, que não será extirpado. E, quanto aos estrangeiros que se entregarem ao Senhor para servi-lo, sim, para amar o nome do Eterno e tornarem-se servos seus, a saber, todos os que se abstêm de profanar o sábado e que se mantêm fiéis à minha aliança, trá-los-ei ao meu santo monte e os cobrirei de alegria na minha casa de oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão bem aceitos no meu altar. Com efeito, a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos.(7)

–           Na última semana de anos, os filhos de Belial se aliarão contra os filhos da Luz, e os acusarão como causadores de toda a desarmonia no mundo. Em oposição à santificação do sábado que é o sinal da aliança entre Deus e seus escolhidos, muitas nações imporão outro dia para o culto, não podendo comprar nem vender todos aqueles que se mantiverem fiéis à aliança do Eterno.(8)

–           Ao fim dos seis anos, o rolo se fechará e não haverá mais oportunidade de salvação. Desprotegidos, os ímpios sofrerão os juízos divinos que se manifestarão nas sete últimas pragas. Desesperados, muitos correrão de um lado para o outro em busca da mensagem do rolo, mas não a encontrarão. Durante o sétimo ano, os escolhidos de Deus passarão por grandes provas, pois serão condenados pelas nações como os causadores de todo o caos que sobrevirá ao mundo em conseqüência dos juízos.(9)

–           Ao consumarem-se os sete anos, o Messias se manifestará nas nuvens do céu, acompanhado por todas as hostes celestes, para salvação de seu povo. Ao tocar Sua trombeta, os fiéis falecidos ressuscitarão revestidos de glória; os vivos vitoriosos serão transformados num abrir e fechar de olhos, recebendo corpos perfeitos. Juntos, todos os remidos serão arrebatados para a Nova e Eterna Jerusalém, numa viagem inesquecível que começará no primeiro dia da festa de Sukot. Depois de sete dias de feliz ascensão, chegarão à Cidade Santa para comemorarem, diante do trono ,no oitavo dia da festa, a grande vitória. Como que a sonhar, os resgatados do Senhor entrarão na Cidade Santa, encontrando ali o jardim do Éden, no meio do qual eleva-se o monte Sião, o lugar do trono de Deus. Coroados pelo Messias, os remidos entoarão o cântico da vitória, fazendo vibrar por todo o espaço os acordes de incontáveis instrumentos musicais. (10)

Capítulo VIII

Depois de proferir todas essas predições, Melquisedeque disse-nos novamente que toda a experiência que estávamos vivendo era prefigurativa, e teríamos de cumprir ainda importantes tarefas nos próximos sete anos: Durante seis anos a história do jarro deveria ser contada aos pecadores, dando-lhes a oportunidade de arrependerem-se, apossando-se das jóias que simbolizam salvação; ao fim dos seis anos, na véspera de Rosh Hashanah as pérolas acabariam, ficando fora do abrigo todos aqueles que não a receberam.

Ao ouvir tais palavras do rei de Salém, sobreveio-me grande angústia, por lembrar-me dos últimos passos de Sara. Eu temia que ela, em sua incredulidade, não aceitasse uma pérola. Se isto acontecesse, os meus lindos sonhos cairiam por terra, pois não conseguiria ser feliz em sua ausência. Lendo nos meus olhos a angústia, Melquisedeque consolou-me com uma promessa:

–           Abraão, daqui a seis anos o Eterno visitará sua tenda, e sua esposa será curada de sua aridez. Ela se converterá e lhe dará um filho que se chamará Isaque.

Ao findar a festa de Sukot, retornamos às nossas tendas junto ao Carvalho de Mambré. À medida que íamos avançando pelo caminho, muitas pessoas nos cercavam, admirados pela beleza do vaso repleto de pérolas. A todos contávamos a história de sua chama redentora, e dávamos as jóias àqueles que aceitavam a salvação. Quando chegamos ao Carvalho de Mambré, uma multidão de pessoas nos esperava. Muitos tinham ouvido falar do miraculoso livramento operado através daquele jarro que fora alvo de tanto menosprezo. Agora, estavam todos emudecidos ao vê-lo glorificado.

Juntamente com os meus pastores, continuamos a proclamar o infinito amor de Deus revelado pela chama. O número daqueles que procuravam pelas pérolas ia aumentando, dia após dia, e todos éramos felizes. Melquisedeque enviou-nos muitos de seus súditos que eram mestres em música, para realizarem uma missão importante. Eles apresentavam a história de seu reino de paz por meio de lindos cânticos que exaltavam o poder da humildade e do amor. Sua música tinha o poder de transformar corações infelizes, dando-lhes esperança e alegria em viver. Para que se propagasse a influência restauradora da música de Salém, eles ensinavam a muitos a cantarem tocarem flautas e alaúdes, enviando-os depois de certo tempo como mensageiros de sua missão de paz.

Os dias, os meses e anos foram-se passando, e as pérolas e pedras preciosas foram diminuindo dentro do jarro. Estávamos vivendo agora os últimos meses do sexto ano, que era o último da oportunidade. À medida em que os dias se passavam, aumentava em meu coração uma preocupação e uma angústia, pois Sara até então não tomara interesse em apossar-se de sua pérola, apesar de meus constantes rogos.

Naqueles momentos de aflição em que clamava a Deus pela salvação de Sara, meu único consolo eram as últimas palavras do rei de Salém, de que ao fim dos seis anos ela seria transformada. Vivíamos agora os últimos dias do sexto ano. A consciência de que o tempo estava se esgotando, fazia com que muitas pessoas nos procurassem de manhã até à noite, para apossarem-se das jóias da salvação. Com o coração ferido por uma indizível aflição, eu insistia com Sara, procurando convencê-la de sua necessidade em tomar, o quanto antes, uma pérola, pois as mesmas estavam ficando escassas. Sem atentar para a minha angústia, Sara desdenhava de meus apelos, afirmando que aquelas pérolas não tinham nenhum valor para ela.

Capítulo IX

Depois de uma noite de vigília em que, desesperadamente, procurei em vão convencer minha amada a apossar-se uma pérola, aceitando a salvação representada por aquele jarro, vi o sol surgir trazendo a luz do último dia, véspera de Rosh Hashaná. Ao olhar para dentro do vaso naquela manhã, vi que restavam apenas três pérolas. Ao admirar-lhes o brilho, comecei a imaginar que a maior seria para o meu filho prometido, a de tamanho intermediário seria a de Sara, e a menor seria a minha. Esse pensamento trouxe-me alívio e esperança. Mas, ao mesmo tempo, comecei a preocupar-me com a possibilidade de chegarem pessoas procurando por elas. Se viessem, eu não poderia negá-las.

Tomado por essa preocupação, permaneci sentado sob o Carvalho de Mambré. Na viração do dia, sobreveio-me um grande estremecimento quando vi ao longe três peregrinos que caminhavam rumo à nossa tenda. Comecei a clamar ao Eterno para que eles mudassem de rumo, mas meus clamores não foram atendidos. Dominado por uma indizível amargura, corri até eles e, depois de prostrar-me, convidei-os para a sombra. Tomando uma bacia com água, passei a lavar-lhes os pés, limpando-os da poeira do caminho. Ao ver os pés feridos e calejados daqueles homens, senti compaixão por eles. Compreendi que haviam vindo de muito longe, enfrentado perigos e desafios, com o propósito de pegarem em tempo as pérolas. Vi que eles eram mais merecedores que eu, Sara e nosso filho prometido.

Ao lavar os pés do terceiro, meu coração que, até então estava aflito, encheu-se de paz e alegria. Imaginava naquele momento, quão terrível seria se aquele terceiro peregrino não houvesse se unido aos dois primeiros naquela caminhada. Nesse caso eu seria obrigado a tomar da última pérola, subindo sem minha amada para Salém. Se eu tivesse de passar por essa experiência, a pérola que simboliza a alegria da salvação, se tornaria num símbolo de minha solidão e tristeza, pois a vida longe do carinho de Sara, seria para mim o maior castigo, como a própria morte.

Depois de lavar-lhes os pés, comecei a servir-lhes o alimento que foi especialmente preparado para eles. Enquanto os servia em silêncio, fiquei esperando pelo momento em que eles perguntariam pelas pérolas. Mas, sem revelar nenhuma pressa, eles falavam sobre a longa caminhada que fizeram, e sobre as cidades por onde haviam passado. Eu perguntei-lhes se conheciam Salém. Eles responderam-me afirmativamente, acrescentando que naqueles seis anos, muitas obras haviam sido realizadas naquela cidade, em preparação para uma grande festa que estava para realizar-se dentro de mais um ano, por ocasião da festa de Sukot.

As palavras daquele terceiro peregrino, o mais falante deles, começaram a trazer-me, misteriosamente, um sentimento de esperança. Ao olhar para os seus olhos, vi que ele se parecia com Melquisedeque. Lembrava-me da última promessa feita pelo rei de Salém, quando o terceiro peregrino perguntou-me com um sorriso:

–           Abraão, onde está Sara, sua mulher?!

Atônito, perguntei-lhe:

–           Como você sabe o meu nome e o nome de minha esposa?

O peregrino respondeu-me:

–           Não somente sei o nome de vocês, como também sei que daqui a um ano vocês terão um filho que será chamado Isaque.

Ao ouvir as palavras do visitante, corri para dentro da tenda a fim de chamar minha esposa, para que ouvisse as palavras daquele peregrino. Ao vê-la, o peregrino perguntou-lhe:

–           Sara, por que você riu de minhas palavras?

Assustada, Sara, respondeu:

–           Eu não ri, meu Senhor!

–           Não diga que não riu, pois eu a vi rindo dentro da tenda. Afirmou o peregrino.

Consciente de estar diante de alguém que conhecia o seu íntimo, Sara perguntou-lhe:

–           Quem és tu Senhor?!

– Eu sou a Chama que se desprendeu do fogo do Altar para estar no jarro que você rejeitou! Eu sou o Messias, o Deus que sofre humilhações e desprezo por amor ao seu povo!

Tendo feito esta revelação, o peregrino estendeu suas mãos sobre a cabeça de Sara para abençoá-la. Somente então vi que elas estavam marcadas por cicatrizes semelhantes às do rei de Salém. O peregrino, com muita ternura, começou a falar ao coração de minha amada, resgatando-a de sua incredulidade:

–           Sara, você é preciosa aos meus olhos! Todo o seu passado de descrença e infertilidade está perdoado! Tenho para você um futuro glorioso, pois você se tornará mãe de muitos povos e nações!

Depois de dizer estas palavras, o nobre visitante encaminhou-se para o jarro e, inclinando-se, tomou dele as três pérolas restantes. Dirigindo-se a Sara, entregou-lhe duas pérolas, e disse-lhe:

– Uma é para você e a outra é para o seu filho Isaque.

Com a vida transformada pelo amor do Eterno, Sara prostrou-se agradecida aos pés daquele peregrino que a salvara no último momento. Quando a vi prostrar-se submissa, meu coração por tantos anos aflito, rompeu-se em lágrimas de alegria e gratidão, e caí aos pés de meu Redentor e Rei. Depois de consolar-nos com a certeza de nossa eterna salvação, o peregrino entregou-me a última pérola. Quando apertei-a em minhas mãos, senti grande luz e paz inundar-me todo o ser, e passei a louvar ao Eterno pela certeza de que teria para sempre ao meu lado minha querida Sara e o filho que, segundo a promessa, dentro de um ano nasceria.

Capítulo X

Depois destas coisas, o Eterno despediu-se de Sara e dos pastores que ali se encontravam, e convidou-me a acompanhá-los até o outeiro que fica defronte do vale. Ao chegarmos àquele lugar, o Eterno despediu-se de seus dois companheiros, enviando-os para uma missão especial em Sodoma.

Do cimo do monte contemplávamos os férteis vales e florestas que, como um paraíso, estendiam-se em ambas as margens do rio Jordão, circundando as prósperas cidades, dentre as quais destacavam-se Sodoma e Gomorra.

Fora sobre aquela colina que, depois da contenda entre os meus pastores e os pastores de Ló, dei-lhe a oportunidade de escolher o rumo a seguir, pois não poderíamos permanecer juntos. Atraído pelas riquezas da campina, ele decidiu mudar-se para lá. Ao olhar para o meu companheiro que ficara silente desde o momento em que avistamos a campina, fiquei surpreso ao vê-lo chorando. Perguntei-lhe o motivo de sua tristeza, e Ele, soluçando, respondeu:

–           Este é para mim um dia de muita tristeza, pois pela última vez meus olhos podem pousar sobre este vale fértil. Choro pelos habitantes dessas cidades que não sabem que os seus dias acabaram!

A declaração do Messias trouxe-me à lembrança todos aqueles cativos que haviam sido libertos seis anos antes. Infelizmente, quase todos rejeitaram o banho da purificação, retornando imundos para suas casas. Unicamente Ló e suas filhas aceitaram a salvação, tomando posse de suas pérolas. Pensando numa possibilidade de livramento para aquele povo, perguntei ao Eterno:

–           E se por acaso existir, naquelas cidades, cinqüenta pessoas justas; mesmo assim elas serão destruídas?

O Senhor disse-me que se houvesse cinqüenta justos, toda a planície seria poupada.

–           E se houver 45 justos?

–           Se houvesse ali 45 justos, todas aquelas cidades seriam poupadas.(11)

Continuei com minhas indagações até chegar ao número dez. O Eterno disse-me que, se houvesse dez justos naquelas cidades, toda a planície seria poupada. Torturado por uma indizível agonia de espírito, o Senhor voltou a chorar amargamente, enquanto com voz embargada, pronunciava um triste lamento:

–           Sodoma e Gomorra, quantas vezes quis Eu ajuntar os seus filhos, como a galinha ajunta os seus pintainhos debaixo das asas, mas você não aceitou minha proteção. Por que você trocou a luz da minha salvação pelas trevas deste reino de morte?! Meus ouvidos estão atentos em busca de pelo menos uma prece, mas tudo é silêncio! Minhas mãos estão estendidas, prontas a impedir o fogo do juízo, mas vocês recusam o meu socorro!

Curvando-me ao lado de meu companheiro sofredor, uni-me a Ele na lamentação. Naquele momento de dor, tive a certeza de que Melquisedeque também sofria por todos aqueles que haviam trocado o amor e a paz de Salém pelas ilusões daquele vale de destruição. Depois de um longo pranto, o Messias consolou-me com a revelação de que os seus dois companheiros encontravam-se naquele momento em Sodoma, com a missão de salvar Ló e suas filhas, livrando-os da morte. Suas palavras trouxeram-me alívio, e prostrei-me agradecido aos seus pés.

Capítulo XI

Antes de partir, o Eterno encarregou-me de uma missão, dizendo:

–           Tome um rolo vazio e registre nele a história do vaso e a história de Salém, conforme ouviu dos lábios de Melquisedeque. Dentro de um ano, você e todos aqueles que aceitaram a salvação, deverão subir à Salém para a festa de Sukot. Naquele dia, entregará ao rei de Salém o jarro, oferecendo dentro dele, como presente, o rolo.

Naquela mesma tarde, em obediência às ordens do Senhor, comecei a registrar a história vivida por mim e por meus pastores, desde o momento em que parti rumo ao vale, levando sobre as costas o vaso com sua labareda. No dia seguinte, o sol já ia alto, quando, ao mencionar a cidade de Sodoma no manuscrito, lembrei-me que aquele era o dia de sua destruição. Com o coração acelerado, corri para lá e fiquei espantado com o cenário que se estendeu diante de meus olhos: em lugar daquele vale fértil, semelhante a um paraíso, havia um deserto fumegante, sem nenhuma vida. No lugar das cidades de Sodoma e Gomorra, havia uma cratera, para onde as águas do mar salgado escorriam.

Abalado ante essa visão de destruição, retornei à tenda com o coração entristecido. A lembrança de tantas pessoas que, por rejeitarem o perdão divino, haviam sido consumidas pelo fogo, deixou-me profundamente abalado. Nos dias seguintes, não encontrei forças para escrever. Retornei outras vezes ao outeiro, com a esperança de que tudo aquilo fosse um pesadelo, mas em lugar do vale fértil eu somente conseguia enxergar aquele caos.

Demorou vários dias para que eu voltasse a ter ânimo para prosseguir com os escritos do rolo.

Fim da primeira parte

Referências: (1)(Ezequiel 38; Zacarias 12: 10; (2) Genesis 14:18-24; (3)Jeremias 30:7-8; (4)

Isaias 51:1-3;(5)Isaias 52:7; (6)Zacarias 14:16-19; (7)Isaias 56:1-8;(8) Apocalipse 13: 15-18;

(9)Apocalipse 15; Sonfonias 1:13-18; (10)S.Mateus 24:30,31; Apocalipse 14:1-5; 21:1-5; (11)

Gênesis

Livro de Melquisedeque

Segunda parte

A História de Salém

Capítulo I

Esta é a história de Salém, segundo ouvi dos lábios de Melquisedeque por ocasião da festa de Sukot, cinco dias depois do livramento de Ló e suas filhas. Tudo começou com um sonho no coração de um homem chamado Adonias. Ele possuía muitas riquezas, mas a nada prezava mais que a justiça e a paz que nascem da sabedoria e do amor. Cansado com as injustiças que predominavam por toda a terra de Canaã, Adonias resolveu edificar um reino que fosse regido por leis de amor e de justiça. O nome da capital desse reino seria Salém, a Cidade da Paz. Os súditos de Salém não empunhariam arcos nem flechas, mas seriam treinados na arte musical. Cada habitante de Salém teria sempre ao alcance de suas mãos um instrumento musical, para expressar por meio dele a paz e a alegria daquele novo reino. Juntos formariam uma poderosa orquestra na luta contra a desarmonia que nasce do orgulho e do egoísmo.

O primeiro passo de Adonias para a concretização de seu plano, foi elaborar as leis do novo reino, as quais ele escreveu em um pergaminho. Os súditos de Salém não poderiam mentir, furtar, odiar, nem matar seus semelhantes. O orgulho e o egoísmo eram apontados como causa de todo o mal, portanto, não poderiam existir naquele lugar de paz. As leis do pergaminho requeriam a prática da humildade, da sinceridade, da amizade, e, acima de tudo, do amor, que é a maior de todas as virtudes.

Depois de registrar no pergaminho as leis que regeriam aquele reino, Adonias passou a arquitetar Salém. Seria uma cidade a princípio pequena, com habitações para mil e duzentas pessoas. Como lugar de sua edificação, foi escolhida uma região alta de Canaã, ao ocidente do Monte das Oliveiras. Em pouco tempo, a realização de Adonias começou a atrair pessoas de todas as partes que, de perto e de longe, vinham para conhecer os palácios e as mansões que estavam sendo edificados. Admirados ante a beleza daquela cidade tão alva, os visitantes perguntavam sobre quem seriam os seus moradores. Adonias mostrava-lhes o pergaminho, dizendo que Salém destinava-se aos limpos de coração – aqueles que estivessem dispostos a obedecerem suas leis.

Capítulo II

A edificação da cidade foi finalmente concluída, e Salém revelou-se formosa como uma noiva adornada, à espera de seu esposo. Assentado em seu trono, Adonias examinava os numerosos pretendentes que chegavam de todas as partes, desejosos em ser súditos daquele reino. Aqueles que, prometendo fidelidade às leis eram aprovados, recebiam três dotes do rei: o direito a uma mansão, vestes de linho fino e um instrumento musical no qual deveriam praticar.

A cidade ficou finalmente repleta de moradores. Cheio de alegria, Adonias convocou a todos para a festa de inauguração de Salém, no decorrer da qual proclamou um decreto que determinaria o futuro daquele reino, dizendo:

–           A partir deste dia, que é o décimo do sétimo mês, seis anos serão contados, nos quais todos os moradores serão provados. Somente aqueles que permanecerem leais, progredindo na prática das leis do pergaminho, serão confirmados como herdeiros deste reino de paz. Aqueles que forem enlaçados por culpas e transgressões serão banidos pelo juízo.

As palavras do rei levaram todos a um profundo exame de coração, e alegraram-se com a certeza de que alcançariam vitória sobre todo o orgulho e egoísmo, que são as raízes de todos os males.

Adonias tinha um único filho a quem dera o nome de Melquisedeque. A beleza, ternura e sabedoria desse filho amado haviam sido sua inspiração para a edificação de seu reino. Melquisedeque tinha doze anos de idade, quando Salém foi inaugurada. Era plano de Adonias coroá-lo rei sobre os súditos aprovados, ao fim dos seis anos. Este plano, ele o manteria em segredo até o momento devido.

O príncipe, com suas virtudes e simpatia, tornou-se logo muito querido de todos em Salém. Ele tinha sempre nos lábios um sorriso e uma palavra de carinho. Apreciava estar junto aos súditos em seus lares, recitando-lhes as leis do pergaminho em forma de lindas canções que vivia a compor. Sua presença trazia ao ambiente uma atmosfera de felicidade e paz. Esse amado príncipe possuía, de fato, todas as virtudes necessárias para ser rei de uma Salém vitoriosa.

Adonias edificara uma mansão especial junto ao palácio, com o propósito de ofertá-la ao súdito cuja vida expressasse mais perfeitamente as leis do pergaminho. Diariamente ele observava os moradores, procurando entre eles essa pessoa a quem desejava honrar. Passeava pelas alamedas de Salém, quando, por entre o trinar de pássaros, Adonias ouviu uma voz semelhante a de seu filho. Ao voltar-se para ver quem era, encontrou um belo jovem que cantarolava uma canção. Ao contemplar em sua face o brilho da sabedoria e da pureza, Adonias alegrou-se por haver encontrado aquele a quem poderia honrar. Aquele jovem, que era uma cópia fiel do príncipe, chamava-se Samael. Colocando-lhe um anel no dedo, o rei conduziu-o ao palácio, onde foi recebido por Melquisedeque que ofereceu-lhe muitos presentes, entre os quais o direito de estar sempre ao seu lado.

Adonias preparou um grande banquete em honra a Samael, para o qual todos foram convidados. Ao contemplá-lo ao lado do rei, os súditos o aclamaram com alegria, acreditando ser ele o próprio príncipe.

Exaltavam com júbilo as virtudes daquele formoso jovem, quando revelou-se Melquisedeque, posicionando-se com um sorriso à direita de seu pai. No banquete, Samael foi honrado por todos. Realmente ele era digno de residir na mansão do monte, pois havia nele um perfeito reflexo das virtudes que coroavam o amado príncipe.

Capítulo III

Salém crescia em felicidade e paz. Com alegria, os súditos reuniam-se a cada dia ao amanhecer para ouvirem, cantarem e tocarem as sublimes composições de Melquisedeque, que inspiravam atos de bondade e paz. Entre as amizades nascidas e fortalecidas em virtude da música harmoniosa, sobressaía aquela que unia o príncipe a Samael. Desde que passara a residir na mansão do monte, Samael tornara-se seu companheiro constante. Passavam longas horas juntos, meditando sobre as leis do pergaminho. Com admiração, o súdito honrado via o filho de Adonias transformar aquelas leis em lindas canções. As doces melodias nasciam dos seus lábios como o perfume de uma flor. Consciente da importância da música na preservação da harmonia e paz em Salém, o príncipe, além do canto, passou a dedicar-se à música instrumental, sendo o seu instrumento preferido o alaúde. Era por meio desse instrumento que conseguia expressar com maior perfeição a riqueza de seu íntimo.

Dos seis anos de prova, cinco, finalmente, passaram. Adonias, feliz por ver que até ali todos os habitantes de Salém haviam permanecido leais aos princípios contidos no pergaminho, convocou-os para um banquete, no qual faria importantes revelações. Tendo tomado seus lugares diante do trono, os súditos, com alegria uniram as vozes entoando os cânticos da paz, sendo regidos por Samael. Depois de ouvi-los, o rei, emocionado, dirigiu-se a seu filho, abraçando-o em meio aos aplausos da multidão agradecida. Todos reconheciam que a paz e a alegria em Salém eram em grande medida devidas ao amor e dedicação do querido príncipe, que era o autor daquelas doces canções. Naquele momento de reconhecimento e gratidão, Adonias revelou os seus planos mantidos até então em segredo. Com voz pausada, disse-lhes:

–           Súditos deste reino de paz, minh’alma está repleta de alegria por contemplar nesse dia vossas faces mais radiantes que outrora. Vossas vestes continuam alvas e puras, como quando as recebestes de minhas mãos. A harmonia de vossas vozes e instrumentos hoje são maiores.

Tendo dito estas palavras, o rei acrescentou com solenidade:

–           Um ano de prova ainda resta, ao fim do qual sereis examinados. Permanecendo fiéis como até aqui, sereis honrados, confirmados como súditos deste reino de paz. Contudo, se alguém for achado em falta, será banido, ainda que este julgamento nos traga muita tristeza e sofrimento.

As palavras do rei levaram os súditos a uma profunda reflexão. Todos, examinando-se, indagavam reverentes:

–           Estaremos aprovados?!

Certos de que seriam vitoriosos, pois amavam Salém e suas leis, uniram as vozes num cântico expressivo de fidelidade. Ao terminarem o cântico, Adonias revelou-lhes seu grande segredo:

–           Aqueles que forem aprovados, herdando este reino de paz, receberão como rei o meu filho, a quem darei o trono glorificado dessa Salém vitoriosa.

A revelação do rei foi aclamada por todos com muito júbilo. Adonias, contudo, ainda não lhes revelara todo o seu plano, por isso, pedindo-lhes silêncio, prosseguiu:

–           O meu filho empunhará um cetro especial, no qual selarei todo o direito de domínio. Seu cetro, simbolizando toda a harmonia, será um alaúde.

Diante desta revelação que a todos sensibilizou, o príncipe, prostrando-se aos pés de seu pai, chorou motivado por muita alegria. Enquanto isto, todos o aplaudiam com euforia, ansiando ver o raiar desse dia em que a paz seria vitoriosa. Adonias, chamando para junto de seu filho a Samael, concluiu dizendo:

–           No governo dessa Salém vitoriosa, tenho proposto fazer de Samael o primeiro depois de Melquisedeque. A ele será confiado o pergaminho das leis, devendo ser o guardião da honra desse reino triunfante.

Capítulo IV

Samael, ao conhecer os planos de Adonias quanto ao futuro de Salém, encheu-se de euforia. Contemplava agora risonho aquela cidade sem igual, imaginando seu futuro de glória. Considerando as palavras do rei, de que ele seria o segundo no reino, deixou ser dominado por um sentimento de exaltação. Ele, que até ali, em obediência às leis do pergaminho, vivera uma vida de humildade, começava a orgulhar-se de sua posição. Em seu devaneio sentia-se junto ao trono, tendo os súditos de Salém a seus pés, aclamando com louvores sua grandeza. Samael, totalmente dominado por esse sentimento, não dava por conta de que estava sendo conduzido para um caminho perigoso. O orgulho que o seduzira estava gerando o egoísmo que logo se manifestaria em cobiça.

Uma semana após a revelação de Adonias, os súditos promoveram uma festa em homenagem a Melquisedeque, o futuro rei de Salém. Vendo-o aclamado por tantos louvores, Samael teve o coração tomado por um estranho sentimento de inveja, fruto do orgulho e do egoísmo. Não podia suportar o pensamento de ser deixado em segundo plano. Não era ele tão formoso e sábio quanto o príncipe?! Era quase impossível disfarçar tal sentimento de infelicidade. Outrora, Samael encontrara indizível prazer nos momentos em que, ao lado do príncipe, recitava as leis contidas no pergaminho, que eram transformadas em lindas canções. Agora, tais momentos tornaram-se desagradáveis, pois aqueles princípios contrariavam os seus ideais. Decidiu, contudo, não revelar seus sentimentos de revolta. Suportaria o antiquado pergaminho até que, com sua autoridade, pudesse bani-lo do novo reino que seria estabelecido.  Não seria ele o guardião daquelas leis? Essa “vitória” procuraria alcançar mediante sua influência e sabedoria.

Julgando poder influenciar o filho de Adonias com seus sonhos de grandeza, Samael aproximou-se dele com euforia, e passou a falar-lhe das glórias do reino vindouro, onde os dois, cobertos de honras, desfrutariam os louvores de uma Salém vitoriosa. Seriam eles os heróis do mais perfeito reino estabelecido entre os homens. As delirantes palavras do súdito honrado trouxeram preocupação e tristeza ao coração do jovem príncipe, pois não refletiam os ensinamentos de amor e humildade do pergaminho. Vendo o seu íntimo amigo em perigo, Melquisedeque, com uma ternura jamais revelada, conduziu-o para junto do trono, onde, tomando o pergaminho, passou a ler compassadamente os seguintes parágrafos:

–           O reino de Salém será firmado sobre a humildade, pois esta virtude é a base de toda verdadeira grandeza. A humildade é fruto do amor, sendo contrária ao orgulho, que pode manter uma criatura presa ao pó, fazendo-a contentar-se com suas limitações, iludindo-a como se as mesmas fossem de infinito valor. A humildade consiste no esquecimento de si, e este, numa vida de abnegado serviço aos semelhantes.

Samael, esforçando-se para encobrir sua indignação ante a leitura do pergaminho que para ele era ultrapassado, disse ao príncipe, em tom de conselho amigo:

–           Meu bom companheiro, reinaremos numa Salém vitoriosa, que fulgurará muito acima deste pergaminho, cujos princípios foram cumpridos fielmente nesses anos de prova. A plena liberdade não será a glória de Salém? Pois saiba que, completa liberdade não coexistirá com estas leis, cujo objetivo encerra-se ao fim dos cinco anos. Caberá a nós dois coroarmos Salém com a honra de uma total liberdade, que gerará uma felicidade sem fim. Tal liberdade é impossível existir sob as limitações do pergaminho.

O filho do rei ficou muito abalado ante as palavras de seu amigo, que evidenciavam loucura. Como libertá-lo desse caminho de morte?!

Ninguém em Salém, além de Melquisedeque, conhecia a triste condição de Samael. Com paciência, o príncipe procurava conscientizá-lo do real valor do pergaminho, cujas leis não podiam jamais ser alteradas, pois isto seria o fim de toda a paz. Os conselhos do príncipe despertaram finalmente o seu coração. Meditando sobre suas palavras, conscientizou-se de estar seguindo por um caminho enganoso. Ao ver nos olhos daquele a quem tanto amava as lágrimas do arrependimento, o filho de Adonias alegrou-se com sua vitória sobre o orgulho e o egoísmo. Os dias que seguiram-se à libertação foram cheios de realizações. O príncipe revelava-se ainda mais amigo, disposto a dar tudo de si para que seu companheiro pudesse prosseguir triunfante no caminho da humildade. Naqueles dias de júbilo, foi dada a ele a honra de conhecer o cetro que estava sendo moldado.

Num momento de descuido, Samael, que voltara a desfrutar paz de espírito, permitiu que seu coração novamente ficasse possuído por um sentimento de grandeza, que fez desencadear nova tormenta em sua alma. Esse sentimento misto de orgulho e cobiça lhe sobreveio no momento em que o príncipe mostrava-lhe o dourado alaúde, no qual estava sendo impresso o selo de todo o domínio.

Capítulo V

De sua mansão Samael contemplava Salém em seu resplendor matinal. Vendo-a, qual noiva adornada à espera de seu rei, cobiçou-a. Em seu delírio passou a formular planos de conquista. Já podia sentir-se exaltado sobre o seu trono, tendo nas mãos o cetro precioso. Todos o aclamariam como o libertador da opressão daquelas leis. Salém seria um reino de completa liberdade e prazer. Dominado por esta cobiça, passou a maquinar planos de conquista. Samael decidiu agir subtilmente entre os súditos, levando-os a ver no pergaminho um empecilho à real liberdade. Em sua missão de engano, agiria com aparente bondade, revelando interesse pelo crescimento da felicidade de todos.

Pondo em prática seus planos, passou a visitar os súditos em suas mansões, falando-lhes das glórias do reino vindouro, onde desfrutariam completa liberdade. Grande era a sua influência em Salém. Todos admiravam sua beleza e sabedoria, tendo-o como um perfeito apóstolo da justiça e do amor. Ninguém podia imaginar que, em meio àquela atmosfera de júbilo e gratidão, uma armadilha sutil estava sendo colocada, nas garras da qual muitos poderiam cair por descuido. Em sua sedutora missão, Samael não falava contra o pergaminho, aliás, louvava-o por haver exercido naqueles seis anos, prestes a findarem, uma missão de prova. Em sua lógica, contudo, procurava mostrar que, no reino vindouro, quando todos estivessem aprovados, estariam acima daquelas leis. Seus argumentos, aparentemente corretos, preparavam-lhe o caminho para afirmar abertamente que, no novo reino, a existência do pergaminho seria um entrave à concretização da verdadeira liberdade.

As sementes da rebelião lançadas por Samael não tardaram a germinar no coração de muitos em Salém. Isto acontecia a seis meses do Yom Kipur, quando o destino de todos seria selado. Um terço dos habitantes, seduzido pelo terrível engano, exaltava-o agora, em completo desprezo às leis e ao príncipe, a quem julgavam ultrapassados. Adonias, que sofria ao ver o surgimento de toda essa rebeldia, convocou os súditos para uma reunião de emergência. Na face de todos podia-se ver as contrastantes disposições. Com voz compassiva, o rei passou a revelar-lhes, como jamais fizera antes, a grande importância das leis registradas no pergaminho, mostrando que elas eram a base de toda a prosperidade e paz. Se tais leis fossem banidas, toda felicidade e glória se extinguiriam, dando lugar ao caos.

Depois de mostrar a necessidade das leis, Melquisedeque, movido por um forte desejo de salvar aqueles a quem tanto amava, ergueu diante de todos o pergaminho e, com voz cheia de bondade, ofereceu-lhes o perdão e a oportunidade de recomeçarem no caminho da paz. Suas palavras a todos emocionou. Até mesmo Samael ficou a princípio motivado, contudo, o orgulho impediu-lhe novo arrependimento. Desta maneira, o súdito honrado, quando ainda podia olhar arrependido para o pergaminho, endureceu-se em sua rebeldia, decidindo prosseguir até o fim. Esta decisão, todavia, não a manifestaria prontamente, pois idealizara um traiçoeiro plano.

Ao findar o encontro da oportunidade, Samael convocou seus seguidores para uma reunião secreta, que foi realizada sob o manto da noite, junto ao riacho de Cedrom, que fica fora dos muros de Salém. Após maldizer o pergaminho e a todos aqueles que o defendiam, começou a falar-lhes de seus planos de vingança e traição:

–           Como vocês sabem, os seis anos da prova estão se esgotando, restando, a partir de hoje, vinte e quatro semanas para o dia da coroação. Se vocês quiserem ter-me como rei em lugar de Melquisedeque, poderei roubar-lhe o cetro, apoderando-me do reino.

Samael passou a explicar-lhes os lances da traição, dando-lhes as devidas orientações sobre a maneira de agirem a partir daquela data:

–           Precisamos manter uma aparência de fidelidade ao pergaminho e ao príncipe até que chegue o momento de agirmos. O golpe será dado na noite que antecede o dia da coroação. À meia-noite, furtivamente nos ausentaremos de Salém. Roubarei nessa noite o cetro e, juntos, fugiremos para o profundo vale onde estão as cidades de Sodoma e Gomorra. Ali nos armaremos, e marcharemos contra Salém, subjugando nossos inimigos. Acabaremos então com o pergaminho e com todos aqueles que se recusarem prestar obediência ao nosso governo.

Capítulo VI

Sobrevieram dias de aparente tranqüilidade e paz. Samael, fingindo fidelidade, estava sempre ao lado do príncipe, demonstrando admiração pelas suas novas composições que exaltavam as leis do pergaminho. Os seguidores de Samael, da mesma maneira, uniam as vozes em louvores que expressavam a grandeza dos princípios aos quais repugnavam. Melquisedeque, cheio de alegria por ver aproximar-se o dia de sua coroação, ensaiava com os súditos os cânticos da vitória, os quais compusera especialmente para aquela ocasião. Com felicidade falava a todos sobre seus sonhos em tornar Salém cada vez mais honrada por sua beleza e harmonia. Samael, em sua maldade velada, zombava do príncipe. Já previa a dor que lhe traria o golpe da traição.

Naqueles dias de aparente paz, o súdito rebelde procurou conhecer o lugar em que o cetro ficaria oculto até o dia da coroação. O príncipe, sem nada desconfiar, revelou-lhe todo o segredo: a sala, o cofre com seu enigma, o rico estojo e, finalmente o tesouro. Contemplando-o, o astuto Samael animou-se ao ver estampado em seu bojo o selo do domínio. Compreendeu que aquele que o possuísse teria nas mãos o reino de Salém. Somente alguns dias, pensou, e teria sob seu poder aquele instrumento precioso.

O sol declinou trazendo para Salém o dia que significaria vitória ou derrota. Pouco antes do anoitecer, Samael deixara o palácio onde passara todo o dia ao lado do príncipe, ajudando-o nos preparativos para a cerimônia da coroação. Dirigindo-se para sua mansão, saudou as trevas com um sorriso maldoso. Como ansiara por aquela noite! Enquanto os fiéis, embalados pela emoção da feliz vitória, revisavam sob a luz de candeias os adornos de seus instrumentos, de vestes e mansões, certificando-se que seriam aprovados na manhã seguinte, Samael e seus seguidores faziam seus últimos preparativos para desferirem o golpe.

À meia-noite, seguindo as instruções de Samael, todos os seus seguidores abandonaram silentemente suas mansões, rumando-se ao profundo vale de Cedrom, onde esperariam pelo seu novo rei. Samael, por sua vez, dirigiu-se aos fundos do palácio, por onde esperava entrar sem ser notado, indo ao encontro do cetro. Evitando qualquer ruído, transpôs o portal, dirigindo-se silentemente à sala que guardava o precioso cetro.

Naquele momento, o príncipe que, insone rolava em seu leito, pressentindo algum perigo, dirigiu-se ao quarto de seu pai e o despertou dizendo:

–           Meu pai, ouvi ruídos de passos no interior do palácio.

Afagando a cabeça de seu filho, Adonias, sonolento respondeu-lhe:

–           Filho, não se preocupe. Deite-se comigo e durma tranqüilamente. Daqui a pouco raiará o alvorecer e você terá nas mãos o alaúde dourado.

O príncipe, tranqüilizado pelas palavras confiantes de seu pai, entregou-se a um sono de lindos sonhos em que vivia ao lado de Samael e de todos os súditos de Salém, os momentos festivos da coroação. Enquanto isso, o rebelde, com as mãos trêmulas, apossava-se do cetro. Naquele momento, teve a idéia de levar somente o alaúde, deixando o estojo em seu devido lugar. Com um sorriso cheio de maldade, imaginou o momento em que o rei entregaria ao seu filho aquele estojo vazio. Levando consigo o cetro, Samael dirigiu-se apressadamente ao lugar em que seus seguidores o aguardavam. Ao encontrá-los, deu vazão a todo o seu orgulho proclamando:

–           Agora eu sou o rei de Salém. Quem possui um cetro como o meu? Com ele domino a terra e o mar. A minha força está nas trevas, pois através delas o conquistei.

Festejando a vitória, a turba ruidosa afastou-se para distante de Salém, seguindo rumo às cidades corrompidas da planície, onde pretendiam armarem-se para a conquista de seu reino.

O sol surgiu no horizonte, trazendo a luz do dia da expiação (Yom Kipur). Despertando de seu sono de lindos sonhos, o príncipe apronta-se para a cerimônia do juízo e da coroação. Vestes especiais de linho fino, adornadas com fios de ouro e pedras preciosas, foram-lhe preparadas. Depois de vestir-se, Melquisedeque encaminhou-se para o encontro de seus súditos, na extremidade sul de Salém. Dali os conduziria numa marcha festiva rumo ao palácio situado ao norte, sobre o monte Sião.

Adonias, fazendo soar um longo chifre, convocou a todos para a reunião do julgamento. Deixando suas mansões, todos os remanescentes dirigiram-se para a praça do portão sul, levando consigo seus instrumentos musicais. Ao encontrar-se com aqueles fiéis, Melquisedeque ficou surpreso pela ausência de muitos. Esse mistério doía-lhe na alma, pois lhe ocultava a face mais querida de seu amigo Samael. Deixando seus seguidores reunidos, o príncipe saiu à procura dos ausentes. Em sua busca infrutífera, dirigiu-se finalmente à mansão do monte, onde chamou por Samael. Sua voz, contudo, não trouxe nenhuma resposta além de um eco vazio, que traduzia ingratidão.

Lendo no triste vazio a traição, sentiu vontade de chorar. Num só momento veio-lhe à mente todo o passado daquele a quem buscara com tanta dedicação conservá-lo em sua glória, através de conselhos sábios. Recordou aqueles dias que seguiram à sua recuperação. Como se alegrara com a certeza de que seu amigo não mais voltaria a cair! Levando-o a pressentir a tragédia, vieram-lhe à lembrança as indagações de Samael sobre o alaúde, o qual mostrou-lhe num gesto de amizade. A memória deste fato, somada aos passos ouvidos no interior do palácio naquela noite, deu-lhe a certeza de que Salém corria perigo. Não suportando essa possibilidade de traição, prostrou-se em pranto, ferido pela terrível ingratidão daquele a quem dedicara tanto amor. Curvado pela dor, permaneceu por algum tempo procurando encontrar algum consolo. Enxugou finalmente as lágrimas, decidido a fazer qualquer sacrifício a fim de devolver a Salém sua glória e poder, redimindo-lhe o cetro das mãos do rebelde.

Consolado pela certeza da vitória, Melquisedeque retornou para junto dos súditos fiéis. Ocultando-lhes seu sofrimento, bem como o motivo da ausência de tantos, o príncipe guiou-os em marcha triunfal rumo ao palácio.

Capítulo VII

Ao aproximarem-se do monte Sião, galgaram os alvíssimos degraus da escadaria, sendo seguidos pela multidão exultante. Doía-lhe na alma a expectativa de ver morrer nos lábios dos fiéis, naquela manhã, o seu alegre canto, devido ao golpe da traição. Encontravam-se agora no interior do palácio, diante do magnífico trono que esperava pelo jovem rei. Na base do trono, jazia aberto, em meio a um arranjo de flores, o pergaminho das leis. Junto dele podia-se ver a linda coroa, feita de ouro e pedras preciosas, bem como o estojo daquele cetro que simbolizava toda a harmonia de Salém.

Os súditos estavam felizes, pois sabiam que seriam considerados dignos de herdar aquele reino de paz. Aguardavam agora o momento da coroação, quando o seu novo rei os regeria de seu trono com seu cetro precioso, num cântico triunfal. Em meio aos aplausos das hostes vitoriosas, Melquisedeque dirigiu-se a seu pai, que o recebeu com um carinhoso abraço. O momento era deveras solene. As hostes silenciaram-se na expectativa da coroação. O estojo seria aberto e todos testemunhariam a exaltação do querido príncipe. Com o coração pulsando forte pela alegria, Adonias curvou-se sobre o estojo, abrindo-o cuidadosamente. Ao encontrá-lo vazio, a alegria de seu semblante deu lugar a uma expressão de indizível preocupação e tristeza, pois naquele cetro selara o destino daquele reino de paz.

Ao ver seu pai e todos os súditos aflitos pela ausência do cetro e de tantos amigos que deveriam estar com eles naquele momento, Melquisedeque consolou-os com a promessa de que buscaria o cetro. Inconscientes dos riscos e perigos que aguardavam o príncipe em seu caminho, os súditos despediram-se dele, vendo-o partir apressadamente.

O alvorecer daquele dia que seria o da coroação alcançou os rebeldes distantes de Salém, a caminho das cidades da planície. Naquele manhã, Samael encheu-se de fúria ao ver que o precioso alaúde estava adornado com inscrições das leis contidas no pergaminho. Tomando uma pedra pontuda, passou a danificar o cetro, raspando-lhe todas as palavras de amor e justiça. Suas harmoniosas cordas estavam agora desafinadas sobre o seu bojo ferido, mas continuava sendo precioso, pois sobre ele jazia selado o domínio de Salém. Possuí-lo, significava ser dono de todo o poder.

Ao chegarem à altura em que o caminho bifurcava-se, Samael ordenou a seus seguidores que prosseguissem rumo a Gomorra, enquanto ele iria até Sodoma, onde permaneceria por dois dias, juntando-se depois a eles. Esperou pela noite para entrar em Sodoma. Quando ali entrou, caminhou pelas ruas estreitas sem ser notado, até encontrar uma casa isolada sobre uma elevação. Fazendo do cetro sua arma, invadiu a casa matando seus moradores, enquanto dormiam. Apossou-se dessa maneira daquela residência onde, solitário, maquinaria seus planos para a tomada de Salém.

O entardecer daquele dia que seria o da coroação alcançou o filho de Adonias a caminhar pelo pedregoso caminho rumo ao vale. Seus olhos carregados de tristeza e anseio voltam-se para o solo, em busca dos rastros dos rebeldes. A lembrança da ingratidão daqueles a quem tanto amava o fez chorar. Suas lágrimas, refletindo os últimos lampejos daquele sol poente, assemelham-se a gotas de sangue jorrando de um coração ferido. Ele chorava não por causa dos perigos que lhe sobreviriam naquela fria noite, mas pela infeliz sorte daqueles que haviam trocado a paz de Salém pela violência daquelas cidades da planície. O seu único consolo era a lembrança daqueles que, apesar de todas as tentações, haviam permanecido fiéis. A eles prometera devolver o cetro, e isto o faria apesar de qualquer sacrifício.

Depois de uma longa noite de insônia em que o príncipe ficou recostado ao lado do caminho, raiou a luz de um dia que seria decisivo. Ao aproximar-se de Sodoma naquela manhã, o pensamento de estar tão próximo do cetro de sua amada Salém fez com que se esquecesse de toda a fadiga, abreviando seus passos rumo ao desafio. Ao abeirar-se do grande portão da cidade, ficou tomado por um temor, ao ouvir ruídos espantosos de desarmonia, que traduziam o orgulho, o egoísmo e a cobiça que ali dominavam todos os corações, fazendo-os explodir na orgia de uma maldade sem fim.

Seria um grande risco expor-se à violência gratuita daquela cidade. Esse pensamento o fez deter-se a um passo do portal, onde estremecido curvou a fronte em indizível luta íntima. Era tentado a recuar, mas lutava com todas as forças de sua alma contra esse pensamento de fracasso. Pensando na triste sorte de Salém, cujo domínio estava sendo pisado no interior daquela cruel Sodoma, Melquisedeque tomou uma firme decisão: como um destemido guerreiro haveria de avançar, e, mesmo que tivesse de enfrentar o acúmulo de todos os perigos, prosseguiria, até erguer em suas mãos vitoriosas o cetro amado.

Resoluto e esperançoso, transpôs o portão de Sodoma, mergulhando naquele mundo estranho. Tudo ali era o oposto de Salém, começando pelas pedras ásperas e sujas de suas construções. Sodoma era um reino de trevas. A presença contrastante do príncipe foi logo notada por muitos que, em tumulto, o cercaram. A pureza de caráter expressa em sua meiga face e o esplendor de suas vestes encheram-nos de espanto, e recuaram como que vencidos por uma força invisível. Dominados pela fúria, passaram a persegui-lo à distância, decididos a fazê-lo recuar. Jogavam-lhe pedras e lama tentando macular-lhe as vestes, mas não o atingiam, enquanto ele avançava em sua ansiosa busca. Desistiram finalmente de persegui-lo, ao entardecer.

Capítulo VIII

O filho de Adonias percorrera todas as ruas e becos à procura do precioso cetro, mas em vão. Ao ver tombar no horizonte o sol, anunciando a chegada de mais uma escura e fria noite, seu coração ficou opresso por uma grande agonia. Ali, naquele último beco, quase vencido pela exaustão e pelo desespero, inclinou a fronte, desfazendo-se em pranto. Seus lábios pronunciaram em meio aos soluços as seguintes palavras:

–           Salém, Salém, você não pode perecer! O seu cetro precisa ser redimido das garras da rebeldia! Mas quando e onde vou encontrá-lo?! Já não restam forças em mim e a esperança de redimi-lo antes da noite me abandona!

O príncipe, em sua suprema angústia, não percebia que outro gemido de dor, procedente de cordas arrebentadas de um alaúde humilhado, fazia-se ouvir naquele entardecer. Subitamente, o fraco gemido penetrou seus ouvidos, reanimando-o com a certeza de que o grande momento da redenção havia chegado. Enxugando as lágrimas, reuniu as últimas forças correndo em direção a uma pequena casa situada sobre um monte, de onde parecia vir o som. Ao dirigir-se à porta entreaberta, deteve-se ao contemplar uma cena chocante, de humilhante escravidão: Samael, envolvido por um manto sujo, castigava o cetro de Salém. Tanto o rapaz quanto o cetro achavam-se tão desfigurados, que não restavam neles quase nenhum traço da glória perdida. Aquele cetro, contudo, mesmo arrasado como estava, era muito precioso, pois nele jazia o selo do domínio de Salém.

A contemplação daquele que fora seu maior amigo e daquele cetro idealizado como símbolo de toda a harmonia, em tão trágica condição, comoveu profundamente o príncipe, fazendo-o chorar em alta voz. Somente então o súdito rebelde percebeu sua presença indesejada. Estremecido, levantou-se, e, cheio de ira perguntou-lhe:

–           O que o trouxe a Sodoma?

Apontando para o cetro danificado, Melquisedeque exclamou:

–           A glória de Salém está destruída!!!

Com uma gargalhada, Samael zombou de sua tristeza, dizendo:

–           Agora eu sou o rei de Salém. Vocês que são fiéis ao pergaminho, tornar-se-ão meus escravos.

Sem se importar com as palavras de afronta de Samael, o príncipe, movido por uma infinita angústia, disse-lhe:

–           Samael, Salém está ferida por sua traição. Por que você trocou o seu lar de justiça e amor por esse vale de injustiça, ódio e morte?! Agora, se não deseja retornar à Salém arrependido, devolva-lhe o cetro. Foi para redimi-lo que, a despeito de todos os perigos, desci a esse vale hostil.

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Conhecendo o propósito do príncipe, o rebelde encheu-se de raiva e, cerrando os punhos, disse-lhe:

–      Eu o odeio Melquisedeque!

Tendo dito isto, arremessou o cetro ao chão, e pisando-o acrescentou:

–           Tenho vontade de fazer o mesmo com você.

Diante dessa afronta, o príncipe não sentiu nenhum temor, mas compaixão. Transportando-se ao feliz passado, lembrava-se dos momentos felizes em que tinha sempre ao seu lado a Samael. Ele era um jovem puro e humilde de coração. Por que permitira ser escravizado pela ilusão do orgulho e do egoísmo?! Quão doloroso era ver aquele jovem que, por sua beleza e simpatia, havia sido honrado acima de todos os súditos, agora arruinado pela cobiça! Não fora o sonho do príncipe ter junto ao seu trono glorificado, aquele que lhe era o mais precioso amigo?! Essa tragédia feria-lhe a alma.

Contudo, a triste condição do cetro o atingia ainda mais, pois ele fora feito como o símbolo de toda a harmonia, e estava sendo desfeito sob os pés da ingratidão. Surpreso por não ver nos olhos de Melquisedeque nenhuma expressão de temor, porém de piedade, Samael sentiu-se frustrado em suas afrontas que visavam amedrontá-lo, levando-o desistir de sua missão. Diante da postura digna do príncipe, que em silente dor o contemplava, sentiu-se envergonhado. Essa fraqueza, contudo, foi banida pelo orgulho que dominava o seu coração. Começou então a planejar algo terrível, para humilhar e ferir o príncipe, fazendo-o sofrer ainda mais.

Com escárnio disse-lhe:

–           O cetro de Salém poderá ser seu, se você conseguir pagar-me o preço de seu resgate.

Com um brilho nos olhos, o príncipe perguntou-lhe:

–           Qual é o preço?

Samael, com um sorriso maldoso, respondeu-lhe pausadamente:

–           O preço não é ouro nem prata, mas dor e sangue. Você deverá despir-se completamente de suas vestes, deitando-se ao chão. Deverá suportar nessa condição, espancamentos, até que o sol se ponha. Se você estiver disposto a submeter-me, sem reagir, o cetro será inteiramente seu

Estremecido ante tão cruel proposta, o filho de Adonias olhou para o sol que pairava distante sobre uma nuvem. Passou a travar em seu coração uma luta intensa. A princípio, o horror do sacrifício quase o dominou, levando-o recuar, mas o pensamento de ver Salém escravizada pela rebeldia, levou-o finalmente à decisão de pagar o preço do resgate, entregando-se ao humilhante sofrimento.

Tendo tomado a firme decisão de resgatar o cetro, o príncipe tirou as vestes, colocando-as sobre uma pedra. Deitou-se em seguida naquele solo frio, com a fronte voltada para o poente. Impiedosamente, Samael começou a espancá-lo, fazendo uso do próprio cetro como instrumento de tortura. Gemendo pela dor dos golpes que o faziam sangrar, o príncipe mantinha o olhar fixo no sol que parecia deter-se sobre a nuvem. Atordoado pela dor, contemplou finalmente o sol prestes a se pôr. Alentado pela vitória que se aproximava, murmurou baixinho:

–           Salém, Salém, daqui a pouco terei em meus braços o teu cetro precioso que, em minhas mãos, tornar-se-á num instrumento de justiça e paz.

Ouvindo a promessa do príncipe feita por entre gemidos, Samael bradou-lhe com fúria:

–           O seu sofrimento não trará nenhum alvorecer para Salém, pois suas mãos jamais serão capazes de tocar no cetro.

Depois de fazer essa afronta, Samael apossou-se de uma pedra pontuda, preparando-se para desferir os últimos golpes. Enquanto pensava sobre a feliz vitória de Salém, Melquisedeque sentiu seu braço direito ser comprimido pelos pés de Samael. Seguiu a esse rude gesto um golpe que o fez contorcer-se em agonia. Sua mão fora vazada cruelmente, passando a jorrar abundante sangue da ferida aberta. Essa mesma violência foi descarregada logo depois sobre sua mão esquerda. Não suportando a agonia causada por esses derradeiros golpes, o filho de Adonias, ensangüentado, mergulhou nas trevas de um profundo desmaio.

Capítulo IX

Ao cessar de golpear o príncipe, o súdito rebelde ficou possuído por um estranho horror, ao contemplar na face daquele que somente lhe fizera o bem, o torpor da morte. Procurava não recordar o passado, mas, irresistente, sentia ser arrastado aos dias de sua feliz inocência em Salém. Revestido de ricas vestes estava sempre ao lado do príncipe que, com dedicação, ensinava-lhe a cada dia suas canções falando de paz. Nas indesejadas lembranças pelas quais era arrastado, reviveu seus primeiros passos no caminho do orgulho e do egoísmo. Lembrou-se dos incessantes conselhos e rogos daquele que fora seu melhor amigo, para que desistisse daquele caminho que poderia conduzi-lo à infelicidade.

Depois de ser arrastado em lembranças por todo aquele passado de felicidade destruída por sua culpa, Samael teve consciência de sua ingratidão. Horrorizado pelo que fizera, curvou-se sobre o corpo ensangüentado de Melquisedeque, e desesperou-se ao vê-lo sem vida. Não suportando o peso da grande culpa, deixou às pressas aquele lugar, desejando ocultar-se distante, sob as trevas da fria noite.

Depois de um profundo desmaio, o príncipe começou a voltar à consciência. Em delírios que o transportavam ao seio de sua amada Salém, ele revivia momentos vividos e sonhados. Com alegria contemplava a face de seu maior amigo, para quem estendeu a mão com um sorriso. Mas seu gesto foi frustrado por uma profunda dor. Em meio aos aplausos dos súditos vitoriosos, recebe de seu pai o cetro, mas, ao tocá-lo, sente uma irresistível dor em suas mãos. Com esses sonhos frustrados pela dor, Melquisedeque despertou para a realidade. Estava nu, ferido e solitário, em um lugar perigoso, longe do abrigo e carinho de Salém. Mais doloroso era pensar que tudo aquilo era a retribuição de alguém que fora o alvo principal de todas as dádivas de seu amor.

O príncipe, sem poder mover-se, considerando a grande traição, passou a chorar sem consolo. Lamentava não por sua dor, mas pela perdição daqueles que haviam trocado o carinho e a justiça de Salém pelo desprezo e ódio que os reduziriam finalmente a cinzas sobre aquele vale condenado. Através das lágrimas, o príncipe contemplava o céu que, semelhante a um manto tinto de sangue, estendia-se banhado na luz do sol poente. Lembrou-se então do alaúde pelo qual pagara tão alto preço. Onde estaria ele? Em sua desesperada fuga, Samael deixara o cetro abandonado junto ao corpo ferido de Melquisedeque. Quando ele o viu, esqueceu-se de toda a dor, e alcançou-o com suas mãos feridas. Acariciando-lhe o bojo arruinado, disse-lhe com um sorriso:

–           Você é meu novamente. Eu o comprei com o meu sangue.

Samael que, dominado pelo estranho horror, fugira após cometer o horrível crime, deteve-se a um passo do portão de Sodoma. Ali impulsionado pelo orgulho, arrependeu-se com indignação de sua fraqueza. Por que fugira depois de conquistar tão grande vitória? Não era seu plano destruir o reino de Salém, para estabelecer seu próprio reino? Lembrando-se do cetro, decidiu retornar para tomá-lo. Por que o deixara abandonado junto ao cadáver daquele odiado príncipe?

Reunindo suas poucas forças, Melquisedeque dirigiu-se tropegamente ao lugar em que deixara suas vestes. Depois de vestir-se, tendo junto ao peito o cetro amado, o filho de Adonias, com profunda emoção, fez um juramento antes de deixar aquele lugar de seu sofrimento. Acariciando o cetro, disse-lhe:

–           Meu querido cetro, você foi criado como um emblema da harmonia que procede da justiça e do amor. Toda a glória de Salém repousava sobre você quando a rebeldia em sua ingratidão escravizou-o, arrastando-o para este vale hostil. Aqui você foi ferido e humilhado, vindo a tornar-se um instrumento de impiedade nas mãos do tirano. Eu, porém, o redimi com o meu sangue. Agora nossas feridas serão restauradas, e em breve seremos entronizados em meio aos louvores de uma Salém vitoriosa. Quando esse sonho se concretizar, testemunharemos juntos o fim daqueles que se levantaram contra nós para nos ferir. Samael e seus seguidores serão devorados pelo fogo que reduzirá a cinzas Sodoma e Gomorra.

Concluindo seu solene juramento, o jovem príncipe, já oculto pelas trevas da noite, deixou aquela colina, e sobre ela as marcas de seu sofrimento.

Desde que o filho do rei partira, prometendo retornar com o cetro, Salém vivia momentos de indizível anseio. Em pranto, o rei e os súditos remanescentes lembravam-se de todo aquele feliz passado desfeito pela ingratidão dos rebeldes. O que mais lhes torturava era a ausência do príncipe e do cetro, sem os quais todo o brilho daquele reino de paz se ofuscaria. Desejando consolar o coração de seus súditos, Melquisedeque avançava em meio à noite rumo aos montes que cercavam Salém. Ainda que enfraquecido e ferido, prosseguia em sua marcha ascendente, esperando alcançar sua pátria pela manhã.

Aquela longa e escura noite foi finalmente vencida pelos raios do alvorecer. Em Salém a esperança em rever Melquisedeque com o seu cetro estava quase banida quando, ao olharem para o Monte das Oliveiras, viram-no descendo pelo caminho do Getsêmani. Quando o encontraram no profundo vale de Cedrom, ficaram assustados com sua aparência: sua face estava pálida e seu manto encharcado de sangue. Mesmo assim, ele sorria expressando grande alegria. Ao perguntarem-no sobre o porquê daquelas marcas de sangue, Melquisedeque retirou de sob o manto suas mãos feridas, revelando-lhes entre elas o cetro redimido. Depois de contar-lhes os passos que o levaram ao resgate do cetro, os súditos, emudecidos, prostraram-se reverentes aos seus pés, aclamando-o como seu redentor e rei. Em meio aos louvores das hostes redimidas, o príncipe foi introduzido no palácio real, onde, sob os cuidados de seu amoroso pai, deveria restabelecer-se de seu sofrimento. O cetro desfigurado, agora mais precioso, seria também restaurado, devendo tornar-se mais belo que antes. O dia da coroação foi fixado para o próximo Yom Kipur. Naquele dia, Melquisedeque selaria com o cetro restaurado o triunfo de todos os fiéis, bem como a condenação dos rebeldes.

Capítulo X

Poucos instantes após a saída de Melquisedeque, Samael chegara ao local onde o deixara aparentemente sem vida, ao lado do alaúde. Sem entender aquele misterioso desaparecimento, ele prosseguiu para Gomorra, onde seus seguidores o esperavam. Ao vê-los, proclamou sua “vitória” sobre o odiado príncipe e sobre o cetro, os quais massacrara em Sodoma, não restando aos seguidores do pergaminho nenhuma esperança. Suas palavras agradaram a turba rebelde, que passou a comemorar a “conquista”, entregando-se à orgia. Zombavam agora da justiça e do amor, exaltando a Samael como rei vitorioso.

Obteriam agora armas, com o propósito de avançarem sobre Salém, desferindo-lhe o último golpe. Juntaram-se a eles, em seu maléfico propósito, muitos criminosos que foram recebidos como mestres no manejo de arcos e flechas. Em sua loucura, Samael ordenou o banimento de todo calendário, pois em seu reino de “liberdade” não estariam sujeitos a nenhum cômputo de tempo. As leis da moralidade foram também banidas, surgindo com isso um completo caos. Essa desordem revelou-se de maneira mais patente no barulho estridente e cacofônico, ao qual proclamaram como a nova música. Dominados pelo egoísmo, Samael e seus seguidores alimentavam-se de ilusões, inconscientes de que seus dias estavam contados. Os frutos da rebelião não tardariam a atrair sobre eles o fogo da destruição.

Dividindo seus seguidores em pequenos grupos, Samael passou a comandá-los em atos violentos que aterrorizavam os moradores das planícies. Por esse tempo, eles escondiam-se nas cavernas situadas próximas ao mar salgado.

O respeito e o medo dos guerrilheiros de Samael levaram finalmente os reis de quatro cidades a procurarem-no, propondo alianças de paz. Eram eles: Bara, rei de Sodoma; Bersa, rei de Gomorra; Senaab, rei de Adama; Semeber, rei de Seboim, e Segor, o rei de Bela. Por essa época, esses reis pagavam tributos a Cordolaomor, rei de Elam, que, acompanhado pelos exércitos de quatro outras cidades, os haviam subjugado no vale de Sidim junto ao mar salgado.

Fortalecido pelas alianças, Samael tornou-se mais ousado em suas investidas, levando o terror e a destruição aos territórios de cidades distantes. Os exércitos de Cordolaomor e seus aliados que retornavam nesses dias de outras conquistas, enfurecidos pelas provocações de Samael, marcharam contra os quatro reis, vencendo-os novamente no vale de Sidim. Foi nessa ocasião que levaram cativos os habitantes de Sodoma, entre os quais encontrava-se o meu sobrinho Ló. Acovardados diante do furor dos cinco reis, Samael e seus seguidores esconderam-se em suas cavernas, ao norte do mar salgado.

Capítulo XI

Os doze meses contados a partir do grande sacrifício estavam prestes a terminar. O cetro, totalmente restaurado, resplandecia em seu estojo, enquanto o príncipe, igualmente restabelecido das feridas causadas pela rebeldia, alegrava-se ao ver chegar o Yom Kipur de sua coroação. Enquanto isso, ele compunha lindas canções que expressavam o seu amor por Salém. Naqueles doze meses, a cidade da paz tornara-se mais bela, sendo adornada qual noiva para o grandioso dia da coroação.

A uma semana para o Yom Kipur, Samael, totalmente inconsciente de que o dia de seu julgamento se aproximava, reuniu os seus seguidores, anunciando-lhes que a próxima missão seria a conquista de Salém. Antes de avançarem, contudo, ele subiria sozinho para verificar os pontos vulneráveis da cidade. Depois de ser aplaudido pela turba, Samael partiu em sua missão de reconhecimento. Enquanto avançava sozinho, procurava não se lembrar daqueles momentos que lhe trouxeram terror pela culpa, mas, dominado por uma força superior, foi arrastado em suas lembranças para aquele monte da cruel tortura.

Todo o seu passado começou a vir-lhe à lembrança, como um peso esmagador. Quando despertou de suas lembranças, das quais não conseguiu fugir, já era noite. A escuridão que o envolvia pareceu-lhe o prenúncio de um triste fim. Esse desânimo, contudo, procurou bani-lo com a lembrança do exército que o esperava, pronto para cumprir suas ordens, na conquista de Salém, onde não haveria lembranças daquele pergaminho.

O alvorecer o alcançou próximo de Salém. Ao avistar o monte das Oliveiras, veio-lhe à lembrança a última vez que o transpôs, deixando para trás a cidade vencida. Quantas noites haviam passado desde então? Ele perdera a noção de tempo, não sabendo que justamente doze meses haviam se passado. Não podia imaginar que raiava naquela manhã o Yom Kipur, o dia de seu julgamento. Ao chegar ao topo do monte das Oliveiras naquela manhã, Samael surpreendeu-se ao ver que a cidade tornara-se mais bonita que outrora. Toda ela estava adornada de ramos e flores, como uma donzela à espera de seu noivo. Contudo, Salém estava abandonada, não havendo nenhum sinal de vida em todas as suas mansões. Isto o fez concluir que os golpes, que haviam aniquilado o príncipe e o cetro, trouxeram como conseqüência todo aquele abandono. Ele não sabia, contudo, que naquele momento todos os remanescentes daquele reino, encontravam-se ocultos no grande salão do palácio, aguardando pelo momento mais glorioso da coroação de Melquisedeque.

Imaginando-se exaltado sobre o trono abandonado, tendo a seus pés os exércitos vitoriosos, o rebelde penetrou na cidade, dirigindo-se apressadamente ao palácio. Ao transpor o portal principal que dava entrada ao salão principal, ficou surpreso ao ver ali reunida uma multidão de fiéis. Sobre um áureo tablado, enfeitado de flores talhadas em pedras preciosas, encontra-se o trono vazio. Na base do trono estava o pergaminho das leis, uma coroa de ouro cheia de pedras preciosas e o estojo que deixara vazio naquela noite de traição. Sem entender o enigma, Samael escondeu-se por trás de uma coluna, temendo ser reconhecido, e ficou observando. Os súditos, com expressão de feliz expectativa, olhavam para o trono vazio. Onde encontravam eles motivos para toda essa alegria, se haviam perdido o seu rei juntamente com o cetro? Samael questionava sobre esse mistério, quando Adonias, aplaudido pelos súditos, encaminhou-se para junto do trono. Com voz cheia de emoção pela vitória, o fundador de Salém anunciou que havia chegado o momento tão sonhado da coroação. Um brado de triunfo ecoou pelos ares quando, anunciado pelo seu pai, entrou o amado príncipe encaminhando-se em direção ao trono. Ao vê-lo coberto por um manto de glória, Samael ficou possuído por um terrível pavor, e procurou fugir. Descobriu, contudo, que todos os portais do grande salão estavam fechados por fora.

Teve início a cerimônia da coroação. Era um momento deveras solene. Adonias, num gesto reverente, tomou a rica coroa, colocando-a na fronte de seu filho. Prostrando-se depois sobre o estojo, abriu-o cuidadosamente, tirando dele o alaúde restaurado, cuja beleza e brilho eram muito superiores à sua primeira condição, ao sair das mãos de Adonias o seu luthier. Assentando-se no trono em meio às aclamações dos súditos, Melquisedeque passou a dedilhar o cetro, tirando dele acordes de muita harmonia e paz. Todos se aquietaram para ouvirem suas novas composições que expressavam o seu profundo amor pelo cetro e por todo aquele reino de paz.

Grande emoção invadia o coração de todos naquele momento, levando-os às lágrimas. Samael, sem forças para reagir, sentia-se torturado por aqueles acordes que faziam reviver em sua mente suas oportunidades perdidas, numa terrível dor para sua consciência. Melquisedeque compusera para aquele momento especial, canções que retratavam os momentos marcantes da história de Salém; Quando passou a cantar sobre a amizade que tinha por Samael, sua voz embargou-se pelas lágrimas que não conseguia conter. Triste para ele era cantar sobre a queda daquele que foi-lhe o maior amigo! Cantou então sobre o alto preço que teve de pagar pela reconquista do cetro, que representa a honra de Salém.

Ao contemplarem aquelas mãos marcadas pelas cicatrizes, tocando com tanta maestria e carinho o cetro restaurado, os súditos tomados por forte emoção, prostraram-se em pranto. Ao ver nas nãos de Melquisedeque aquele alaúde que, em suas mãos fora instrumento de tortura, Samael compreendeu, tarde demais o quanto errara, desviando-se dos conselhos do príncipe; Quantas vezes aquelas mãos sobre as quais descarregara toda aquela violência haviam sido estendidas num esforço de salvá-lo, e ele as havia negligenciado. Agora, era tarde demais! Tarde demais!!!

Capítulo XII

Os súditos triunfantes que, reverentes, haviam sido conduzidos a todo aquele passado de felicidade, traição, dor e triunfo, uniram finalmente as vozes numa jubilosa proclamação:

–           Verdadeiros e justos são os teus princípios, ó rei de Salém. Digno és de reinar em glória e majestade entre os louvores de teus fiéis, porque em teu sacrifício nos livraste das ameaças das trevas, fazendo renascer em nosso coração a alegria do alvorecer.

Esse cântico de exaltação foi seguido pela cerimônia de confirmação de todos os fiéis em sua vitória. O filho de Adonias, com o seu cetro redimido, passou a selar com um toque especial do cetro, a vitória de cada um. Formou-se para tanto uma longa fila de fiéis exultantes Os súditos confirmados, à medida em que iam recebendo o toque de aprovação do rei, posicionavam-se ao lado direito do trono, onde permaneciam aguardando pela confirmação dos outros.

Os olhares que, iluminados de alegria, haviam acompanhado o selamento dos últimos justos, pousaram sobre a figura estranha de Samael que, dominado por uma força irresistível, encaminhava-se cabisbaixo em direção do trono. Seu aspecto era horrível: seu semblante havia sido deformado pelo mal; suas vestes estavam sujas e mal cheirosas; tudo nele repugnava, ao ponto de ninguém reconhecê-lo. Em meio ao espanto dos súditos, Melquisedeque ergueu-se de seu trono como que ferido por uma grande dor; de seus lábios os súditos ouviram uma dolorosa exclamação:

–           Samael, Samael!!!

A figura deplorável daquele que fora tão belo, encheu a todos de tristeza, e começaram a prantear. Eles lamentavam por saber que o destino de Samael e de todos aqueles que o seguiram, poderia ter sido muito diferente, se eles houvessem atendido aos rogos de amor de Adonias e de seu filho. Não era o plano do rei e o sonho de Melquisedeque tê-lo como o guardião do pergaminho, sendo o segundo em honra naquele reino?

Samael que, reconhecendo sua desventura, aproximara-se cabisbaixo do trono, ao presenciar toda aquela lamentação, foi novamente iludido pelo orgulho, julgando tratar-se de uma demonstração de fraqueza de seus inimigos. A lembrança de seu exército que fortalecido o aguardava na planície, iludiu-o com a certeza de que seria vitorioso sobre Salém. Com esse pensamento, ergueu a fronte marcada pelo ódio e, fitando o rei, levantou o punho cerrado e o desafiou, desdenhando de sua autoridade, com a ameaça de tomar-lhe o trono. Ainda que condoídos por sua perdição, os súditos de Salém não suportaram a ousada afronta daquele enlouquecido jovem que, depois de causar tanto sofrimento, ainda era capaz de erguer-se com tamanho desafio.

O vitorioso rei que com tanto prazer selara com o seu cetro a conquista dos fiéis, ergueu-o dolorosamente para o selamento da triste sorte dos rebeldes. Imobilizado por uma força estranha, Samael, sem desviar os olhos do cetro, ouviu dos lábios do rei a proclamação de seu julgamento e de todos os seguidores: Prisioneiros de uma força invisível, ficariam retidos em suas cavernas por seis anos, sendo depois visitados pelo fogo do juízo que os destruiria juntamente com as cidades que a eles se aliaram.

Capítulo XIII

Ao ir para a cama depois daquele dia de tantas emoções, o jovem rei, imerso nas lembranças daquele passado de felicidade e dor, rolava em sua cama insone. Quando finalmente adormeceu, teve um sonho muito significativo. No sonho, apareceu-lhe um anjo luminoso, que saudou-o com um sorriso, dizendo-lhe que todo o Universo acompanhava com atenção aquele drama que estavam vivendo, e que o mesmo tinha um sentido prefigurativo, retratando acontecimentos passados e futuros, que envolvia todo o vasto universo.

As palavras do anjo despertaram em Melquisedeque um grande desejo de conhecer a história desse drama cósmico. Conhecendo o seu anseio, o anjo arrebatou-o no sonho revelando-lhe um distante futuro. Diante de seus olhos manifestaram-se as glórias de uma nova e esplêndida Salém, cujas muralhas e mansões eram de pedras preciosas; os portais da cidade eram de pérolas. Suas amplas avenidas eram de ouro puro. A cidade era quadrangular e se estendia por centenas de quilômetros. Estava dividida em dois setores distintos: Norte e Sul. Ao Sul elevavam-se incontáveis mansões, habitações eternas de anjos e de seres humanos redimidos. Ao Norte havia um lindo paraíso ao qual o anjo revelou ser o jardim do Éden. Ali, em ambas as margens do rio da vida, havia campos repletos de todo tipo de vegetação, com flores e frutos em abundância. Viviam ali em perfeita harmonia, todas as espécies de aves e animais.

No meio do paraíso podia-se ver uma montanha fulgurante, a qual o anjo afirmou ser o monte Sião, o lugar do trono de Deus. Era daquele monte que emanava o rio da vida, fluindo por toda a cidade. Quando alcançaram o topo da montanha sagrada, o rei de Salém ficou deslumbrado com o cenário visto ao seu redor. Encontrava-se na parte mais elevada de Sião a mais linda de todas as edificações revelado pelo anjo como o palácio de Deus. Aquela magnífica construção era sustentada por sete colunas, todas de ouro transparente, engastadas de lindas pérolas. Ao redor do palácio, floresciam a mais exuberante vegetação: havia ali o pinheiro, o cipreste, a oliveira, a murta, a romãzeira e a figueira, curvada ao peso de seus figos maduros.

Enquanto admirava-se ante a beleza daquele lugar, o anjo disse-lhe que a nenhum ser humano fora dado o privilégio de ver o interior daquele palácio de Deus. A ele seria dada esta honra, pois fora escolhido para ser o portador das mais amplas revelações sobre o reino da luz. Ao transporem com reverência um dos portais de pérolas, prostraram-se em adoração, enquanto ouviam o cântico de uma multidão de serafins, que circundavam o trono, em constante louvor Àquele que Era, que É e que Sempre Será. Ao olhar para Aquele que estava assentado sobre o trono, Melquisedeque ficou surpreso ao descobrir a figura de um homem. Ele estava coberto por um manto de linho fino, de uma alvura sem igual, e tinha sobre a cabeça uma coroa formada por sete coroas sobrepostas, repletas de pedras preciosas.

Ao olhar para as mãos que sustentavam o cetro, o filho de Adonias ficou surpreso ao descobrir nelas cicatrizes de ferimentos, semelhantes àquelas em suas mãos. O anjo afirmou-lhe ser o Messias, o Grande Melquisedeque, a manifestação visível de Yahweh, o Deus Invisível. Atraído para o cetro resplandecente, com o qual o Messias governava sobre todo o Universo, o rei de Salém viu nele o selo do domínio, e nele escrito o nome: Israel. Tomado por profunda emoção, Melquisedeque prostrou-se ante o Rei daquela eterna Salém, e, revivendo ali a história de sua pequena cidade, teve desejo de conhecer o grande drama da história universal. Conhecendo o desejo de seu coração, o anjo disse-lhe:

–           Agora lhe farei conhecer a história desta gloriosa Salém. Tudo o que lhe for mostrado na visão, você deverá registrar fielmente em um rolo. Você terá seis anos para escrevê-los. Ao fim dos sete anos, você receberá das mãos de um ancião um vaso contendo um rolo especial, com muitas revelações importantes, entre as quais estará a história de Salém. Você tomará esse rolo, e o costurará ao seu, formando um único rolo. Você o devolverá juntamente com o vaso ao patriarca para que ele o leve ao lugar que lhe mostrarei, onde ficará oculto até o fim dos dias. As revelações desse grande rolo, consistirão na luz e no consolo que enviarei aos escolhidos por ocasião da última semana de anos da história.

Depois de falar ao rei de Salém estas palavras, o anjo conduziu-o em visão a um infinito passado, quando o Universo ainda não existia. Uma história muito parecida com a de Salém passou a desdobrar-se diante de seus olhos; porém, numa dimensão infinitamente maior, começando pela criação do reino da luz. Com admiração contemplou a formação de bilhões de mundos e estrelas, repletos de vida e felicidade que passaram a girar em torno da Salém Celeste, o paraíso de Deus. Sua atenção voltou-se depois para o mais belo de todos os querubins que, honrado pelo Criador, passou a residir com Ele em Seu palácio. Uma eternidade de felicidade e paz parecia embalar aquele reino, quando a mesma experiência de egoísmo e rebeldia vivida por Samael, começou a repetir-se na vida daquele anjo amado. Cenas de uma grande rebelião começaram a ser mostradas a Melquisedeque, envolvendo todos os habitantes do Universo. O querubim honrado, semelhante a Samael, seduzira um terço das hostes que, passaram a reverenciá-lo como rei.

Em meio às cenas daquele grande conflito, o rei de Salém testemunhou a criação do planeta Terra, sobre a qual surgiu o homem como cetro racional daquele reino disputado. Com agonia viu o momento em que o chefe da rebelião aproximou-se subtilmente do paraíso, apossando-se do ser humano, depois de seduzi-lo com tentações. Ouviu então o seu brado, numa proclamação de vitória. A partir daquele momento, o inimigo de Deus passou a arruinar o ser humano, apagando nele todos os traços da glória divina, como Samael fizera com o cetro.

A sua própria experiência, ao declarar naquela manhã aos súditos de Salém sua decisão de ir em busca do cetro perdido, começou a repetir-se diante de Seus olhos. Reunindo as hostes que haviam permanecido fiéis ao Seu governo, o Criador passou a revelar um plano de resgate: Ele haveria de ir em busca do homem, e o remiria, ainda que isto lhe custasse infinito sacrifício. Diante desta revelação, o filho de Adonias prostrou-se comovido, ao descobrir que em sua vida tivera a honra de retratara o próprio Messias.

Todo o drama vivido pelo filho de Adonias em sua angustiante busca, até o momento de seu suplício pela redenção do cetro, foi ganhando amplitude naquela visão que abarcava toda uma eternidade. Diante de seus olhos desfilavam cenas de uma grande batalha que, sem trégua se estenderia até o dia do juízo final, quando o Messias, o Grande Melquisedeque, vitorioso, empunharia o cetro redimido, selando com ele a condenação de todos os filhos de Belial..

Capítulo XIV

Através das revelações recebidas do anjo, Melquisedeque tomou conhecimento do livramento alcançado por ocasião de sua coroação, quando diante de trezentos pastores com seus vasos incendiados, exércitos de cinco reis tombaram, saindo livres os cativos. Conhecendo nossa intenção de subir à Salém por ocasião de Sukot, o rei fez preparativos para uma grande festa, na qual comemoraríamos juntos a vitória sobre toda a desarmonia gerada pelo orgulho e pelo egoísmo. Foi por isso que ao chegarmos a Salém, ficamos surpresos com toda aquela honrada recepção.

Ocupar-me com o relato de todos esses acontecimentos, fez-me passar por todo este sétimo ano, quase sem notar os seus dias, que passaram velozes. Estamos hoje às portas de um novo Rosh Hashanah, quando os 300 pastores tocarão os chifres, convocando todos aqueles que possuem as pérolas, para a reunião solene de Yom Kipur. Cinco dias depois seremos recebidos em Salém para a festa de Sukot. A certeza de que acontecimentos importantes ainda deverão ser relatados neste rolo, fez-me reservar um espaço, no qual registrarei, dia após dia, os fatos, até a consumação desta história que estamos vivendo.

Rosh Hashaná! Esse foi o dia mais feliz de minha vida, pois meus braços puderam receber o filho da promessa. A primeira coisa que fiz, foi colocar-lhe em sua mãozinha direita a Segunda pérola que o Messias deu a Sara no dia de sua conversão; Ele a segurou com firmeza, alegrando-nos com a certeza de que viverá para sempre ao nosso lado. Dois dias antes do Yom Kipur, Isaque foi circuncidado, conforme a ordem do Eterno. Desde que os pastores começaram a tocar seus chifres em Rosh Hashanah, todos aqueles que possuem pérolas do vaso, deixaram suas tendas, dirigindo-se em pequenos grupos, para junto do Carvalho de Mambré.

Ao chegar o Yom Kipur, o dia da reunião solene, meus pastores informaram-me que todos aqueles que haviam recebido as pérolas, haviam comparecido ao encontro, não faltando nenhuma pessoa. É maravilhoso ver a alegria estampada no semblante de toda essa multidão que anseia pela subida à Salém. Todos trazem uma história para contar, de como foram vitoriosos sobre tantos desafios e provações. Todos estão felizes com a expectativa da subida à Salém para a festa de Sukot.

No primeiro dia da festa de Sukot, a multidão foi subdividida em pequenos grupos de doze pessoas, para subirmos em ordem à Salém. Tendo sobre os ombros o vaso com o rolo, posicionei-me à frente da multidão, sendo seguido por Sara e Isaque que vinham montados num camelo; Logo atrás vinha Ló e suas filhas; um pouco atrás, os trezentos pastores seguidos por todos os fiéis.

Iniciávamos nossa escalada quando, acompanhado por todos os seus súditos, surgiu Melquisedeque vindo ao nosso encontro, fazendo vibrar pelos ares o som festivo de muitos instrumentos musicais, comemorando a grande vitória. Depois de saudar-nos, o filho de Adonias conduziu-nos numa marcha festiva até adentrarmos os portais de Salém, que encontra-se agora mais bonita que outrora. Antes de iniciar o banquete, Melquisedeque coroou todos os vencedores, enquanto as hostes de Salém faziam soar seus instrumentos, comemorando a feliz vitória..

Grande foi a alegria do rei de Salém quando entreguei-lhe o jarro com o manuscrito. Ao desenrolá-lo, fiquei surpreso ao ver sua atenção voltar-se para a última parte do rolo que ainda estava vazia. Como se estivesse lendo algo ali, ele me disse:

–           Abraão, de tudo o que você escreveu , nada me comove mais do que o relato que você registrará na última parte de seu manuscrito.

Melquisedeque mostrou-me em seguida um rolo escrito por dentro e por fora, no qual escrevera naqueles seis anos a história do Universo, conforme revelações feitas a ele por um anjo. Tomando o meu manuscrito, ele o costurou ao seu formando um grande rolo. Tendo feito isto, enrolou-o cuidadosamente, colocando-o dentro do jarro.

Ao chegar o oitavo dia da festa, num ato que surpreendeu a todos, o rei enalteceu o jarro, colocando-o sobre o seu trono. Ao ver o vaso que fora tão humilhado e rejeitado, agora glorificado em meio aos louvores de Salém, senti uma forte emoção e chorei; Era impossível olhar para ele, sem pensar no seu significado: era um perfeito símbolo do Messias prometido. Por intermédio dele, muitas vidas haviam sido libertas e transformadas, começando pela minha. Sem o dom daquele vaso, eu não teria hoje em meus braços meu querido Isaque pelo qual Sara e eu esperamos por tanto tempo.

Depois de entronizar o jarro, o filho de Adonias, chamando-me para junto do trono, passou a honrar-me perante todos os fiéis; Tomando a caixinha de ouro na qual colocara as 144 pérolas do dízimo, ele colocou-a em minhas mãos, afirmando ser um presente seu para Isaque. Como se não bastasse, ele tomou o vaso que continha o valioso rolo e, colocando-o aos meus pés, disse que ele pertencia a mim e aos meus descendentes para sempre. Com o coração repleto de alegria, prostrei-me diante do rei que me oferecia tão precioso dom, estendendo-lhe as mãos com a caixinha das pérolas. Tomando-a de minhas mãos, ele a colocou dentro do jarro sob o rolo, reafirmando sua doação.

Capítulo XV

Ao dirigir-me ao aposento naquela noite, tendo ao meu lado Sara, Isaque e o jarro com o seu tesouro, experimentava uma felicidade jamais sentida em toda a minha vida. Como me era difícil pegar-me ao sono, fiquei acordado por longo tempo, imaginando o futuro de glória de Isaque e do jarro, cuja mensagem de amor, justiça e paz, levaria esperança aos meus descendentes por todas as gerações, até a vinda do Messias. Imaginando esse futuro feliz adormeci e tive um sonho no qual muito sofri. No sonho, o Eterno apareceu-me e disse:

–           Abraão, toma agora o jarro o qual tanto amas, e leva-o ao Mar Salgado, onde lhe mostrarei uma caverna na qual você o ocultará

Depois de dar-me esta ordem, o Eterno entregou-me uma machadinha e um manto de linho, com o qual envolvi o vaso. Comecei então uma dolorosa jornada, levando sobre os ombros aquele que simbolizava a concretização de todos as minhas esperanças. Quando cheguei à região norte do mar, fui conduzido para junto da caverna que deveria ocultar o jarro. Colocando-o sobre uma pedra, num gesto de despedida, passei a acariciá-lo, enquanto contemplava os adornos e inscrições que o embelezavam; o pensamento de que não mais o teria comigo, enchia-me de profunda tristeza. Meus olhos voltaram-se para a figura de Melquisedeque que inclinava-se para receber recebê-lo repleto de jóias. De repente a figura do rei começou a ganhar vida e movimento, e foi crescendo até que todo o jarro transformou-se num belo jovem que me olhava com amor. Pensei a princípio que fosse o rei de Salém, mas olhando para suas mãos, não encontrei as cicatrizes. Ao ver que seus olhos eram tão parecidos com os de Sara, perguntei-lhe o nome. Ele respondeu-me com um sorriso que era Isaque, o meu filho.

Alegrava-me na presença de Isaque, quando a voz divina novamente soou-me aos ouvidos dizendo:

–           Abraão, toma agora o teu filho a quem amas, e sacrifica-o com a machadinha que eu te dei(1)

Aterrorizado ante a ordem divina, caí aos pés de Isaque, não encontrando forças nem coragem para realizar o terrível ato. Contudo, ele consolou-me, afirmando estar disposto a cumprir a vontade divina. Depois de terrível luta íntima, tomei a decisão de sacrificar meu filho. Ao erguer-me, vi que Isaque contorcia-se em grande agonia, enquanto o seu corpo tornava-se coberto de chagas que cheiravam mal. Sentia desejo de socorrê-lo, curando-lhe as chagas, mas a voz insistia em sua ordem, para que eu o sacrificasse. Tomei então a machadinha e a ergui sobre o seu pescoço. Quando meus braços moviam-se para o golpe, um forte clarão nos iluminou, e senti que a machadinha não mais estava em minhas mãos.

Ao erguer a fronte, me deparei com o peregrino que anunciara o nascimento de Isaque. Ele estava vestido com vestes brilhantes, de linho fino, branco e puro; Seu rosto brilhava como o sol, enquanto olhava-me com infinito amor. Abraçando-me, ele enxugou minhas lágrimas e disse:

–           Abraão, agora sei que você verdadeiramente me ama, porque não me negou nem o jarro nem o seu filho a quem você ama. Por causa desse amor, eu transformarei você no pai da fé, e muitos povos e nações se alegrarão na luz do rolo que lhe foi dado.

Tendo dito estas palavras, o Peregrino encaminhando-se para Isaque que contorcia-se em dor, colocando as mãos sobre sua cabeça. Esse contato fez com que todas as impurezas que manifestavam-se em chagas purulentas no corpo de meu filho, se transferissem para o Seu corpo, enquanto a Sua glória era transferida para Isaque. Fiquei possuído por um misto de alívio e pesar – alívio por ver Isaque restaurado, mas aflito por contemplar o Messias opresso por tantas culpas. Por entre gemidos de dor ele afirmou:

–           Eu morrerei, para que Isaque e sua descendência possa ser justificada, redimida e glorificada perante Yahweh.

Ao voltar-me para o meu filho que fora liberto, vi que seu lugar fora ocupado por doze jovens que se chamavam: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar, Zebulon, José, Benjamim, Dã, Naftalí, Gad, Aser. Quando lhes apresentei o Peregrino sofredor, eles o menosprezaram por não verem nele nenhuma beleza que os atraíssem. Finalmente eles o conduziram como um cordeiro e o sacrificaram, lançando o seu corpo dentro daquela caverna.(2)

Sobrevieram logo depois as trevas de uma longa noite, na qual fomos atacados por um grande exército que, depois de ferir-nos, arrancou-nos de nossa terra, espalhando-nos por entre as nações. Ali, todos os que nos encontravam nos humilhavam e perseguiam, acusando-nos da morte do Peregrino, e assim sofremos por toda a noite. Quando o dia estava quase raiando, sobreveio-nos o maior sofrimento, pois nossos inimigos, depois de uma pequena trégua, investiram sobre nós com a intenção de nos destruir completamente. O Eterno, contudo, bendito seja o Seu nome, teve compaixão de nós e nos libertou, reconduzindo-nos para a Terra Prometida. Mas mesmo ali não encontramos descanso, pois tínhamos de estar sempre atentos, defendendo-nos de muitos inimigos que procuravam nos destruir.

Cansados desses conflitos, nos aproximamos de nossos inimigos propondo uma aliança de paz; quando o acordo estava prestes a se concretizar, um desentendimento envolveu-nos num conflito ainda maior. Enquanto ouvíamos gritos de todos os lados clamando contra nós, vimos baixar as trevas de mais uma escura noite. Angustiados, passamos a clamar ao Eterno, dizendo:

–           Até quando Senhor buscaremos a paz e não a acharemos?! Ansiamos pelo descanso que nos prometestes, mas somente encontramos o furor de nossos inimigos! Auxilia-nos Senhor! Até quando teremos de esperar?!

Enquanto clamava em minha angústia, o Senhor veio ao meu encontro e disse-me:

–           Abraão, olha para o céu e conta o número das estrelas.

Ao olhar para o céu, vi que as estrelas moviam-se formando pequenos grupos de doze. Esses grupos por sua vez, juntavam-se de doze em doze, em formações perfeitas de 144 estrelas. Finalmente todo o céu cobriu-se por esses agrupamentos estelares: eram ao todo 40 grupos, somando um total de 5760 estrelas. Enquanto imaginava o que poderia significar o número daquelas estrelas, vi surgir no meio delas outra especial que foi aumentando em brilho e grandeza. A sua luz crescente, deu-me a certeza de que aquela noite seria finalmente vencida, e alcançaríamos um alvorecer de paz. A estrela de número 5761 continuou aumentando até que tornou-se do tamanho da Lua, e nela pude ler em letras muito brilhantes a palavra: Sábado, e abaixo, o nome de Israel.

Quando os raios que emanavam das letras sagradas começaram a penetrar as trevas da noite, atraindo a atenção de muitos sobre a Terra, ventos fortes vindos do Norte começaram a soprar, trazendo pesadas e negras nuvens em direção da estrela. Formou-se um cerco de trevas, enquanto camadas sobre camadas de nuvens foram comprimindo a estrela que, sem forças para resistir, foi-se apagando até que mergulhou em completa escuridão. Com o coração aflito, continuei olhando na direção da estrela oculta, sem perder a esperança de que ela seria liberta das garras daquelas nuvens ameaçadoras.

Em diferentes partes do céu escurecido pelas nuvens, começaram a surgir pontinhos de luz que foram se

agrupando de sete em sete, até alcançarem o total de 483 estrelas. Sem temerem as ameaças das nuvens escuras, elas foram-se aproximando mais e mais até formarem um anel de luz em torno da estrela opressa. O brilho dessas pequenas estrelas fez renascer a esperança de um livramento, e a estrela cativa emitiu por entre as nuvens um tênue raio de confiança.

Ao estreitarem-se cada vez mais em torno da estrela escurecida, as 483 estrelas se fundiram finalmente a ela, comunicando-lhe sua luz. Nesse momento, um grande clarão tomou conta do céu, e todas as nuvens foram desfeitas, perdendo o seu domínio. A junção de todas essas estrelas, deu origem a uma estrela de incomensurável esplendor, semelhante ao Sol. Em forma de uma coroa que pairava sobre ela, podia-se ler: Yom Kipur – É chegado o Último Jubileu.

Assim que surgiu no céu a estrela do Último Jubileu, veio ao nosso encontro um pequeno beduíno, carregando sobre os ombros um pesado jarro. Sua face estava marcada por uma grande luta, mas refletia a luz da estrela que lhe dava consolo e indizível alegria. Em seu jarro estava escrito em grandes letras o seguinte: “Caiu! Caiu a grande Babilônia! Sai dela povo meu! (3)

Aproximando-se dos doze filhos de Israel, o pequeno beduíno saudou-os com um sorriso, e disse-lhes que viera de muito longe, trazendo-lhes uma mensagem e um presente da parte do Rei de Salém. Curiosos, mas ao mesmo tempo desconfiados, eles assentaram-se e ficaram esperando, enquanto o beduíno enfiava suas mãos no jarro. A primeira coisa que ele tirou dali foi um pequeno manuscrito com uma mensagem intitulada: O Último Jubileu: Um Texto Sobre Melquisedeque. Os doze olharam entre si surpresos, pois o título da carta estava relacionado com as palavras escritas na última estrela. Ansiosos por conhecerem o conteúdo do manuscrito, eles o tomaram e passaram a ler as seguintes palavras:

–           “Falarei sobre o Ano Jubileu, que encontra-se em Levítico 25:13. Nós lemos: Neste Ano Jubileu, tornará cada um à sua possessão”. Esta é uma parte do mandamento que cumprir-se-á nos últimos dias, no Período da Remissão, quando aqueles que estão em cativeiro serão libertos, conforme as palavras de Isaias: “O Senhor enviou-me para proclamar libertação aos cativos.”(3)

–           O Libertador é o Messias, que foi prefigurado por Melquisedeque, rei de Salém. Ele era e sacerdote do Deus Altíssimo, e pronunciou uma benção sobre o nosso pai Abraão. Como Sumo Sacerdote, o Messias que é nosso eterno Melquisedeque, receberá por herança o domínio sobre todas as coisas, e Abraão tomará parte nesta herança. Não somente Abraão, como também sua descendência terá esse privilégio, quando ela se unir a Deus numa eterna aliança. Naquele tempo, o próprio Senhor será a herança e patrimônio de Seu povo. No último jubileu, Deus restaurará o Seu povo, e eles retornarão, cada um, ao seu patrimônio. A libertação referida na Lei do Jubileu deve ser entendida com o sentido de remissão de suas culpas, e não haverá mais punição para aqueles que forem justificados. Isto ocorrerá na última semana de uma série de setenta semanas de anos, envolvendo nove precedentes jubileus.(5)

–           Ao chegar o Dia do Juízo do Último Jubileu, todos aqueles que se colocam do lado da justiça, terão suas culpas anuladas, ao passo que os injustos e maus colherão as conseqüências de tudo o que semearam, e encontrarão o seu fim. (6)

–           Começará então o Ano do Favorável, do qual fala o profeta Isaias (61:2), que será marcado pelo Favor de Deus, pois o Rei da Justiça, Aquele que foi prefigurado por Melquisedeque, receberá o Seu domínio. Ele assentar-se-á entre as hostes santas no Céu, e executará várias sentenças de julgamentos, como foi predito por Davi: “Deus assentou-se em concílio entre os seres celestes, para realizar julgamento”.(7) Por meio desse julgamento, Israel será absolvido de suas culpas, e retornará ao seu lugar de eminência em meio aos povos. Esse retorno ocorrerá em cumprimento da Lei do Jubileu.

–           Ao mesmo tempo em que a palavra “Favor” indica o triunfo dos filhos de Deus, ela aponta também para a destruição dos ímpios. Salmos 7: 9 e 10 faz referência a esse julgamento, dizendo: “Deus é o juiz dos povos. Põe fim à maldade dos ímpios e confirma o justo”. Serão desarraigados todos os filhos de Belial, aqueles que desafiam os estatutos de Deus, e pervertem a justiça. O futuro Rei da Justiça, que é Melquisedeque (o Messias) executará sobre eles a justiça de Deus, estabelecendo ao mesmo tempo os justos. Acompanhado pelos exércitos celestes, ele dará fim aos intentos dos ímpios, fazendo com que os filhos de Deus fiquem em eminência. O julgamento em questão é o mesmo Dia da Retribuição do qual fala o profeta Isaias: “Como são belos sobre os montes os pés daquele que proclama a paz (Shalom), o mensageiro que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação; que diz a Sião: O teu Deus agora é aclamado Rei.”(8) A palavra paz (shalom) pode também ser lida como (shillum) que significa “retribuição”.

–           O mensageiro prometido se manifestará no Último Jubileu, e proclamará a sua mensagem de paz, dizendo: “ O Senhor enviou-me para confortar todos os que choram.” (9) O conforto que ele trará, consistirá numa revelação das sucessivas eras da história do universo, desde o princípio da criação até o fim. Naquele tempo, os filhos de Belial se aliarão com o propósito de perverter toda a justiça, mas serão confundidos pelos julgamentos de Deus.

–           O reino de Deus em Sião, será estabelecido mediante a aliança que Melquisedeque ( o Rei da Justiça) fará com todos os justos , destruindo ao mesmo tempo os filhos de Belial. O mandamento do jubileu fala também de um forte som de trombeta que repercutirá por toda a terra, no dia dez do sétimo mês.(10) Aplicando-se aos últimos dias, isto se refere à uma poderosa manifestação divina que sacudirá o mundo, preparando-o para a Era Messiânica” (*)

(*) O texto em destaque é uma tradução livre do manuscrito original encontrado na Gruta 11 de Qunram, em janeiro de 1956, por beduínos da tribo de Taamireh.

Depois de lerem com atenção as promessas contidas no pergaminho, os doze voltaram-se para o beduíno que, curvando-se sobre o jarro, tomou um grande rolo de pele de cordeiro, escrito por dentro e por fora. Antes de entregar-lhes, afirmou que a mensagem de consolo prometida no manuscrito que acabavam de ler, estava contida naquele rolo especial. Ao abrirem-no, vi que era o Livro de Melquisedeque, composto pelo manuscrito do rei de Salém e pelo meu. A leitura dos relatos ali contidos comoveu-os profundamente, levando-os a compreenderem que aquele a quem menosprezaram e entregaram para a morte, era o Messias prometido, o grande Melquisedeque que, em virtude de seu sacrifício, os libertara naquele Último Jubileu.

Cheios de arrependimento, choraram amargamente, mas foram consolados pelas revelações contidas no manuscrito do rei, onde as sucessivas eras da história eram contadas em ricos detalhes, desde o princípio da criação até aquele tempo.

Ao terminarem a leitura do Livro de Melquisedeque, os doze prostraram-se reverentes, e louvaram ao Eterno pelo consolo que lhes enviara, através de tão humilde mensageiro. Curvando-se sobre o jarro, o menino tomou uma caixinha de ouro ornamentada com pedras preciosas, na qual haviam 144 pérolas de variados tamanhos. Afirmando ser um presente de Melquisedeque para eles, o beduíno passou a distribuí-las, doze para cada, começando por Rúben. Aquelas pérolas simbolizavam a vitória que haviam alcançado mediante a concretização de uma nova e eterna aliança com o grande Melquisedeque, que é o Messias.

Depois de louvarem ao Eterno pelas pérolas que selavam a vitória alcançada, os doze, num gesto de reconhecimento e gratidão, passaram a honrar o humilde beduíno que, por meio de lutas e sacrifícios, resgatara das trevas todos aqueles tesouros, para ofertar-lhes naquele Jubileu. Representando os seus irmãos, Rúben, o primogênito, tomou um de seus melhores mantos e cobriu o corpo desnudo do menino. Aquecido por aquele manto que simbolizava sua maior conquista, o beduíno emocionou-se ao ver que ele trazia, do lado de seu coração, um distintivo precioso, com a gravura de uma cruz vermelha da qual saiam raios dourados. Isto fez com que reconhecesse que toda aquela honra recebida, pertencia ao Messias que resgatou-o das profundezas de uma caverna, conduzindo os seus passos através de caminhos perigosos e solitários, até que pudesse entregar aos filhos de Israel os tesouros contidos no jarro. Ele devia também aquela conquista aos seus três irmãos, sem os quais não teria encontrado aquele presente do rei de Salém. A lembrança de seus irmãos o fez chorar de saudade, e desejou muito beijar suas faces, compartilhando com eles toda a honra recebida.

Num gesto surpreendente que consolou o coração do menino, Rúben tomou três de suas pérolas mais  brilhantes e, colocando-as numa caixinha vermelha, entregou-as ao menino e disse:

–           Estas pérolas são para os seus irmãos.

Logo depois surgiram ao longe a figura de três beduínos que caminhavam ao nosso encontro, trazendo jarros em seus ombros. Quando os viu, o menino alegrou-se ao descobrir que eram os seus irmãos. O mais velho tinha em seu jarro uma inscrição que dizia: Temei a Deus e dai-lhe glória, pois é chegada a hora de seu juízo.(11) O segundo trazia no vaso a mesma inscrição contida no jarro do menino, porém em letras menores e menos brilhantes: Caiu, caiu a Grande Babilônia!(12) O terceiro carregava um vaso um pouco maior que os dois anteriores, e nele estava escrita uma advertência: Se alguém adorar a besta ou a sua imagem, e receber o sinal na fronte, ou na mão, também o tal beberá do vinho da ira de Deus, que se acha preparado sem mistura, no cálice da sua ira; e será atormentado com fogo e enxofre diante dos santos anjos e diante do Cordeiro. Abaixo desta advertência, em grandes letras lia-se o seguinte: Aqui está a perseverança dos santos, daqueles que guardam os mandamentos de Deus e tem a fé do Messias.(13)

Quando eles viram o seu irmão mais novo em honra perante os filhos de Israel, correram ao seu encontro e prostraram-se, depondo os seus jarros aos seus pés. Em grande pranto revelaram o seu arrependimento pelo desprezo e sofrimentos pelos quais o fizeram passar. O pequeno beduíno inclinando-se para os seus irmãos com amor, beijou-lhes as faces, e falou-lhes que tudo o que lhes acontecera, fora para o bem. Depois de consolarem-se, os filhos de Israel prepararam um banquete em homenagem ao pequeno beduíno e aos seus irmãos. No banquete o rolo foi mais uma vez aberto, e todos alegraram-se com sua mensagem. Quando estavam quase ao fim da festa, o menino honrou os seus irmãos na presença de todos, dando-lhes as pérolas recebidas de Rúben. O mais velho recebeu a pérola menor, o do meio a pérola de tamanho médio, e o mais novo a maior. Eles ficaram felizes ao receberem aquelas jóias que simbolizavam sua vitória.

Todos tinham agora suas pérolas, menos o menino, cuja alegria consistia em ver os filhos de Israel e seus irmãos enriquecidos pelos presentes do Rei. A maior e mais brilhante de todas as pérolas, contudo, Rúben separara para ele. Quando a recebeu, seu coração transbordou de indizível alegria, vendo nela o símbolo de seu triunfo. Na pérola havia três inscrições: Melquisedeque, Eliahu Hanavi e Nova Jerusalém.

Depois da festa, o pequeno beduíno procurou pelo seu jarro, e ficou surpreso ao encontrá-lo repleto de

pérolas. Com muito esforço, tomou-o em seus braços, levando-o para junto de seus irmãos que tinham os seus jarros vazios. Começando pelo primogênito, ele foi compartilhando o tesouro, até que todos os vasos se encheram com aquelaslindas pérolas.  Renascidos pelo arrependimento e movidos pela gratidão, os três beduínos juntamente com os doze filhos de Israel, seguiram os passos do menino na realização de uma importante obra sobre a Terra: Sua missão seria abrir perante o mundo o Rolo de Melquisedeque, oferecendo a todos quantos aceitassem sua mensagem, aquelas pérolas que simbolizam a vida.

Durante seis anos a humanidade teria a oportunidade de conhecer a mensagem do rolo, e as advertências escritas naqueles jarros, apossando-se das pérolas da salvação. Ao fim dos seis anos, os jarros se esvaziariam e o rolo seria fechado. Enquanto os anos da oportunidade se escoavam, multidões acorriam de todas as partes em busca da mensagem do rolo e das pérolas. Olhando para os céus, descobri que a cada novo ano que era representado por um dia da semana, uma nova estrela surgia ao lado da estrela do jubileu, iluminando cada vez mais a Terra com a sua glória. Ao fim dos seis anos de oportunidade, o mundo achava-se dividido em duas classes de pessoas: os possuidores das pérolas da salvação, que são chamados filhos de Deus, e os que rebelaram-se contra a mensagem do rolo, os filhos de Belial.

Ao expirar-se o tempo da oportunidade, no momento em que as seis estrelas do jubileu enchiam toda a Terra com sua claridade, soou uma voz desde os céus, dizendo: Está Consumado! Quem é injusto , faça injustiça ainda; e quem está sujo, suje-se ainda; quem é justo, faça justiça ainda, e quem é santo, santifique-se ainda. Eis que cedo venho, e esta comigo a minha recompensa, para retribuir a cada um segundo a sua obra. Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o derradeiro, o princípio e o fim. Bem aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras no sangue do Cordeiro, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas. Ficarão de fora os feiticeiros, os adúlteros, os homicidas, os idólatras e todo o que ama e pratica a mentira.(14)

Quando o Messias, que é Melquisedeque, proclamou o decreto, o rolo foi fechado, pois não havia mais pérolas nos jarros. Subitamente as seis estrelas se apagaram, mergulhando o mundo em completa escuridão. Surgiu então no céu uma estrela vermelha, cujos raios traziam luz e proteção para os filhos de Deus, ao passo que para os ímpios traziam trevas e sofrimento. Isto fez com que eles blasfemassem contra Deus, levantando-se contra os Seus redimidos  No momento mais difícil, quando as mãos dos ímpios pesavam sobre os justos prestes a destruí-los, a Terra foi sacudida por um grande terremoto.(15) Em meio às nuvens negras, surgiu o brilho de uma estrela que foi crescendo rapidamente, até cobrir todo o céu. Hozanas de vitória ecoaram por todas as partes, quando os remidos contemplaram a face do Messias que vinha em seu socorro, acompanhado pelos exércitos dos céus. Diante de sua presença majestosa, os ímpios fugiram, mas foram consumidos pelo fogo.(16)

O Messias fez soar sua trombeta, e todos os justos mortos ressurgiram com corpos perfeitos e imortais. Logo depois, os justos vivos foram transformados, recebendo, igualmente, corpos incorruptíveis. Acompanhados pelos anjos, fomos arrebatados para o encontro com nosso Rei e Redentor nos ares. Ele nos recebeu com indizível alegria, e nos conduziu numa viagem inesquecível rumo à Nova e Eterna Jerusalém. (17)

Ao entrarmos na Cidade Santa, ficamos deslumbrados diante de tantas maravilhas. Fomos conduzidos ao paraíso, onde fora preparado um grande banquete para nós Ali, diante do trono, em meio às hosanas angelicais, fomos coroados pelo Messias, recebendo um reino de paz que jamais findará. Enquanto desfrutava as delícias do Éden, acordei e vi que tudo fora um sonho. Levantando-me, tomei Isaque nos braços e, sentando-me do lado do jarro, os acariciei até o alvorecer, enquanto relembrava as cenas marcantes de meu sonho.

Ao encontrar-me com Melquisedeque naquela manhã, desejei contar-lhe o meu sonho. Mas antes que eu lhe dissesse algo, ele fitou-me com um olhar muito parecido com o do Messias, e me deu uma ordem:

–           Abraão, toma agora o jarro que você tanto ama e leve-o ao Mar Salgado, onde lhe mostrarei uma caverna na qual você o esconderá.

Tomando uma machadinha e um manto de linho, o rei acompanhou-me até a caverna que eu vira no sonho, onde assentei-me para registrar estas últimas palavras. O rolo será agora lacrado, e será deixado no silêncio da caverna, e permanecerá oculto até que seja aberto perante as nações, no Último Jubileu.

Referências: (1) Gênesis 22: 1, 2; (2)Isaias 53; (3)Apocalipse 18: 2,4; (4)Isaias 61: 1; (5)

Levitico 25:10; Daniel 9: 24,25; (6) Levítico 25:9; (7)Salmo 82: 1; (8) Isaias 52:7; (9) Isaias 61: 3;

(10) Levítico 25: 9; (11) Apoc. 13:7; (12) Apoc. 13:9; (13)Apoc. 13:9 – 12; (14)Apoc. 22: 11-15;

(15) Apoc. 16: 17-21; (16) S. Mateus 24: 29-31; (17)I Coríntios 15: 50-55; Apoc. 21 e 22.

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